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Jacques Chirac, o "trator" humano

00:05 | 28/09/2019
Conhecido por se opor à guerra do Iraque, admitir a participação francesa na perseguição de judeus e convocar um referendo pró-Europa em 2005, ex-presidente da França também foi humilhado por escândalos de corrupção.No final de sua vida, ele raramente se aventurava em público. O homem, que opositores e apoiadores políticos costumavam chamar de "o trator", ficou abalado após um derrame – tanto física quanto mentalmente. Somente de vez em quando os franceses escutavam notícias suas, a partir de seu luxuoso apartamento na margem esquerda do Sena, por meio de sua esposa Bernadette, fiel companheira desde a faculdade. Nesta quinta-feira (26/09), a família anunciou a morte do ex-chefe de Estado francês aos 86 anos. Jacques René Chirac esteve no centro das atenções políticas por mais de 40 anos. Sua carreira teve início em 1962, após se formar em duas instituições de prestígio: o Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po) e a Escola Nacional de Administração (ENA). Ele foi chamado para trabalhar no governo do primeiro-ministro Georges Pompidou. Alguns anos depois, sob a orientação de Pompidou, Chirac exerceu sua primeira posição ministerial. Mais tarde, sob o presidente Valéry Giscard d'Estaing, ele assumiu o posto de primeiro-ministro por dois anos. Aos 49 anos, o ambicioso conservador fez sua primeira tentativa de conquistar o cargo político mais importante do país – e fracassou. Em 1981 e 1988, ele foi derrotado nas eleições presidenciais pelo socialista François Mitterrand. Presidente na terceira tentativa Chirac, nascido em Paris em 29 de novembro de 1932, encontrou sua pátria política na rural Corrèze, onde pôde apreciar seu amor pela cerveja e refeições fartas. No entanto, sua base de poder estava na capital, onde ele frequentou a universidade e fundou um movimento gaullista próprio – "Rassemblement pour la République" (RPR) – na década de 1970. Em 1977, foi eleito prefeito da capital francesa. Em Paris, Chirac chegou ao poder – e também ali perdeu popularidade. No período que antecedeu sua eleição à presidência, Chirac anunciou que curaria a "divisão na sociedade francesa". No entanto, ao finalmente chegar ao Palácio do Eliseu, em 1995, viu a população se voltar contra ele. Os planos de seu governo para uma extensa reforma social levaram a duros conflitos sociais. E, como aconteceu muitas vezes durante sua presidência, Chirac voltou atrás em suas políticas. Mas foi no final de sua carreira política que sofreu a maior humilhação. Em 2011, depois de perder a imunidade que ocupava como presidente, um tribunal parisiense o condenou por "desviar fundos públicos, abuso de confiança e conflito de interesses ilegal". Chirac recebeu uma pena suspensa de dois anos de prisão. Esse foi o primeiro processo criminal contra um ex-presidente na história da França e um ajuste de contas legal com os 18 anos de Chirac à frente da prefeitura de Paris. Sucesso na política externa Chirac teve mais sucesso nas relações exteriores do que na política interna, apesar de as dificuldades na política externa terem marcado o início de seu mandato: países vizinhos, incluindo muitos aliados, protestaram contra a retomada dos testes nucleares perto do atol de Mururoa, no Pacífico Sul. O então chanceler da Alemanha, Helmut Kohl, ficou ressentido com o fato de o novo presidente francês não ter consultado seu parceiro alemão antes de anunciar que os testes iriam adiante. O sucessor de Kohl, Gerhard Schröder, também se distanciou inicialmente do neogaullista. Posteriormente, eles uniram forças, enfrentando o presidente dos Estados Unidos George W. Bush e trabalhando juntos para liderar o movimento contra a guerra do Iraque. Em 2003, Chirac alcançou o ápice de sua popularidade. Sua nova vitória eleitoral – alguns meses antes, em 2002 – se deveu, sobretudo, ao fato de ele ter concorrido no segundo turno com Jean-Marie Le Pen, um extremista de direita. Mesmo durante seu segundo mandato, Chirac perdeu por vezes seu forte instinto político. O pró-europeu estava tão certo da vitória que ordenou um referendo sobre se a França deveria ratificar a Constituição europeia. Tal consulta popular não era exigida pela Constituição francesa. Em maio de 2005, os apoiadores desse projeto sofreram uma derrota retumbante. Para Chirac, teria sido mais apropriado renunciar, mas ele permaneceu e assistiu aos dois últimos anos de mandato – marcados por grandes revoltas sociais nos subúrbios – sem energia para seguir em frente e recomeçar politicamente. O legado de Chirac Em 2007, a imagem do ex-presidente entre os franceses mudou novamente quando seu sucessor, Nicolas Sarkozy, mudou-se para o Palácio do Eliseu. Irritados com Sarkozy, que era visto como hiperativo e obcecado por dinheiro, muitos desejavam ter de volta o sensível amante da arte asiática que havia conquistado o coração das pessoas com seu apelo popular e temperamento jovial. Após 12 anos na presidência, Chirac despediu-se do povo francês deixando uma montanha de reformas sociais inacabadas, mas também abriu caminho para várias decisões importantes, abolindo o serviço militar obrigatório e estabelecendo um poderoso Exército operacional. Ele também proibiu o uso de véu em escolas e universidades públicas. A correção dos livros oficiais de história também garantiu amplo reconhecimento ao líder conservador, tanto na França quanto no exterior: Chirac admitiu abertamente, como chefe de Estado, o envolvimento francês em perseguir e assassinar judeus durante a ocupação nazista. E foi acima de tudo esse legado histórico que sobreviveu à sua presidência e continuará sendo uma conquista importante de seu tempo no cargo. ______________ A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube | App | Instagram | Newsletter Autor: Andreas Noll (ca)
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