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O Brasil que parou de driblar

00:06 | 04/07/2019
Vitória por 2 a 0 contra a Argentina na semifinal da Copa América foi alívio após desempenho burocrático que vem substituindo criatividade do futebol brasileiro. Protagonismo dos técnicos ajuda a entender fenômeno.Após a eliminação histórica da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014, quando perdeu por 7 a 1 para a Alemanha em casa, a crítica esportiva formou um consenso. O futebol brasileiro precisaria se atualizar, uma vez que ficara evidente a discrepância em relação às escolas europeias. A chegada de Tite trouxe a consistência tática que parecia faltar, e o Brasil voltou a jogar de igual para igual contra as equipes de ponta. Apesar da nova eliminação na Copa do Mundo do ano passado, o técnico foi poupado por torcedores e analistas. Nesta Copa América, a paciência pareceu ter acabado. Novamente perto da torcida, a seleção conviveu com vaias até a semifinal contra a Argentina. Se a eficiência garantiu o Brasil na final, o jogo criativo que encantou o mundo por décadas parece ter desaparecido. A vitória convincente contra a arquirrival, por 2 a 0, representou um alívio, pois o desempenho burocrático na competição não empolgou. O Brasil empatou duas vezes por 0 a 0, contra Venezuela e Paraguai, seleções de nível técnico bem inferior. As goleadas contra Bolívia e Peru, ambas do escalão inferior, não bastaram para mudar a impressão de frieza que vem do campo. Afinal, os brasileiros não sabem mais driblar? Os movimentos gingados sempre foram a marca registrada da Canarinho. De Garrincha a Ronaldinho Gaúcho, o recurso para enfrentar defesas fortes e organizadas era a finta improvisada. Tal como a síncope que quebra a expectativa rítmica no samba, as pernas alegres deitavam e rolavam sobre a rigidez corpulenta dos adversários. A alegria começou a sair de cena com o avanço da globalização sobre o futebol. Em um cenário de enorme disparidade econômica entre os grandes clubes europeus e as equipes brasileiras, a orientação nas categorias de base passou a ser formatar os talentos às expectativas dos mercados centrais: força física e disciplina tática. Mais recentemente, esse fenômeno ganhou uma componente extra: a venda das principais revelações para a Europa ainda na adolescência. É o caso de nomes como Vinicius Jr. e Rodrygo, do Real Madrid. Dos 14 atletas que entraram em campo nas quartas de final da Copa América, contra o Paraguai, sete deixaram o país antes de completar 20 anos. Comentarista dos canais SporTV, o jornalista Aydano André Motta cobriu as Copas do Mundo de 1998, 2006 e 2014, além de ter trabalhado como editor na de 2002. Ele lembra que o jogador brasileiro mais habilidoso da atualidade se salvou do enquadramento aos cânones táticos por uma atitude "subversiva". "Em uma coletiva de imprensa na Granja Comary, na Copa de 2014, Neymar contou que seu pai o fazia treinar dribles e finalizações com o pé esquerdo em casa. Esses fundamentos não eram contemplados nos treinos da base do Santos, que eram basicamente táticos", relembra. A história lembra o caso de Ronaldinho Gaúcho, estimulado desde novo pelo irmão e empresário Assis, ex-jogador, a explorar sua habilidade. Mais recentemente, com uma torcida carente de irreverência, bastaram alguns minutos em campo para Everton "Cebolinha" virar xodó. Saindo do banco, ele mudou jogos com belos gols e se firmou como titular nos últimos jogos. Coincidência ou não, ele joga no Grêmio e, aos 23 anos, segue no futebol brasileiro. Motta chama atenção para o protagonismo adquirido pela figura do treinador no futebol, razão fundamental para o engessamento do jogo. "O nome mais importante do esporte hoje é Pep Guardiola. Essa valorização excessiva da tática prende os jogadores a um determinado padrão de jogo. Um Garrincha seria mal visto por essa lógica", avalia. "É interessante a comparação com o basquete, por exemplo. O cara da NBA é o LeBron James, e mal se fala nos técnicos. A tática está a serviço do talento, e não o contrário", acrescenta. O jornalista cita uma conversa que teve com o ex-jogador Paulo Cézar Caju há alguns anos para ilustrar essa mudança. Nas eliminatórias da Copa de 1978, Caju voltou à seleção em uma partida contra a Colômbia, no Maracanã, após ser barrado pelo técnico Osvaldo Brandão. Encostado à linha lateral do campo durante todo o jogo, ele teve atuação de gala e foi decisivo na goleada por 6 a 0. "Perguntei a ele se aquele posicionamento tinha sido uma orientação do técnico, que era o Cláudio Coutinho", conta Motta. A resposta veio seca: "Meu querido, técnico não mandava em mim. Ele escalava e eu fazia o que queria, porque eu jogava muito." O icônico jogador é um dos maiores críticos do que chama de "escola gaúcha" de futebol. PC se refere aos últimos treinadores da seleção, todos do Rio Grande do Sul — Mano Menezes, Luiz Felipe Scolari, Dunga e Tite. "Eles fizeram muito mal ao futebol brasileiro, e, por causa dessa [escola] gaúcha, não temos mais um diferencial", disse em entrevista ao jornal O Tempo, às vésperas do confronto entre Brasil e Bélgica na Copa de 2018, na qual a seleção Canarinho foi eliminada. Na ocasião, o ex-jogador afirmou que torceria pela derrota da seleção que defendeu em dois Mundiais. "Gosto de futebol leve, solto, limpo. A Bélgica tem jogadores talentosos que amadurecem a cada Copa. Não gosto de força, gosto da caneta, de balãozinho", completou. Ao que tudo indica, os brasileiros terão que se acostumar a ver um futebol de organização defensiva e ataques organizados. "Vivemos um 'resultadismo' muito intenso. Na primeira fase da Copa América, já se especulava a demissão do Tite. Se ele resolve estimular um jogo mais criativo e sofre uma goleada, não permanece no cargo", afirma Aydano. "Não há tempo nem estrutura para esse tipo de revolução." ______________ A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube | App | Instagram | Newsletter Autor: João Soares (do Rio)

Fonte: DW | dw-world.de

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