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Gaza, o refúgio singular de Viktoria, uma jovem ucraniana

10:56 | Mar. 24, 2022
Autor AFP
Tipo Notícia

Quando resolveram fugir da Ucrânia, Viktoria Saidam e seu esposo tiveram que tomar uma decisão: para onde partir? Sua escolha os levou rapidamente à terra natal dele, a Faixa de Gaza, o enclave palestino que conhece a guerra.

Originária da cidade de Vinnytsia, 200 quilômetros a sudeste de Kiev, Viktoria, 21 anos, era estudante de farmácia na capital ucraniana quando conheceu Ibrahim Saidam, 23 anos, originário do Burej, um campo de refugiados de Gaza e estudante de medicina.

Antes do avanço das forças russas após a invasão lançada em 24 de fevereiro, a jovem parceira, casada há dois anos, decidiu sair de Kiev e voltar para Vinnytsia, porém logo fizeram as malas para fugir da Ucrânia.

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"Não sabíamos o que aconteceria amanhã. O número de mortos e feridos aumentava a cada dia', recorda a jovem, cujo sobrenome de solteira é Brej.

Nove pessoas morreram no bombardeio russo do aeroporto de Vinnytsia em 7 de março, segundo socorristas ucranianos.

"Meu esposo e eu tivemos que buscar um lugar mais seguro que a Ucrânia e escolhemos a pátria dele, Gaza", conta Viktoria, que desaba em lágrimas quando assiste em seu celular aos vídeos dos edifícios pulverizados pelos ataques russos.

Partiram em um micro-ônibus e depois a pé até a Romênia. Dali pegaram um avião para Cairo, Egito, e logo atravessaram a fronteira de Rafah entre Egito e a Faixa de Gaza.

Viktoria disse conhecer "a realidade" desse enclave palestino empobrecido, sob bloqueio israelense há 15 anos e que viveu quatro guerras entre Israel e o movimento islâmico palestino Hamas, que controla o território.

O último confronto entre os dois inimigos ocorreu há menos de um ano. Em maio de 2021, essa guerra de 11 dias deixou 260 mortos em Gaza e 14 em Israel, incluindo um soldado.

A situação desde então é mais tranquila, apesar das tensões esporádicas.

"Houve uma guerra aqui e pode voltar a ocorrer, mas quando tivemos que sair da Ucrânia, (a Faixa de) Gaza era segura", disse Viktoria à AFP.

Cerca de 2.500 ucranianos se encontram em Gaza, segundo a representação diplomática ucraniana em Ramallah, Cisjordânia, um território palestino ocupado por Israel desde 1967. Em sua maioria, são mulheres casadas com palestinos que estudaram na Ucrânia.

"Eu vivi três guerras na Faixa de Gaza, isso me dá certa experiência", conta Ibrahim Saidam, que fala ucraniano fluentemente.

"Uma semana antes do início da guerra (na Ucrânia), preparei os mantimentos, mas não esperávamos que fosse tão feroz", declara à AFP.

"Poderíamos ter ido a algum país europeu pedir asilo, mas eu preferi voltar à Gaza porque me sinto seguro aqui e conheço os costumes", acrescenta.

Viktoria desejava há muito tempo conhecer seus sogros, mas não imaginou fazê-lo nessas circunstâncias.

Instalada na casa familiar onde se sente bem acolhida, ela confessa não poder "descrever todos os sentimentos de medo e de pânico" que sente quando fala com seu irmão e sua irmã na Ucrânia.

"Ainda não posso deixar de acreditar que o que aconteceu foi um sonho. É horrível", lamenta. "Sonho com o dia em que meu marido e eu possamos voltar para casa".

bur-cgo/gl/bfi/mas/mar/dd/aa

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