PUBLICIDADE
Mundo
NOTÍCIA

Rainha responde às alegações de racismo feitas por Harry e Meghan

O Palácio de Buckingham está sob crescente pressão para responder às afirmações feitas em uma entrevista do casal a Oprah Winfrey, transmitida pela primeira vez no último domingo, e que gerou uma crise não vivenciada desde a época da mãe de Harry, Diana, na década de 1990

21:25 | 09/03/2021
Em 2018. Príncipe Charles da Grã-Bretanha, Príncipe de Gales, Camilla da Grã-Bretanha, Duquesa da Cornualha, Rainha Elizabeth II da Grã-Bretanha, Meghan da Grã-Bretanha, Duquesa de Sussex e Príncipe Harry da Grã-Bretanha, Duque de Sussex, na varanda do Palácio de Buckingham (Foto: AFP)
Em 2018. Príncipe Charles da Grã-Bretanha, Príncipe de Gales, Camilla da Grã-Bretanha, Duquesa da Cornualha, Rainha Elizabeth II da Grã-Bretanha, Meghan da Grã-Bretanha, Duquesa de Sussex e Príncipe Harry da Grã-Bretanha, Duque de Sussex, na varanda do Palácio de Buckingham (Foto: AFP)

A rainha Elizabeth II respondeu nesta terça-feira, 9, às explosivas alegações de racismo feitas por seu neto, o príncipe Harry, e a esposa dele, Meghan, expressando profunda preocupação e compadecendo-se de seus problemas com a vida na realeza. "A família inteira está triste ao saber o quanto os últimos anos foram desafiadores para Harry e Meghan", afirmou a soberana em um comunicado.

"As questões levantadas, principalmente as que dizem respeito à raça, são preocupantes. Embora algumas lembranças possam variar, elas são levadas muito a sério e serão tratadas pela família em particular", acrescentou. "Harry, Meghan e Archie sempre serão membros muito queridos da família", destacou a rainha na nota.

O Palácio de Buckingham está sob crescente pressão para responder às afirmações feitas em uma entrevista do casal a Oprah Winfrey, transmitida pela primeira vez no último domingo, e que gerou uma crise não vivenciada desde a época da mãe de Harry, Diana, na década de 1990. As declarações desencadearam um turbilhão de especulações sobre a identidade do membro da família real que teria questionado o quão escura seria a pele do filho do casal antes dele nascer.

Meghan, filha de mãe negra e pai branco, também abordou o fato de que teve pensamentos suicidas, mas não recebeu qualquer apoio durante o período em que viveu com a família real. Winfrey ficou boquiaberta com a alegação de racismo, que supostamente deixou o palácio em alvoroço e analisando a melhor maneira de lidar com a situação. O príncipe Charles, pai de Harry e herdeiro do trono, antes ignorou uma pergunta sobre o que teria achado da entrevista, ao fazer sua primeira aparição pública desde o início da crise.

Em pesquisa realizada pelo YouGov com 4.656 pessoas depois da entrevista transmitida na televisão britânica na segunda-feira mostrou que quase um terço dos espectadores (32%) sentiu que o casal foi tratado injustamente, na mesma proporção daqueles que pensaram o contrário. Mas as pessoas mais velhas foram mais propensas a ficar do lado da família real, sugeriu a pesquisa.

A polêmica arrastou outras figuras públicas conhecidas no Reino Unido, como o apresentador de televisão Piers Morgan, que teve que deixar seu programa matinal na ITV após criticar duramente Meghan Markle. Morgan, que conhece a duquesa de Sussex desde o tempo em que ela era atriz, declarou ao vivo que não achou que Markle estava falando sério quando mencionou o suicídio em sua entrevista, o que gerou uma avalanche de protestos dos telespectadores.

As afirmações de Harry e Meghan foram comparadas a uma bomba jogada sobre a família mais famosa do Reino Unido e uma das instituições mais reverenciadas do país. Têm sido feitas tentativas para um comentário do primeiro-ministro Boris Johnson, tendo sido ele próprio acusado de racismo durante a sua época como colunista de jornal.

Porém, ele se recusou a fazer comentários, mesmo em um momento em que os apelos políticos aumentavam para que houvesse uma investigação completa, e após a Casa Branca e a ex-secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, terem se manifestado. No entanto, Zac Goldsmith, político aliado próximo de Johnson, afirmou que o ex-capitão do Exército Harry estava "bombardeando sua família". O porta-voz de Johnson se recusou a dizer se Goldsmith estava falando em nome do governo.

Esse nível de crise sobre a realeza não é visto desde os anos 1990, durante o colapso público do casamento dos pais de Harry. Sua mãe, a princesa Diana, colaborou com o autor Andrew Morton em uma biografia reveladora, de 1992, e deu uma entrevista bombástica para a BBC em 1995. Nela, Diana contou que tanto ela quanto o príncipe Charles foram infiéis, sobre ele ser inadequado para ser rei e como ela se sentia isolada, lutando contra a automutilação e a bulimia.

Morton disse que as afirmações de Harry e Meghan "estremeceriam através das gerações da mesma forma que Diana". Por sua vez, o pai de Meghan, Thomas Markle, defendeu a realeza, dizendo que esperava que o comentário sobre o tom de pele tivesse sido "apenas uma pergunta idiota". "Pode ser simples assim, pode ser que alguém tenha feito uma pergunta estúpida, em vez de ser um racista total", argumentou ele à ITV britânica.

Pouco mais de 17 milhões de telespectadores assistiram à entrevista de duas horas de Oprah com Harry e Meghan na emissora americana CBS na noite do último domingo. Mais de 11 milhões de pessoas sintonizaram para assisti-la na íntegra na ITV no Reino Unido, anunciou o canal.

O casal deixou a vida real para trás no ano passado e agora mora na Califórnia com seu filho, Archie, enquanto espera a chegada de uma filha. Harry, de 36 anos, admitiu que a morte de sua mãe em Paris em 1997 - em um acidente de carro em alta velocidade enquanto tentava fugir de paparazzi - afetou sua saúde mental e alterou sua visão da mídia. Ele e Meghan, de 39 anos, acusaram jornais de estereotipagem racial, criticando particularmente a cobertura sobre a cunhada de Harry, Kate, que é branca.

Mas seus comentários sobre as sufocantes obrigações da vida real e reivindicações por atitudes inabaláveis têm consequências mais amplas para a própria monarquia - e o que ela representa. Os protestos do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) no ano passado geraram pedidos de uma reavaliação do legado do Império Britânico liderado pela rainha e seus ancestrais. Nem a rainha, agora com 94 anos, nem seu marido, o príncipe Philip, de 99, fizeram o comentário racista, informou Winfrey à CBS.

Mas ainda pode ser prejudicial para eles, já que a monarca é a chefe da Commonwealth, um grupo que compreende 54 ex-colônias britânicas, muitas delas na África, e 2,4 bilhões de pessoas. A imigração em massa transformou o Reino Unido desde que a rainha subiu ao trono em 1952, com um número crescente de pessoas que se definem como britânicos-asiáticos, negros-britânicos ou mestiços.

O historiador David Olusoga escreveu no The Guardian que as afirmações de Harry e Meghan eram "não apenas uma crise para a família real - mas para o próprio Reino Unido". O próprio Harry usou um insulto racista contra um ex-colega militar e uma vez foi fotografado vestindo um uniforme de soldado nazista em uma festa à fantasia. No entanto, ele afirma que o encontro com Meghan o fez enfrentar a questão, e agora defende projetos para combater o racismo.