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Campanha contra desperdício levanta suspeita sobre crise alimentar na China

Para alimentar a maior população do planeta, a China se tornou o maior importador mundial de produtos alimentícios

09:23 | 26/08/2020
Com 1,4 bilhão de bocas para alimentar, a segurança alimentar é uma questão crucial na China (Foto: Fabio Lima)
Com 1,4 bilhão de bocas para alimentar, a segurança alimentar é uma questão crucial na China (Foto: Fabio Lima)

A campanha contra o desperdício de comida lançada pelo presidente chinês, Xi Jinping, levanta questões sobre a segurança alimentar na China, que enfrenta fortes inundações e tensões com seus principais fornecedores. Com 1,4 bilhão de bocas para alimentar, a segurança alimentar é uma questão crucial na China, que sofreu com um período de fome no início dos anos 1960 que deixou dezenas de milhões de vítimas.

Desde então, o boom econômico do gigante asiático foi acompanhado por uma explosão da produção agrícola e das importações, e abundantes banquetes se tornaram a norma em alguns círculos.

A tal ponto que o presidente Xi se referiu, em meados de agosto, ao "surpreendente e preocupante" desperdício de seus compatriotas.

"Apesar das boas safras que nosso país colhe todos os anos, é preciso manter uma percepção de crise em termos de segurança alimentar", alertou. Esta declaração suscitou questões.

As inundações de verão deste ano destruíram imensas superfícies de terras aráveis na bacia do Yangtze, o celeiro de arroz do país. E, no início do ano, a crise da Covid-19 desestabilizou as cadeias de abastecimento.

Antes disso, uma epidemia de peste suína africana já havia devastado o gado nacional e dobrado o preço da carne de porco, a carne mais consumida na China. A isso, somam-se problemas básicos: a urbanização galopante, que destroi as terras agricultáveis, e o êxodo rural, que deixa o campo sem mão de obra.

Para alimentar a maior população do planeta, a China se tornou o maior importador mundial de produtos alimentícios.

Nos últimos tempos, porém, seus relacionamentos se deterioraram seriamente com três de seus principais fornecedores: Austrália, Canadá e Estados Unidos. E o governo chinês adotou sanções contra algumas importações agrícolas desses três países, embora em janeiro tenha-se comprometido a aumentar suas compras de produtos americanos.

Por enquanto, o regime comunista afirma que tudo está indo bem em relação à oferta.

"Alguns estão começando a se perguntar se haverá escassez este ano (...) Na verdade, não há motivo para se preocupar", escreveu a Academia Chinesa de Ciências Sociais em relatório em 17 de agosto passado.

O mesmo órgão público também alertou, no entanto, que o "déficit alimentar" do país aumentará nos próximos anos, a menos que reformas agrícolas sejam adotadas.

No longo prazo, a China deve proteger suas terras do apetite dos incorporadores imobiliários e melhorar a situação de seus agricultores para convencê-los a continuar cultivando, observa o pesquisador Li Guoxiang, do Instituto de Desenvolvimento Rural da citada academia.

Segundo a imprensa, os produtores que apostam em preços mais altos acumulam estoques, agravando os desequilíbrios do mercado.

Daí a necessidade de reduzir o desperdício e o consumo, em um país onde a obesidade, até então desconhecida, mais do que triplicou entre 2004 e 2014.

Com a quantidade de comida que joga fora a cada ano, a China poderia alimentar seu vizinho sul-coreano.

Como aconteceu no apogeu do maoísmo, a palavra do presidente Xi foi suficiente para gerar inúmeras iniciativas mais ou menos bem planejadas, como um restaurante em Changsha (centro) que convidava seus clientes a se pesarem antes de pedirem um cardápio adaptado a seu eventual sobrepeso.

Outros estabelecimentos impõem a seus clientes um "depósito", que é devolvido apenas se deixarem o prato "limpo".

Em um café em Xangai, a AFP testemunhou esta semana uma briga entre dois clientes. Um deles havia deixado seu sanduíche quase intacto antes de deixar o local.

Como outras campanhas políticas, esta pode ter "menos impacto do que geralmente se acredita", comentou a analista Rosa Wang, da consultoria agrícola JCI China, em Xangai.

Segundo ela, a Covid-19 teve o efeito de reduzir o consumo: confinadas em suas casas, muitas pessoas descobriram a culinária frugal em casa, em detrimento das refeições em restaurantes.