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FESTIVAL DE CINEMA DE BERLIM

Wagner Moura: "Cidadãos têm a obrigação de resistir às ditaduras"

Em entrevista a um grupo de jornalistas, Moura, de 42 anos, explica os motivos que o levaram a fazer seu primeiro longa-metragem, "Mariguella"

13:34 | 15/02/2019
Wagner Moura exibe placa em homenagem a Marielle Franco no Festival de Cinema de Berlim, na Alemanha. (Foto: Tobias Schwarz/AFP)
Wagner Moura exibe placa em homenagem a Marielle Franco no Festival de Cinema de Berlim, na Alemanha. (Foto: Tobias Schwarz/AFP)

"Um dos primeiros produtos culturais abertamente contrários ao que o Bolsonaro representa". É assim que Wagner Moura definiu seu filme de estreia, "Marighella", selecionado para o Festival de Cinema de Berlim, que ele espera que seja lançado no Brasil "o quanto antes". 

Protagonizado pelo ator e cantor Seu Jorge, o filme repassa os últimos cinco anos (1964-1969) da vida de Carlos Marighella, membro do Partido Comunista e líder de um dos primeiros grupos de resistência armada contra a ditadura militar. O líder foi morto por agentes do Exército.

Na ocasião, o ator e diretor carregou, no tapete vermelho, uma placa de Marielle Franco, em homenagem à vereadora assassinada a tiros em março de 2018.

O objeto é uma cópia da placa instalada na Cinelândia, onde fica a Câmara Municipal do Rio, por aliados de Marielle. Ela foi destruída por Rodrigo Amorim (PSL), então candidato a deputado estadual pelo estado, em outubro. Poucos dias depois, no primeiro turno das eleições, ele foi eleito com o maior número de votos do estado, 140.666.

“Marighella, negro, revolucionário, foi assassinado por forças do Estado em 1969 no seu carro e, 50 anos mais tarde, uma vereadora negra morreu da mesma forma nas mãos, provavelmente, de agentes do Estado”, declarou Moura nesta sexta-feira, 15, em coletiva de imprensa.

Para ele, o Estado brasileiro é racista: "A violência de 50 anos atrás é a mesma que se emprega hoje contra a população das favelas e a polícia não está treinada para proteger os cidadãos, mas o Estado decide quem são os inimigos”, completou.

Em entrevista a um grupo de jornalistas, Moura, de 42 anos, explicou os motivos que o levaram a fazer seu primeiro longa-metragem - selecionado fora de competição - e como imagina que será sua recepção no Brasil.

Por que você decidiu dirigir um filme sobre Carlos Marighella?

A biografia de Marighella tinha sido lançada em 2012 e as histórias de resistência no Brasil sempre me fascinaram. A Revolta dos Malês, na Bahia, meu estado de origem, os protestos contra a ditadura... Especialmente isso, porque eu nasci em 1976. Mas a minha geração era muito diferente da que lutou. Estava alienada. Esses meninos que agora vão às ruas se parecem muito mais com a geração de 1964 que a minha.

O que Jair Bolsonaro tem a ver com rodar "Marighella"?

Filmamos durante (o governo do ex-presidente Michel) Temer. Então, Bolsonaro era uma espécie de piada. Ninguém acreditava (que fosse chegar ao poder). Não quero que este filme seja uma resposta a Bolsonaro. Mas certamente é um dos primeiros produtos culturais abertamente contrários ao que ele representa. Ele mesmo criticou o filme antes de chegar à Presidência.

Como este filme foi proposto quanto à veracidade dos fatos?

Estava claro que tinha que ser um filme, já tem muitos documentários sobre o Marighella. Portanto, há muitas situações e personagens que não existiram, mas a alma do filme tem fundamento sólido.

PComo você acha que será sua recepção no Brasil?

Imagino que o filme será criticado pela direita, mas também pela esquerda, que vai garantir que não foi exatamente assim que aconteceu. Estou preparado para tudo, inclusive para que vaiem e joguem lixo na tela. Até para ser agredido fisicamente.

A estreia no Brasil está garantida?

Quero que o filme saia o quanto antes. Mas é um problema. As distribuidoras não têm data, têm medo da reação do governo. O fato de estar na Berlinale e de atrair atenção internacional deve facilitar as coisas.

Como o seu filme abordará o debate sobre o termo "ditadura", num contexto em que algumas pessoas no Brasil falam agora em "regime autoritário"?

Essa é a chave, o relato. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF, o ministro Dias Toffoli) disse que não houve golpe de Estado (em 1964), mas um movimento. O primeiro passo é a mudança semântica, é dizer 'não foi tão ruim'. Todos os governos fascistas começam na semântica. Este filme existe para dizer que a ditadura foi horrível.

Para você, qual é exatamente o discurso narrativo do filme?

Que a resistência é importante na história e que os cidadãos têm o direito e a obrigação de resistir às ditaduras, aos estados violentos e aos que não respeitam os cidadãos.

Carlos Marighella é um antídoto do Pablo Escobar para você?

Os personagens do filme são complexos. Eu não pretendo defender o Marighella. Não é um filme de bonzinhos e vilões, embora pessoalmente não possa não me identificar com os revolucionários. Quero fazer filmes nos Estados Unidos que não reforcem os estereótipos latinos, especialmente depois de interpretar Escobar, como o que estou rodando agora sobre um diplomata brasileiro assassinado no Iraque.

AFP