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Na Rússia, depois da vacinação, a burocracia

00:03 | 05/07/2021
Repórter da DW Sergey Satanovskiy esteve entre primeiros voluntários dos testes da Sputnik V. Por fim ele soube se recebera a vacina ou um placebo. Mas para voltar à normalidade, começou uma caça ao atestado.Os cafés de Moscou estão vazios desde a segunda-feira (28/06) e seu faturamento caiu 80%. Agora, os restaurantes só estão abertos para os poucos que estejam completamente vacinados ou que possam exibir um custoso teste PCR negativo. Diante do incremento de casos, o prefeito da capital russa, Sergey Sobyanin, ameaça, além disso, interditar aos não vacinados o acesso a salões de cabeleireiro, centros comerciais e academias de ginástica. O repórter da DW Sergey Satanovskiy esteve, já no fim de novembro e de dezembro de 2020, entre os primeiros voluntários a participarem de testes clínicos com a Sputnik V, a vacina russa contra o novo coronavírus. Agora em junho, ele teve que lutar com as autoridades por um certificado de vacinação. Qual foi o problema, e como andam os anticorpos no sangue do jornalista? Uma reportagem de primeira mão. Vacinado, sim senhor! No fim de maio, recebi um telefonema do Hospital Zhadkevich, de Moscou. Perguntaram-me se eu poderia ir fazer um terceiro e último exame de sangue, a fim de verificar a reação imunológica desencadeada pela vacina. Eu esperara longamente por essa chamada, pois com ela o estudo se concluía para mim. Aí quando, ainda por cima, as autoridades começaram a falar de restrições para os não vacinados, eu também quis arrumar logo um atestado de vacinação, assim como um código QR para apresentar no celular. Marquei um horário para 31 de maio, exatamente 180 dias após a primeira dose. Chegando ao hospital, autorizei por escrito o exame de sangue final. Em troca, a organização privada de pesquisas clínicas Crocus Medical me transferiu 8.500 rublos, o equivalente a 98 euros. Durante a retirada de sangue, a enfermeira me informou que nos próximos dez dias eu seria informado se, seis meses antes, me haviam injetado uma vacina ou um placebo. No caso de imunizante, eu poderia apanhar uma confirmação por escrito. Na verdade, para mim há muito estava claro que eu havia recebido uma vacina, pois meu organismo reagiu à primeira dose com febre. Ainda assim, eu queria um certificado oficial, pois em outras regiões da Rússia os vacinados têm acesso a mais setores da vida. Por exemplo, desde o começo do mês era possível participar de algumas coletivas de imprensa munido de um atestado de vacina, em vez de um teste de PCR. E em Moscou se precisa de um certificado até para se sentar num café. Serviço público faz corpo mole Passados os dez dias, porém, o hospital não deu sinal. Então fui olhar o chat dos participantes do estudo. Lá, dezenas contavam que o órgão responsável, Gosuslugi – que deveria fornecer não só um QR, como também um atestado impresso – "se calava" há meses. Tampouco haviam entrado mensagens em minha conta pessoal no website do departamento. Aí abri meu dossiê médico eletrônico, conectado com o site Mos.ru, da administração municipal moscovita. Sob a rubrica "Vacinas" estavam duas anotações, em 30 de novembro e 21 de dezembro de 2020, de que me havia sido injetado 0,5 mililitro do imunizante Sputnik V. Portanto o órgão confirmava que eu estou vacinado, minhas taxas de anticorpos também estavam boas, mas não me disponibilizou nem um atestado, nem um código QR. Na rubrica "Serviços públicos", onde deveria estar o cobiçado documento, agora piscava o botão "Reclamação por falta de atestado". Cliquei nele, e uma semana mais tarde recebi correspondência da Secretaria de Saúde de Moscou: ela lamentava os inconvenientes e prometia tudo providenciar, tão logo eu fornecesse outros dados pessoais, entre os quais meu número individual de segurado e minha apólice de seguro. Duas semanas após a primeira reclamação, nada atestado nem de código QR na minha conta do Gosuslugi. O problema seria resolvido nos próximos dias, me asseguraram. No meio tempo, porém, um código QR entrou no meu dossiê na municipalidade de Moscou, sem que me oferecessem um atestado de vacina por escrito. Dele eu ainda não preciso, já que a prefeitura moscovita considera mesmo o código digital mais seguro do que uma folha de papel facilmente falsificável. Em outras regiões russas, porém, se prefere pedir o documento impresso. "Associação dos Empresários Sensatos" Enquanto eu mendigava por um atestado junto às repartições públicas, muitos russos sequer se dão ao trabalho de ir tomar a injeção. Segundo uma enquete atual do instituto de pesquisas de opinião Morning Consult, 37% da população não tem a intenção de se vacinar. É o pior resultado entre os maiores países industriais e em desenvolvimento. Por isso as autoridades já impuseram vacina compulsória em mais de uma dúzia de regiões da Rússia. O fato, por sua vez, desencadeou protestos de rua, e além disso agora existe um mercado negro de atestados e QRs falsos. Vacinado e finalmente munido do código, em 28 de junho, primeiro dia das restrições nos restaurantes, resolvi testar como eles lidavam com o sistema de registros. Depois do trabalho, fui jantar num vegetariano no centro de Moscou. Na porta, um empregado tinha um aparelho na mão, que eu pensei se tratar de um leitor de QR, mas era um termômetro infravermelho comum. Minha temperatura estava normal, ele me deixou entrar. Ao que tudo indicava, todos, vacinados ou não, tinham ingresso ao local. Depois fiquei sabendo que os donos, assim como outros do setor de gastronomia, se opõem às normas oficiais. Na caixa estava pregada uma folha, com seu próprio código QR, o qual levava a uma petição exigindo direitos iguais para quem tenha sido inoculado ou não, elaborada pela "Associação dos Empresários Sensatos". Embora esse vegetariano seja um dos poucos locais da capital em que não imunizados podem comer, ele estava menos frequentado do que o normal. Ao que tudo indica, os moscovitas que não possuem um código QR de vacinação simplesmente se acostumaram ao fato de que a gastronomia está interditada para eles, e sequer tentam ir comer fora. Autor: Sergey Satanovskiy
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