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A onipresente campanha pelo 'sim' à nova Constituição em Cuba

16:01 | 15/02/2019

Em ônibus, supermercados e na televisão: em Cuba, o slogan do governo socialista #YoVotoSí (#EuVotoSim) pela nova Constituição, que será submetido a referendo em 24 de fevereiro, aparece por todos os lados e gera críticas nas redes sociais.

"Em 15 dias teremos aprovada a #Constituição que todos fizemos pelo bem de todos. #Cuba será um país melhor, mais do seu tempo. #EuVotoSim", tuitou o presidente Miguel Díaz-Canel na segunda-feira.

"Compadre, e para que fazer um referendo?", perguntou imediatamente um internauta.

Durante três meses, em 2018, o projeto de nova Constituição, que deve substituir a vigente de 1976, foi debatido pela população antes de ser ajustado e aprovado no final de dezembro pelo Parlamento, após coletar as opiniões do povo. Um vasto exercício de democracia, segundo o governo.

E o resultado foi um texto que reconhece o mercado, a propriedade privada e o investimento estrangeiro, mas sem renunciar à sociedade comunista.

Tudo isso proporciona uma base legal para a abertura da economia cubana, que começou há 10 anos. Atualmente 591 mil cidadãos trabalham no setor privado, equivalente a 13% da força de trabalho do país.

Contudo, abandonaram a definição de matrimônio como a união "entre duas pessoas", que havia aberto o caminho ao casamento homossexual. A maioria dos participantes no debate se opôs a essa modificação, segundo as autoridades.

Em 1976, a Constituição foi adotada por referendo com uma porcentagem esmagadora de 97,7%, segundo cifras oficiais. Mas, nas últimas décadas, setores da comunidade internacional criticaram o governo cubano pela falta de transparência em seu processo eleitoral.

Nas ruas de Havana é difícil escapar da campanha pelo "sim". As telas para avisos ou mensagens nos ônibus têm a consigna, além de outdoors nos cruzamentos, assim como adesivos em caixas automáticos e vitrines de supermercados.

Questionado pela AFP, vários transeuntes estão convencidos da campanha e certos de sua decisão em 24 de fevereiro: votar sim. Para Sara Martínez Tamayo, médica de 54 anos, com seu voto quer "dizer sim também à Revolução e tudo o que compete aos cubanos".

"Se todos nos sentimos cubanos (...) temos que dar esse passo à frente e irmos às urnas e dar um 'sim' a Cuba", considera Ariel Zumaquero, um fisioterapeuta de 49 anos.

Mas "estão usando orçamento público para apoiar uma só opção em um contexto no qual os cidadãos podem votar sim ou não", critica Norges Rodríguez, coordenador do blog Yucabyte.org, dedicado às novas tecnologias.

"Isso me gera dúvidas sobre a credibilidade do processo", acrescenta, lamentando a ausência de "autoridade eleitoral independente" para "verificar o resultado final" do referendo.

Como revelou o blog independente 14ymedio e a AFP pôde verificar, não é possível enviar um SMS por meio do operador único Etecsa que contenha os lemas #YoVotoNo (#EuVotoNão) e #YoNoVoto (#EuNãoVoto), pois nunca chegam ao seu destinatário.

"Seria como visitar a Coppelia (famosa sorveteria de Havana) e poder escolher livremente entre o sabor de baunilha e baunilha", escreveu um internauta no Twitter.

Diferentemente do referendo de 1976, agora os cubanos têm acesso à Internet em seus celulares, já que em dezembro do ano passado foi implementado o serviço 3G na ilha.

Em seu perfil no Twitter, o Observatório Cubano de Direitos Humanos mostra um grande "Eu voto não" sobre um fundo vermelho e elabora uma lista de 10 razões para isso, especialmente porque é "legal" fazê-lo e para denunciar o fato de que o governante Partido Comunista de Cuba (PCC) se mantenha como único.

Nas redes sociais também apareceram montagens com fotografias de cartazes pelo "sim" transformados em "não".

De acordo com Rodríguez, a campanha "EuVotoSim" do governo também uma resposta à do "EuVotoNão" na Internet.

"A própria preocupação que o governo tem é precisamente pelo impacto que (a campanha do 'não') pode ter no voto. A preocupação é que haja um voto positivo (pelo 'sim') e que seja maciço, como estão acostumados há muito tempo", comenta Rodríguez.

"Acho que precisam compreender que existem mudanças dentro da sociedade, que não é tudo monolítico, as pessoas estão começando a pensar com mais liberdade, estão se informando por vias diferentes, (...) veem a Internet", acrescenta.

AFP