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Famoso radialista vê retrocesso de 40 anos na Rússia

00:03 | Abr. 27, 2022
Autor AFP
Tipo Notícia

Ele viveu por décadas como uma das principais vozes independentes da Rússia, mas o radialista Alexei Venediktov sabia que uma era havia acabado quando sua estação de rádio, a Echo de Moscou, foi fechada no mês passado.

"O país retrocedeu em todos os sentidos, para mim é um retrocesso de 40 anos", explica Venediktov, que ingressou na emissora em sua fundação em 1990 e a dirigiu durante os 20 anos de poder de Vladimir Putin até a invasão russa da Ucrânia há dois meses.

"Estamos exatamente em 1983 (...) com a guerra no Afeganistão (invadido pela URSS), dissidentes presos ou expulsos do país e o chefe da KGB (Yuri) Andropov no Kremlin", diz.

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Yuri Andropov foi o sucessor de Leonid Brezhnev como chefe da União Soviética.

E daqui a alguns anos, "um (Mikhail) Gorbachev virá", acrescenta com um sorriso, referindo-se ao líder soviético que liberalizou a URSS, derrubando todo o sistema.

Com cabelo grisalho e despenteado, o jornalista de 66 anos é uma figura de destaque na cena da mídia russa há anos, comandando o carro-chefe das emissoras liberais.

Echo de Moscou entrou no ar em agosto de 1990, nos meses finais da União Soviética, e se tornou um símbolo da nova liberdade de imprensa na Rússia.

Venediktov, ex-professor de história, ingressou na rádio como repórter e tornou-se editor-chefe em 1998.

À medida que a pressão sobre o jornalismo na Rússia crescia nos últimos 20 anos e muitos veículos independentes caíram sob controle estatal, a Echo de Moscou sobreviveu, o que muitos atribuíram aos laços de Venediktov com autoridades poderosas, algumas delas no Kremlin.

Ele não escondeu o fato de que tinha amigos na política, a quem chamava de "companheiros de copo", e foi um dos poucos jornalistas na Rússia que continuou a criticar abertamente Putin.

O chefe do Kremlin interveio pessoalmente quando algumas autoridades quiseram fechar a estação, explica Venediktov durante a entrevista com a AFP em um restaurante no centro de Moscou.

"Putin disse três vezes: 'Não, deixe-os trabalhar'", assegura.

Mas isso mudou quando a Rússia lançou sua ofensiva militar na Ucrânia em 24 de fevereiro e a Echo de Moscou descreveu a campanha como um "erro político".

A emissora desapareceu das ondas do rádio em 1º de março e encerrou formalmente seu conselho de administração, onde a maioria dos votos era controlada pela estatal energética Gazprom.

As frequências da emissora em Moscou e outras cidades foram assumidas pela rádio estatal Sputnik.

"Entendo a lógica (de Putin): não poderia nos manter porque a propaganda durante essas operações deve ser total", diz Venediktov.

A Rússia também introduziu em março sentenças de prisão de até 15 anos por publicar informações falsas sobre o exército. E o próprio Venediktov foi classificado no final de abril pelo governo como um "agente estrangeiro".

No mês passado, Venediktov postou a foto de uma cabeça de porco com uma peruca encaracolada que havia sido deixada do lado de fora de seu apartamento e um adesivo antissemita preso à porta.

Muitos jornalistas fugiram da Rússia temendo por sua segurança, mas Venediktov não tem planos de partir.

"As pessoas vão confiar mais em mim se eu passar pelas mesmas dificuldades, andar pelas mesmas ruas que elas e enfrentar as mesmas penalidades", explica.

Venediktov agora administra um canal no YouTube com meio milhão de assinantes.

Nele, continua falando sobre o conflito na Ucrânia, argumentando que os russos precisam saber "por que isso aconteceu" e "por que estão sofrendo".

Durante esses anos, o jornalista se encontrou várias vezes com Putin, mas "nunca falamos a mesma língua" porque o líder russo acredita que "a mídia é um instrumento" do Estado, diz.

"Disse-lhe cara a cara que o principal problema do país é a ausência de qualquer tipo de competição: política, ideológica e econômica", explica.

Apesar das diferenças, Putin perguntou duas vezes ao jornalista que lugar ele ocupará nos livros de história: uma vez em 2008 após seus dois primeiros mandatos presidenciais e uma vez em 2014 com a anexação da Crimeia, observa.

Mas Venediktov, professor de história há 20 anos, não tem certeza da resposta: "Ainda estamos no meio do capítulo e ainda faltam páginas".

bur/dbh/zm/mr

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