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Brasil expressa "espanto" por falas de ministro uruguaio sobre Bolsonaro

Ministro da Defesa do Uruguai questionou o impeachment de Dilma Rousseff, a eleição de Jair Bolsonaro e a permanência do Brasil no Mercosul

AFP
15:17 | 09/09/2019

O governo brasileiro expressou "espanto", "rechaço" e "perplexidade" por falas do ministro da Defesa do Uruguai, José Bayardi, que questionou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a eleição de Jair Bolsonaro e a permanência do Brasil no Mercosul.

Em uma dura carta publicada nesta segunda-feira, 9, pelo jornal El Observador e enviada na sexta-feira passada, 6, à Chancelaria uruguaia, o embaixador do Brasil no Uruguai, Antonio Ferreira, disse que recebeu "com absoluta perplexidade" as declarações de Bayardi "por serem levianas e fora de contexto".

"Se fosse por mim, de repente o Brasil teria que ter sido tirado (do Mercosul) também (bem como a Venezuela), o que significou a última eleição (do presidente de extrema direita Jair Bolsonaro em 2018) e o afastamento da presidenta Dilma Rousseff" de seu cargo em 2016, disse Bayardi no programa local Quem é quem, que é transmitido pela emissora pública. O ministro uruguaio respondia dessa forma a uma pergunta na qual questionavam se ele considerava a Venezuela uma ditadura.

Dirigente de longa data do governante Frente Ampla (esquerda), ele assumiu neste ano a pasta da Defesa. Antes de dar sua resposta, tirou do bolso um exemplar em miniatura da Constituição venezuelana. "Lá (na Venezuela) há um governo que está sustentado em uma Constituição que é a que os venezuelanos escolheram", garantiu Bayardi, para quem o regime de Nicolás Maduro "não" é uma ditadura e o que ocorre é "um marco institucional de muita tensão".

A discussão provocada por Bayardi bota lenha na fogueira de uma relação pouco harmoniosa entre o Brasil de Bolsonaro e o Uruguai de Vázquez. Antes da eleição do ex-militar à frente do governo nacional, vários integrantes do governo uruguaio, inclusive ministros, criticaram o hoje presidente.

O ministro uruguaio insistiu na comparação entre a permanência do Brasil no Mercosul e a saída da Venezuela do bloco. Caracas foi suspensa em 2017 pela aplicação de uma cláusula democrática aprovada em 1991 por Brasília, Buenos Aires, Assunção e Montevidéu, sócios fundadores da grupo.

"Acho que (a Venezuela) foi tirada (do Mercosul) em um determinado momento porque havia uma forte pressão (...), muito forte, pelos governos do Brasil e da Argentina que haviam mudado, para tirar (Caracas), e que o Uruguai resistiu a tudo o que pôde para que não acontecesse até acabar sem poder resistir. Foi errado", afirmou.

"Se começarmos com os questionamentos sobre a institucionalidade venezuelana (...) posso dizer que, se aplicássemos o mesmo padrão para fazer essa leitura, o Brasil teria que ficar de fora, pelo que isso significou e ainda o que continua transcendendo do que foi a institucionalidade brasileira", observou.

O embaixador brasileiro disse que os comentários "sobre a sociedade brasileira estão carregados de fortes preconceitos e demonstram total desconhecimentos da realidade em que vivem 210 milhões de brasileiros, uma sociedade com grande vigor democrático". "Me causou espanto e rechaço a opinião expressa sobre o funcionamento do Mercosul, mecanismo que também demonstrou desconhecer", conclui a missiva.