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Presidente de Honduras ajudou a traficar toneladas de cocaína para os EUA, afirma promotor

Explosivas declarações foram feitas no tribunal federal de Manhattan, em Nova York, no âmbito do julgamento de Geovanny Fuentes, um suposto narcotraficante hondurenho que, segundo os promotores, era sócio do presidente hondurenho, Juan Orlando Hernández

21:46 | 09/03/2021
O presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, durante discurso no Parlamento Centro Americano, em Tegucigalpa, no dia 4 de março (Foto: Antonio Mendoza/Honduran Presidency/AFP)
O presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, durante discurso no Parlamento Centro Americano, em Tegucigalpa, no dia 4 de março (Foto: Antonio Mendoza/Honduran Presidency/AFP)

"Toneladas de cocaína, armas, violência, assassinatos brutais, subornos e corrupção": foi assim que começaram nesta terça-feira, 9, as alegações de abertura dos promotores norte-americanos que acusam o presidente de Honduras de ajudar no tráfico de drogas para os Estados Unidos. As explosivas declarações foram feitas no tribunal federal de Manhattan, em Nova York, no âmbito do julgamento de Geovanny Fuentes, um suposto narcotraficante hondurenho que, segundo os promotores, era sócio do presidente hondurenho, Juan Orlando Hernández, no milionário negócio do tráfico de drogas.

O promotor Jacob Gutwillig disse ao júri que Fuentes e o presidente de Honduras "planejaram enviar aos Estados Unidos tanta cocaína quanto fosse possível". O negócio "floresceu" devido aos subornos pagos por Fuentes a políticos, militares e policiais e "até ao presidente de Honduras" em troca de proteção e de ajuda no transporte da droga, continuou. Essa associação o tornou "intocável", afirmou a promotoria no segundo dia do julgamento, que deverá durar cerca de duas semanas. "O acusado fazia parte do narco-Estado hondurenho".

Hernández, advogado que assumiu a Presidência em 2014 e está em seu segundo mandato, nega todas as acusações e se apresenta como um herói na luta contra o narcotráfico e as gangues violentas que espalham o terror no país. Os promotores encarregados do caso consideram Hernandéz um "co-conspirador" de Fuentes, mas não foi indiciado na Justiça. Em 2013 e 2014, Fuentes pagou subornos por um total de "25.000 dólares em notas com o dinheiro da droga" ao atual presidente, em troca de proteção "e algo mais valioso: acesso ao laboratório da droga do acusado" nas montanhas de Honduras, acrescentou.

Em troca, e apesar dos inúmeros crimes — inclusive assassinatos —, Hernández protegia o traficante da justiça hondurenha e o ajudava no transporte da droga. "O presidente o blindou à prova de balas", afirmou o promotor após contar que Fuentes sequestrou, torturou e apunhalou até a morte um policial que ousou enfrentá-lo.

Segundo Gutwillig, um homem presente nessas reuniões, um contador identificado como José Sánchez, que trabalhava para uma empresa de arroz com a qual Fuentes lavava dinheiro, contará ao júri "o choque, o medo que sentiu quando viu o acusado sentar-se com o presidente". E vai relatar que o presidente disse a Fuentes "que levaria tanta cocaína para os Estados Unidos que 'meteriam as drogas pelos narizes dos gringos'". 

O advogado da defesa, Eylan Schulman, tentou descredibilizar o eventual depoimento do contador em seus argumentos iniciais. "Supostamente, 25.000 dólares é o suficiente para subornar um presidente", afirmou. O contador "tem muito a ganhar e pouco a perder" com seu depoimento, alertou, e disse que ele espera receber asilo nos Estados Unidos em troca. A defesa também disse ao júri que não deve acreditar no depoimento que será prestado por "um dos piores assassinos na face da Terra", Leonel Rivera, ex-líder do cartel hondurenho Los Cachiros, que matou 78 pessoas e está preso nos Estados Unidos por tráfico de drogas.

"O governo (dos EUA) concordou em fazer um acordo com esse demônio (...) Nunca se deve acreditar nele", disse Schulman, que defendeu o papel do governo Hernández no combate ao narcotráfico. O irmão do presidente, Tony Hernández, de 42 anos, foi declarado culpado de tráfico de drogas "em grande escala" em Nova York em outubro de 2019, e sua sentença, adiada várias vezes, está prevista para 23 de março. Ele pode ser condenado a uma pena máxima de prisão perpétua. Os promotores afirmam que Tony era o intermediário entre Fuentes e o presidente de Honduras.

A primeira testemunha do julgamento foi o agente Brian Fairbanks, da agência americana de combate às drogas, DEA, que confirmou ao júri que encontrou no celular do acusado o e-mail e o número de celular de Juan Orlando Hernández. A acusação mostrou ao tribunal fotos do irmão e do filho de Fuentes com o presidente Hernández encontradas no telefone do réu, assim como fotos de várias armas descobertas no iCloud de um dos filhos de Fuentes. Um deles, um rifle automático oferecido como presente ao presidente com a inscrição "JOH, presidente da República" acima do gatilho.

Fuentes foi preso em Miami, na Flórida, em 1º de março de 2020 e enfrenta três acusações de tráfico de drogas e porte de arma de fogo. Na segunda-feira, o presidente Hernández garantiu em sua conta no Twitter que as testemunhas que colaboraram no julgamento e que o acusam darão "falsos testemunhos" para se vingar por sua luta contra o narcotráfico e reduzir suas penas de prisão nos Estados Unidos.

"Apoiamos fortemente o Estado de Direito e a luta contra a impunidade. Isso é verdade em Honduras, em todos os níveis em Honduras", declarou nesta terça-feira o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, questionado sobre as acusações que pesam sobre Hernández. "Qualquer líder que não esteja preparado para combater a corrupção não estará em posição de ter uma aliança estreita com os Estados Unidos", completou.

Durante o julgamento de Tony Hernández em Nova York, testemunhas também disseram que o ex-presidente hondurenho Porfirio Lobo (2010-2014) havia recebido propina de traficantes de drogas em troca de proteção. O filho de Lobo, Fábio, foi condenado em 2017 em Nova York a 24 anos de prisão por narcotráfico.