PUBLICIDADE
Mundo
Noticia

A dona de casa que desafia o "último ditador da Europa"

Em apenas alguns meses, Sviatlana Tsikhanouskaya passou de prendas domésticas a "líder da Belarus democrática". Orgulhosa de ambos os papéis, ela está segura que, para milhões de mulheres, "a força interior despertou"

00:03 | 09/03/2021
Svetlana Tikhanovskaya, líder exilada da oposição de Belarus (Foto: PIERRE ALBOUY / AFP)
Svetlana Tikhanovskaya, líder exilada da oposição de Belarus (Foto: PIERRE ALBOUY / AFP)

Há um ano, Svetlana Tikhanovskaya era uma desconhecida no meio político. Hoje, é a líder do maior movimento popular de Belarus desde que o país se tornou independente. Esse movimento democrático recebeu do Parlamento Europeu o Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, e Tsikhanouskaya foi agora indicada para o Prêmio Nobel da Paz.

Tikhanovskaya emergiu em 2020 como o rosto da oposição ao líder autoritário Alexander Lukashenko, e se autoproclamou "líder da Belarus democrática". Em maio de 2020, quando seu marido, Sergei Tikhanovsky, conhecido blogueiro e ativista da democracia, foi impedido de concorrer às eleições presidenciais, ela se candidatou em seu lugar.

"Eu era dona de casa... Ter vergonha de quê?"

Lukashenko, no cargo desde 1994 e considerado o "ùltimo ditador da Europa", não a levou a sério como oponente e afirmou publicamente que "uma mulher não pode ser presidente". Tentando menosprezar sua experiência como mãe e dona de casa, comentou: "Ela só cozinhou uma boa costeleta, talvez tenha dado comida às crianças. E a costeleta cheirava bem." Mas a determinação de Tikhanovskaya em contra-atacar a misoginia institucionalizada encontrou ressonância junto a milhões de mulheres em Belarus e no exterior.

Ciente de que Lukashenko a tentou ridicularizar ao afirmar que seu lugar é na cozinha, Tikhanovskaya não aceita a ofensa: "Nunca me ofendi com isso, porque as coisas são como são. Eu era uma dona de casa por vários motivos, é verdade. Se ele queria me ofender, não conseguiu. Eu deveria ter vergonha de quê?"

Lukashenko acabou se reelegendo, num pleito marcado por acusações de fraude e intimidação e que não foi reconhecido internacionalmente. E pode ser que a ideia de uma mulher como presidente de Belarus esteja além da imaginação dele. Mas a líder oposicionista não tem dúvidas de que a população discorda dessa retórica machista: "Sim, estou mais do que convencida de que é possível. Eu e meus aliados, e todas as mulheres bielorrussas que foram às ruas, provamos nossa resiliência e força. Por isso os bielorrussos não terão dúvidas de que uma mulher pode se tornar a futura presidente de Belarus."

O ano de 2020 foi, em muitos sentidos, um marco para a ex-república soviética e especialmente para a mulheres. As forças de segurança de Lukashenko inicialmente pouparam as cidadãs, mas a situação mudou quando elas se tornaram a força motriz dos protestos. Surgiram imagens e relatos de mulheres – de adolescentes à idosas – sendo presas, espancadas e até torturadas. Diversas ativistas conceituadas foram detidas e forçadas ao exílio.

Tikhanovskaya relata que um "impulso do coração" foi o que levou milhões de bielorrussas a protestarem contra a fraude eleitoral. "Nós nos opormos à violência foi como um instinto. Quando vimos quantas éramos, nos orgulhamos de nós mesmas. 'Aqui estou, consegui.' A força interior despertou."

"Não sou feminista"

Tikhanovskaya descreve sua impressionante ascensão à liderança como fruto da falta de escolha: "O medo sempre esteve lá: se eu acabasse na prisão, o que aconteceria com meus filhos? Todas as manhãs você convive com um sentimento de medo. Mas você faz as coisas apesar do medo, porque não tem outro jeito."

Tikhanovskaya e seus filhos foram forçados a deixar o país. Ela está exilada na Lituânia desde então, de onde continua liderando a luta pela democracia. A União Europeia e os Estados Unidos não reconheceram a vitória de Lukashenko nas eleições de 2020.

Paralelamente, a oposicionista se tornou a representante de Belarus no cenário internacional, reunindo-se com diversos líderes mundiais, entre os quais a chanceler federal alemã, Angela Merkel. O encontro foi durante uma visita a Berlim, em outubro de 2020. Ela descreveu a chefe de governo alemã como "extremamente amigável", sendo "óbvio que ela tem um senso de empatia, que entende nossa dor, e que realmente gostaria de ajudar". O foco da reunião de 30 minutos entre ambas foi como a Alemanha poderia ajudar a intermediar um possível diálogo entre os manifestantes e as autoridades bielorrussas.

Tikhanovskaya considera Merkel "muito direta", sem "absolutamente nenhuma arrogância". No entanto "há uma sensação de calor vindo dela", e "isso em nada contradiz a ideia de mulher forte pela qual é conhecida": "Não precisa falar duro para se perceber que ela é uma líder forte." Contudo, da mesma forma que a líder alemã, Tikhanovskaya assegura: "Eu não diria que sou feminista."

Suas ações são uma resposta ao contexto e uma necessidade após a prisão de seu marido. Tikhanovskaya continuará na luta pela presidência? No início de março, as autoridades do país a colocaram na lista de procurados por supostamente "incitar tensões". Ela se diz "pronta para estar com os bielorrussos enquanto eles precisarem de mim", mas que não necessariamente fará o trabalho sozinha. "Se as circunstâncias mudarem e tivermos novas eleições – esse é o nosso objetivo – não pretendo concorrer novamente. Mas não sabemos como será. Pode ser que o povo decida que quer confiar em mim de novo. Eu sempre digo: 'Se você quer fazer Deus rir, conte-lhe os seus planos.'"

Autor: Oxana Evdokimova, Janina Semenova , Kyra Levine

TAGS