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Freira fica na frente de manifestantes em Mianmar e pede para exército não atirar

Protestos foram registrados em vários pontos do país, que foram dispersados com gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral, de acordo com a imprensa local

12:20 | 09/03/2021
Freira se colocou entre manifestantes e exercito. Há semanas, os agentes tem respondido com violência manifestações pró democracia  (Foto: AFP)
Freira se colocou entre manifestantes e exercito. Há semanas, os agentes tem respondido com violência manifestações pró democracia (Foto: AFP)

"Não atirem contra as crianças!". A irmã Ann Rose Nu Twang se ajoelha, abre os braços em cruz e implora às forças birmanesas. No mesmo dia, 8 de março, três manifestantes pró-democracia foram mortos. Não se sabe com certeza de onde vieram os tiros, mas a polícia e o exército não hesitam em usar munição real desde que começaram as manifestações pacíficas contra o golpe de Estado que derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi, em 1º de fevereiro.

Entre a multidão, a freira Ann Rose Nu Twang, de 45 anos, se aproximou das forças de segurança. Ela se ajoelhou e dois policiais fazem o mesmo, juntando suas mãos em sinal de respeito pela religiosa. Já outros permanecem indiferentes, de acordo com imagens divulgadas por um veículo local, o Myitkyina News Journal."Eu supliquei que não atirassem [...], que em vez disso me matassem. Levantei as mãos em sinal de perdão", conta a freira à AFP. Não muito longe do local, outro grupo de policiais começou a atirar, conta. Algumas imagens divulgadas nas redes sociais mostram manifestantes imóveis e cobertos de sangue. 

O ato de coragem de Ann Rose Nu Twang foi muito compartilhado nas redes sociais do país, que é majoritariamente budista. Em 28 de fevereiro, a religiosa havia chamado a atenção ao ficar de joelhos em frente às forças de segurança para pedir prudência. Ao menos 60 civis perderam a vida desde o golpe e mais de 1.800 foram detidos, segundo a Associação de Assistência aos Presos Políticos.O Estado nega qualquer envolvimento da polícia ou do exército na morte dos civis, e defende que as forças de segurança devem "conter os distúrbios tal e como dita a lei".

As forças de segurança dispersaram rapidamente outras manifestações pró-democracia nesta terça-feira, 9, em Mianmar, após o cerco durante a noite de centenas de ativistas no centro de Yangon, onde os agentes intensificaram as operações e as detenções.

Protestos foram registrados em vários pontos do país, que foram dispersados com gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral, de acordo com a imprensa local. Mas não foram constatados episódios violentos, ao contrário do que aconteceu na segunda-feira.

Na segunda-feira à noite, centenas de manifestantes, incluindo muitas birmanesas que celebravam o Dia Internacional da Mulher, foram encurralados durante horas no bairro de Sanchaung, cenário de grandes protestos nos últimos dias. As forças de segurança entraram em várias casas para procurar detratores do regime. Quem esconder manifestantes será punido, advertiu a imprensa estatal.

"A polícia inspecionou todas as casas desta rua. Entraram no nosso apartamento, mas não escondemos ninguém e foram embora", contou um morador. "Falaram para não olharmos para eles ou atirariam", disse outro, antes de explicar que as casas que tinham em suas janelas e varandas bandeiras da Liga Nacional pela Democracia (LND), partido de Aung San Suu Kyi, foram alvos da operação, que terminou com dezenas de pessoas detidas.

Para apoiar os manifestantes cercados, centenas de habitantes desafiaram o toque de recolher imposto pelas autoridades e saíram às ruas. "Libertem os estudantes", gritaram. As forças de segurança usaram bombas de efeito moral para tentar dispersar os opositores.

Os manifestantes conseguiram sair do bairro nas primeiras horas do dia. "A paciência do governo acabou", afirmou a imprensa estatal, após cinco semanas de manifestações pró-democracia diárias. Uma série de atos que provocaram, novamente, as condenações da comunidade internacional. A ONU pediu "máxima moderação" ao exército.

A junta continua com a repressão para tentar sufocar a insurreição pacífica contra o golpe de Estado que derrubou Aung San Suu Kyi no dia 1º de fevereiro. Na segunda-feira, a jornada de protestos terminou com três manifestantes mortos e vários feridos.

Em Myitkyina (norte), imagens divulgadas nas redes sociais mostraram manifestantes inconscientes e cobertos de sangue, um deles deitado de bruços no chão, com parte do crânio esmagado. Uma freira católica se ajoelhou na rua e suplicou à polícia para não atirar.

Em Mandalay (centro), dois veículos militares dispersaram manifestantes. Seis pessoas ficaram feridas, duas em estado grave. O exército "afunda cada dia mais o país em um clima de medo", lamenta a Associação de Assistência aos Presos Políticos (AAPP), que contabiliza ao menos 60 civis mortos desde o golpe de Estado e mais de 1.800 detidos.

Nos últimos dias, o governo militar intensificou as operações contra ONGs, meios de comunicação e políticos. Um dia depois de uma operação da polícia na agência de notícias Myanmar Now, nesta terça-feira os agentes compareceram à sede do meio de comunicação independente Mizzima.

O ministério da Informação revogou a licença do Mizzima e de outros meios de comunicação independentes (Myanmar Now, DVB, Khit Thit e 7 Day). Muitos dirigentes da Liga Nacional para a Democracia também foram detidos e um líder local do partido morreu na repressão.

Os militares confirmaram que assumiram o controle dos hospitais públicos e campi universitários, de acordo com eles "a pedido de cidadãos que não querem ver instabilidade em seu país". Médicos, professores, advogados e funcionários públicos se declararam em greve desde o golpe de Estado. A convocação de desobediência civil tem um forte impacto em setores como a administração pública, os bancos e o os hospitais. A junta militar advertiu que os funcionários que não retornassem ao trabalho seriam demitidos.

Resposta internacional

 

Os generais ignoram os protestos da comunidade internacional, dividida sobre o tema.

Reino Unido, Estados Unidos e outros países ocidentais adotaram sanções seletivas, mas China e Rússia, aliados do exército birmanês, não condenaram o golpe de Estado. O Conselho de Segurança da ONU não alcançou um acordo sobre uma declaração conjunta e prosseguirá com as negociações esta semana.

Nesta terça-feira, o embaixador de Mianmar no Reino Unido se desvinculou dos generais golpistas, assim como já haviam anunciado o embaixador do país na ONU e outros diplomatas, e pediu a libertação de Aung San Suu Kyi.

bur-sde/ahe/erl/lda/bl/mar/fp