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Na segunda divisão, futebol alemão "de verdade"

11:41 | 15/02/2019
Disposição física, cruzamentos, chutes de longe à exaustão: na Segunda Bundesliga, imperam as antigas virtudes do futebol alemão. É por isso que a torcida comparece aos estádios. Muitos clubes só jogam de casa cheia.O dia 12 de maio de 2018 ficará marcado para sempre na história do Hamburgo. Até então, o tradicionalíssimo clube do maior porto da Alemanha jamais havia experimentado o dissabor do rebaixamento para a segunda divisão do futebol alemão. Quando entrou em campo no seu lendário Volksparkstadion (Estádio Parque do Povo) completamente lotado, alimentava a tênue esperança de ainda conseguir escapar do vexame. Para tanto, era preciso vencer o Gladbach e torcer por uma derrota do Wolfsburg frente ao Colônia. Fez a sua parte ao vencer os potros, mas o Wolfsburg despachou o Colônia, liquidando a última esperança dos hamburgueses. Ao final do jogo houve tentativa de invasão de campo, a polícia teve que intervir e muitas lágrimas não paravam de rolar pelos rostos de torcedores de todas as idades. Pela primeira vez na sua história, o Hamburgo foi rebaixado, e o relógio digital que marcava orgulhosamente há quanto tempo o clube já fazia parte da elite do futebol alemão parou de funcionar. Algumas rodadas antes, os deuses do futebol reservavam o mesmo destino ao Colônia, primeiro campeão da Bundesliga, em 1964. Dá até para imaginar que Hamburgo e Colônia fossem experimentar agora uma descida ao inferno do mundo do futebol com desmantelamento dos times, declínio técnico e estádios apenas parcialmente lotados. A realidade do atual dia a dia, porém, é totalmente diferente. No clássico entre os dois em novembro, 54 mil torcedores lotaram a casa do Hamburgo para ver sua equipe derrotar os bodes por 1 a 0 com gol de Lasogga faltando quatro minutos para o encerramento do confronto. O craque do jogo foi o lateral brasileiro Douglas Santos (nota 10 do portal kicker). Nas partidas em que o Colônia manda no seu belo Rhein-Energie-Stadion, o torcedor também comparece em massa. A média do primeiro turno foi de 49.270 espectadores por jogo, equivalente a 98,5% da capacidade total da arena. Os dois clubes não tiveram queda de público após o seu rebaixamento. Pelo contrário, a média de público do Colônia até melhorou. Teve um aumento de 3,7 % em relação à temporada anterior. Fato é que a torcida é fiel. Existem clubes que, não importa onde joguem, contra quem, quando e em que circunstâncias: o torcedor marca presença. Ele sabe que na segunda divisão da Bundesliga as palavras de ordem que os jogadores recebem antes de entrar em campo são: correr, lutar, se empenhar até o último fio de cabelo. Técnica refinada, talentos deslumbrantes e geniais planos táticos raramente são vistos na segundona. Em compensação, as antigas virtudes do futebol alemão como disposição física, cruzamentos sobre a grande área e chutes de longe podem ser vistos à exaustão. É exatamente por isto que a torcida comparece aos estádios, mesmo sabendo que vai ver um futebol de segunda categoria, longe das filigranas da classe de elite. Para se dizer a verdade, é uma segunda divisão e tanto. Dos atuais 18 integrantes, 11 já estiveram na divisão principal e sete (!), em algum momento de sua história, já levantaram o título de campeão alemão. A estrutura criada pela Liga em fins dos anos 80 visando tornar o campeonato atraente para grande público e para a TV é invejável. Antes, a média de expectadores por jogo era de 5.800 pessoas e havia partidas com apenas 150 gatos pingados. Problemas financeiros estavam na ordem do dia. Em 1979 por exemplo, um jogador do St. Pauli exigiu que seu salário fosse pago com a bilheteria do jogo, e um dirigente do Alemannia Aachen teve a ideia de permitir que o torcedor pagasse o preço que quisesse para ver uma partida. Salários precisavam ser pagos, não havia dinheiro em caixa, e qualquer valor que entrasse, era bem-vindo. Mas, com uma organização comparável à da Primeira Divisão, a segundona foi se consolidando. Um divisor de águas aconteceu em abril de 1997, quando, numa segunda-feira à noite, Hertha Berlin e Kaiserslautern jogaram pelo acesso à categoria de elite perante 75 mil torcedores no Estádio Olímpico de Berlim. Apesar de ser possível ver os jogos pela TV paga, o torcedor de um time que disputa este campeonato de acesso prefere ir ao estádio e fazer a sua parte para levar o clube do seu coração à Bundesliga. Não são apenas os assim considerados grandes clubes, como Hamburgo e Colônia que lotam suas arenas. O St. Pauli, por exemplo, só joga com casa cheia. São 29.500 espectadores por partida, equivalente a 100% da capacidade do lendário Millerntor-Stadion. O Union Berlin é outro com média de 21.290 torcedores. A capacidade de seu pequeno estádio é de 22 mil lugares. Os 18 clubes que hoje disputam a Bundesliga 2 não se queixam de problemas financeiros e pagam os salários dos jogadores em dia. A maioria possui estádios modernos e alguns até se dão ao luxo de terem sua própria academia de futebol. No fim das contas, a Segunda Divisão do futebol alemão, após anos de dificuldades, agora está consolidada. E isso não apenas pela presença de grandes como Hamburgo e Colônia, mas por méritos próprios de todos clubes que fazem parte dela. -- Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Desde 2002, atua nos canais ESPN como especialista em futebol alemão. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast "Bundesliga no Ar". A coluna Halbzeit sai às terças. 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