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Milhões, omissão e tragédia: a base frágil do futebol brasileiro

15:22 | 15/02/2019

Há uma semana, dez adolescentes morreram no incêndio no centro de treinamento do Flamengo. O clube de maior receita do Brasil sofreu a pior tragédia de sua história em um país que agora se pergunta a que preço continua sendo o maior exportador de talentos do mundo.

Na madrugada da última sexta-feira, o fogo consumiu em minutos as estruturas instaladas em uma zona declarada como estacionamento e onde dormiam 26 jovens das categorias de base do Flamengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

O incêndio -que provavelmente começou em um aparelho de ar condicionado- se expandiu vorazmente pelos quartos, que compartilhavam uma única saída comum. Treze garotos conseguiram escapar, três ficaram feridos, mas os outros dez não sobreviveram.

As vítimas tinham entre 14 e 16 anos e morreram dentro de um dos centros de treinamento mais modernos do Brasil, a poucos metros de onde treinam seus ídolos da equipe profissional. O local, porém, não tinha alvará dos bombeiros.

A prefeitura se apressou para afirmar que o complexo esportivo operava sem as devidas licenças desde outubro de 2017 e que o Flamengo havia recebido 31 multas por irregularidades. Mas ninguém tomou a iniciativa de interditar o local.

A maioria dos falecidos, que viviam no CT, era oriunda de outros estados do Brasil, onde ser jogador de futebol segue sendo o sonho de milhares de crianças. Custe o que custar.

"É uma situação muito dura que a gente tem porque é essencialmente mercantil, então o clube quer investir o mínimo possível (na formação) e obter o máximo de lucro, enquanto os meninos veem a possibilidade enorme de fazer a vida", explicou à AFP o especialista em marketing esportivo Erich Beting.

Gigante e com uma bola a cada esquina, o Brasil é o maior exportador de talento do mercado global. Mais de 1.750 jogadores brasileiros foram negociados em transferências internacionais em 2018, de acordo com o relatório Fifa TMS, muito à frente dos argentinos, segundo da lista com 891 atletas. Das 93 federações mundiais, 78 têm jogadores brasileiros, responsáveis pela maior movimentação de dinheiro.

Somente as vendas dos jovens Vinicius Junior ao Real Madrid e Lucas Paquetá ao Milan renderam ao Flamengo 85 milhões de euros. Ambos frequentaram até alguns meses atrás as mesmas instalações dos jovens falecidos, mas tiveram mais sorte.

"A gente tem que lembrar que existem centenas ou milhares de crianças e adolescentes em clubes que não têm tantos recursos como o Flamengo. Se isso acontece num clube como o Flamengo, o que pode estar acontecendo no resto do Brasil?", questiona Ana Christina Brito Lopes, especialista em direitos dos jovens, clamando por mais inspeções.

Impressionado pela tragédia no local que foi sua casa durante 13 anos, o ex-goleiro Getúlio Vargas se fez a mesma pergunta e a lançou nas redes sociais. Hoje aposentado, este ex-cria das categorias de base do Flamengo pediu aos seguidores que denunciassem as instalações perigosas Brasil afora. O retorno foi chocante.

Desde então, Getúlio Vargas recebeu mais de 350 mensagens de jogadores ou mães, a quem prometeu anonimato. Fotos de quartos com colchões no chão ao lado de um amaranhado de cabos e fios, móveis apodrecidos ou banheiros e cozinhas insalubres enchem agora sua conta no Instagram, procedentes de alojamentos de categorias de base e de alguns times profissionais de todo o país.

"O maior problema eu acho que é a gestão: a forma que o dinheiro é empregado, as prioridades... Eu acho que tem muita coisa que a gente precisa melhorar", analisou o ex-goleiro de 36 anos, hoje comentarista esportivo.

Além das polêmicas constantes nos clubes, os três últimos presidentes da Confederação Brasileira de Futebol enfrentam acusações de corrupção. Um deles, José Maria Marin, cumpre pena nos Estados Unidos.

A tragédia no Flamengo acordou as autoridades, que lançaram uma onda de inspeções e encontraram vários outros clubes tradicionais em situações irregulares.

Alguns clubes, como o São Paulo, se anteciparam e mudaram o lugar da concentração do elenco profissional até conseguir regularizar suas instalações, enquanto o Corinthians corre para adaptar seus alojamentos juvenis dentro do prazo de três meses dado pela prefeitura, assim como o Cruzeiro em Belo Horizonte.

Na segunda-feira, outro incêndio levou ao hospital dois jogadores sub-20 do Bangu que estavam alojados em instalações da Comissão de Desportos da Aeronáutica, a poucos quilômetros da tragédia de sexta. Também no Rio, as autoridades interditaram o centro de treinamento do Vasco e uma das residências do Botafogo até que o clubes cumpram os requisitos.

Enquanto isso, um juiz proibiu a entrada de menores nas instalações do Flamengo, que prometeu toda a assistência possível às famílias das vítimas.

Mas, passadas as homenagens e a comoção inicial, algumas pessoas esperam mais.

"A gente tem uma necessidade de responsabilização criminal em relação a isso. Se o clube se transformar em vítima dessa situação seria algo tenebroso para o futuro", alertou Beting.

Para o futebol brasileiro, 2019 começou tenebroso.

rs/js/am

Fonte: AFP