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Opinião: Trump tem, sim, chance de vencer a batalha

00:03 | 02/09/2020
A campanha para valer começa agora: nela, fatos não importam, e não há uma compreensão comum mínima da realidade. Tudo isso deixou de existir com Trump. É preciso realmente temer por este país, opina Ines Pohl.Em democracias, é comum que os partidos escolham seus candidatos numa convenção partidária. Mas os pomposos eventos nos EUA nos quais republicanos e democratas celebram seu eleito durante vários dias são algo tipicamente americano. Embora há meses já esteja definido quem ganhou as complicadas primárias, os respectivos candidatos aceitam a nomeação com gestos grandiosos e muito discurso. O desafiante usa o espaço para apresentar suas visões políticas e para atrair às urnas tanto eleitores convictos como potenciais. Depois que um titular já cumpriu um dos dois mandatos permitidos, ele usa o palco e sua insígnia de poder para mostrar o que já conquistou – e o que ainda deseja alcançar. Tudo isso costuma ser acompanhado de muitos aplausos e euforia, chuva de confetes e balões. Mas neste ano de pandemia tudo é diferente. Não há espaço para grandes eventos num país com taxas elevadas e mortais de infecções com coronavírus. Por isso ambas as equipes de campanha eleitoral tiveram que transferir ao espaço virtual a fase quente da batalha pela Casa Branca. Ainda não é possível dizer quem se saiu melhor nesse desafio sem precedentes. Ambos os partidos encararam a difícil tarefa de, por um lado, agradar à sua clientela e, por outro, atrair para si os decisivos eleitores indecisos. Tanto democratas como republicanos precisam deles para eleger o próximo presidente. Mesmo que o vencedor não possa ser determinado após todos esses shows, o perdedor já é conhecido: é o povo americano, que vive em uma sociedade que não consegue mais se acertar sequer sobre os parâmetros básicos da convivência. Um desses parâmetros é, por exemplo, que declarações e promessas de políticos devem ser verificadas. Ou que existe um conhecimento científico básico que vale pelo menos até que o oposto seja comprovado. Tudo isso deixou de existir com Trump. Qualquer um que questione suas mentiras e distorções – sejam jornalistas, sejam cientistas – é tachado de agitador. Há um grande número de americanos que acredita apenas naquilo que se encaixa na sua visão de mundo. Os números da economia são embelezados, teóricos da conspiração transformam os outros países em potências perigosas que querem assumir o controle dos EUA, o vírus mortal é minimizado. As convenções dos dois partidos mais uma vez deixaram claro o quanto os Estados Unidos estão divididos. E quão corrosiva tem sido a política de mentiras do governo Trump nos últimos anos. Agora começa a fase quente da campanha eleitoral. Uma batalha que, dessa forma, ainda não havia acontecido. Na qual os fatos não importam. Na qual não há mais uma compreensão comum mínima da realidade, mas na qual um homem com seu reality show tem grande parte do país firmemente sob seu controle. Os democratas estão longe de ter uma resposta para isso. Pelo contrário, eles tornam o jogo ainda mais fácil para os inimigos da democracia, pois não conseguem formar quadros políticos que não façam parte da elite de Washington. Para muitos eleitores americanos, isso é uma evidência de que o sistema atual está falido e só se preocupa com sua própria manutenção. Nas próximas semanas poderemos observar como forças democráticas vão se insurgir e como as instâncias de controle ainda existentes tentarão reconquistar o poder de definição sobre os fatos. Depois dessas convenções partidárias e das reações a elas, é preciso realmente temer por este país. Surge a pergunta: o que pode significar para outras democracias a possível reeleição de um populista? Seria o prenúncio de uma tendência global? Vivemos numa época em que está cada vez mais difícil, para as sociedades, alcançar um denominador comum no entendimento da realidade. Os EUA estão cada vez mais parecidos com um reality show que deve dar aos participantes – cidadãs e cidadãos – a sensação de serem heróis. Mesmo que isso não tenha nada que ver com a realidade. -- Ines Pohl é correspondente da DW em Washington Autor: Ines Pohl
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