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Opinião: Greta Thunberg, a criança que há de nos salvar

00:03 | 26/09/2019
A adolescente sueca é um fenômeno: iniciou o movimento Greve pelo Futuro e inspirou milhões de jovens à luta contra mudanças climáticas. Mas também tem algo em comum com os populistas, opina Zoran Arbutina.Quando se busca no Google por "Greta Thunberg", aparecem atualmente cerca de 200 milhões de resultados, e a tendência é crescente. Isso já deixa claro: há muito ela se tornou um fenômeno midiático global. Não importa o que faça e onde, Greta Thunberg é observada. Suas palavras são citadas, a mídia a escuta atentamente. Em geral ela é caracterizada como a ativista do clima que iniciou o movimento global Greve pelo Futuro, inspirando milhões, especialmente jovens, a se engajarem na luta contra as mudanças climáticas. Ela se encontra com chefes de Estado e fala nas Nações Unidas, recebe prêmios, incluindo o Prêmio Nobel alternativo, e agora seu nome está na lista das 100 pessoas mais influentes do planeta. Já existem biografias sobre ela e até um livro com seus discursos – contando nada menos do que 64 páginas. E Greta Thunberg tem apenas 16 anos! Como é possível tudo isso? A maior parte do que diz não é realmente novidade – ela própria enfatiza isso reiteradamente. Ela não afirma ter revelado novas verdades. Em vez disso, exorta as pessoas a finalmente tomarem conhecimento e agirem em conformidade com o que já é sabido há muito tempo e, na opinião dela, já foi suficientemente comprovado pela ciência. Mas por que justo ela? E de onde vem todo esse alvoroço midiático? Ao longo da história, repetidamente acontece que algo que paira no ar, que, por assim dizer, chega a hora para algo. E então aparece alguém que aponta, expressa, torna esse fenômeno visível e compreensível para todos – como se o espírito do mundo houvesse escolhido o seu porta-voz. Nesse caso, é uma porta-voz de 16 anos. Ela é jovem, e sua aparência, ainda mais. Quando nos fala, é o rosto de uma criança que olha para nós. E isso toca algo muito profundo nas pessoas. Numerosas culturas sabem disso: no mundo cristão, é o Cristo recém-nascido que há de salvar a humanidade. No Nepal, garotas eleitas são adoradas até a puberdade como kumari, as meninas-deusas. Porque as crianças são consideradas inocentes e puras. Elas exprimem verdades que os adultos tentam ignorar e esconder. Ou – dependendo do ponto de vista – uma verdade mais profunda e mais elevada se faz notar através delas. E assim Greta Thunberg se torna a criança do nosso tempo, que fala a verdade, que olha nos olhos a nós, adultos, e nos chama de mentirosos. E a fixamos fascinados, aplaudindo, projetando nela nossos desejos, anseios e medos, vendo nela a criança que nos salvará. Enfim! Hosana! E agora podemos nos recostar e relaxar. O alvoroço midiático global, no entanto, também tem a ver com outra das habilidades de Greta Thunberg: ela é mestre em exacerbar e simplificar. Isso é algo que ela tem em comum com muitos populistas de todo o mundo. Poucos campos científicos são tão complexos e, portanto, tão nebulosos em suas análises e resultados como a pesquisa climática. No entanto, nas apresentações de Greta Thunberg, tudo é reduzido a uma suposta clareza e simplicidade, como se tratasse das leis da física newtoniana. "Escutem, finalmente, os cientistas", pede, como se entre eles não houvesse também os que veem a problemática do clima de forma um tanto mais diferenciada. O mundo é pintado por Greta Thunberg apenas em preto e branco, tudo no meio ela simplesmente exclui, oferecendo respostas radicais para perguntas complexas. E exige ação, aqui e agora, sem tempo para pensar ou fazer perguntas. "Don‘t think about it – just do it! Nossa casa está pegando fogo!" – é a mensagem que todos entendem. Greta Thunberg é clara, é penetrante, encaixando-se, portanto, no formato Twitter. Ideal para um mundo midiático que adora manchetes e quer simplificações. E isso também a torna altamente eficaz. ______________ A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube | App | Instagram | Newsletter Autor: Zoran Arbutina
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