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Não se deve fazer o jogo do terrorismo religioso

Assumir o discurso dos fanáticos religiosos é prestar um serviço a eles. Quem pede vingança pelos atentados no Sri Lanka está apenas fazendo o jogo dos terroristas, afirma o articulista Felix Steiner

00:03 | 25/04/2019

Está claro que os atentados no Sri Lanka foram direcionados contra cristãos. Contra quem mais seriam quando os executores detonam suas bombas no principal feriado cristão, no meio de três igrejas lotadas, bem como em hotéis de luxo que atendem sobretudo a turistas do mundo ocidental e cristão? Muitas outras coisas, porém, ainda não estão claras.

Por exemplo se se trata mesmo de uma obra do "Estado Islâmico", como o grupo terrorista afirmou três dias depois. Até então, o "Estado Islâmico" costumava reivindicar atentados desse tipo muito mais cedo – mesmo aqueles em que, como ficava claro mais tarde, não mantivera nenhum contato com os executores. Ou, por exemplo, se esse assassinato em massa no domingo de Páscoa de fato é uma vingança pelo atentado de Christchurch, como o governo do Sri Lanka afirmou saber.

Especialistas em terrorismo expressaram fortes dúvidas a esse respeito. Afinal, os preparativos para uma série de atentados coreografados dessa magnitude exigem muito mais tempo do que as cinco semanas que se passaram desde o massacre na Nova Zelândia. Para os mais de 350 mortos, tudo isso não interessa.

Assim com tudo isso não interessa aos 50 muçulmanos que, em 15 de março, foram assassinados a tiros por um radical de direita maluco quando participavam das preces de sexta-feira em duas mesquitas em Christchurch. A grande maioria dos mortos queria apenas professar sua fé sem ser incomodada, o que é um direito fundamental de todo ser humano.

A morte brutal de todas essas pessoas parece ainda mais incompreensível e sem sentido quando se observa que nem no Sri Lanka há conflitos religiosos envolvendo cristãos nem na Nova Zelândia há problemas com a minoria muçulmana. Tanto num país como no outro, o que se viu foi a ação de fanáticos que querem explodir e fuzilar a batalha cultural e religiosa da qual se consideram vítimas. Porém, as vítimas de fato (ou seja, os mortos e feridos no Sri Lanka, na Nova Zelândia e também em inúmeros outros locais) não têm nada a ver com essa batalha. Nem a quiseram. Essas vítimas não buscaram nem a batalha nem a guerra, elas apenas queriam viver suas vidas em paz, como qualquer outra pessoa normal.

Não dá para entender a lógica dos terroristas (existe mesmo uma?) com meios racionais. Por isso também não é necessário conduzir algum tipo de diálogo com essas pessoas (sobre o que mesmo?). Mas também não se deve fazer o jogo deles e assumir essa perversa visão de mundo que divide entre amigos e inimigos. Qual seria o sentido de santificar todas as vítimas do Domingo de Páscoa, como exigiram alguns círculos eclesiásticos que se veem como especialmente devotos?

Por sorte, o papa não ouve apenas aqueles que se consideram os seus fiéis mais ferrenhos. Apelos por vingança e culto de mártires são justamente o que esperam os instigadores do terrorismo de cunho religioso. Aí eles terão uma justificativa para o próximo atentado. Isso seria prestar um serviço a eles. Já uma polícia e um serviço secreto mais eficientes valem qualquer esforço. Pois há algo que incomoda tanto quanto os atentados: o quanto as autoridades já sabiam e, mesmo assim, não conseguiram evitar a tragédia.

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Fonte: DW | dw-world.de