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Pesquisa analisa água potável dos cinco continentes e 83% estão contaminados com plásticos

O levantamento foi feito pela organização Orb Media, com participação da Folha de São Paulo - que entregou 10 amostras da água na cidade de São Paulo

22:10 | 06/09/2017
A imagem mostra uma torneira com água potável pingando de dentro dela
A imagem mostra uma torneira com água potável pingando de dentro dela

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Pela primeira vez, uma pesquisa indica a quantidade de microplásticos presentes na água potável, nas torneiras, chuveiros e outros tipos de água tratada de todo o mundo. As notícias não são boas. 83% das amostras enviadas para os laboratórios tinham fibras plásticas.

O levantamento foi feito pela organização Orb Media, com participação da Folha de São Paulo - que entregou 10 amostras da água na cidade de São Paulo. A análise foi realizada na Universidade de Minnesota, nos Estados  Unidos, onde o trabalho de laboratório foi centralizado.

Os EUA tiveram a maior taxa de contaminação, 94%. Enquanto no Brasil, das dez amostras enviadas, nove estavam contaminadas. Isto indica uma taxa de 90%. Foram 169 amostras de água potável, de mais de uma dúzia de nações e em cinco continentes.

Essas fibras plásticas e micro plásticos em geral, que acabam parando nos sistemas de abastecimento de água, podem chegar lá de várias formas diferentes. No entanto, segundo o Orb, a maior parte das fibras de plástico no mar é advinda de roupas sintéticas. A cada lavagem, desse tipo de peça de vestuário, podem ser liberadas até 1.900 fibras microscópicas na corrente de água residual que sai das máquinas de lavar.

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Apesar de esse tipo de microplástico já ter sido encontrado em oceanos, gelo marinho, lagos e rios remotos, além de no ar (na atmosfera), nenhuma pesquisa foi conduzida para investigar a presença deles na água potável.

As micropartículas de plástico foram encontrados até mesmo na água engarrafada de três das maiores marcas americanas. Sherri A. Mason, uma das pesquisadoras responsáveis por supervisionar a investigação, quando questionada se o plástico poderia estar na água de beber, sempre dizia que não sabia antes da pesquisa ser concluída. "Eu realmente não achava que estava", afirma Sherri.

Apesar de no Brasil não ter o hábito de beber a água vinda da torneira, as pessoas utilizam para lavar os alimentos e cozinhá-los. Apesar dos especialistas indicarem que ferver a água elimina boa parte dos microorganismos, também é a partir do aquecimento que substâncias aderidas no microplástico podem ser liberadas.

"Produtos químicos vindos dos plásticos são uma parte constante da nossa dieta diária. De modo geral, pensamos que a garrafa de água pura da nascente, a tigela de plástico em que preparamos nossas refeições e que é apropriada para micro-ondas ou o copo de isopor com uma bebida quente existem para proteger nossos alimentos e bebidas. Mas em vez de formar uma barreira completamente inerte, esses plásticos se decompõem e liberam produtos químicos, incluindo plastificantes que são desreguladores endócrinos, como o bisfenol A ou ftalatos, retardadores de chama e até mesmo metais pesados tóxicos, que são todos incorporados à nossa dieta e ao organismo", explicou Scott Belcher, professor e pesquisador da Universidade Estadual da Carolina do Norte, além de Porta-voz da The Endocrine Society, uma organização médica internacional no campo da endocrinologia e metabolismo.
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A empresa responsável pelo saneamento de 366 municípios paulistas, a Sabesp, disse à Folha que segue as exigências da portaria 2.914, do Ministério da Saúde em 2011, o qual não menciona os microplásticos. Além disso, declararam que não analisam a água de nenhuma forma para constatar a existência de microplásticos na água que tratam.

Nos Estados Unidos também não foi estabelecido normas de segurança relativas ao aparecimento de partículas plásticas na água potável. O ex-superintendente do departamento de água da cidade de Nova York, Albert Appleton, chegou a dizer que "não se pode decidir se esse é um problema real até entender como ele afeta o organismo humano".

Só que Sherri alerta: "Temos dados suficientes, vindos da análise da vida selvagem e dos impactos que ele está tendo sobre os animais selvagens", e adiciona ao dizer que "se isso está afetando [a vida selvagem], como podemos achar que não vai nos afetar de alguma forma?"

A quantidade de plástico no mundo é enorme. 270 milhões de toneladas são produzidas por ano. O plástico é usado apenas uma vez e descartado mais de 40% das vezes. Ele não se decompõe facilmente e permanece no ambiente por séculos. Pequenos animais filtradores podem ingerir essas partículas plásticas, por exemplo, e ele pode se tornar o alimento de outros animais. Esse plástico pode ser transmitido por toda a cadeia alimentar e chegar até nossa comida também, além da água.

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Os pesquisadores dizem que - para além de esperar por ações governamentais que coloquem filtros em todas as estações de tratamento de água, melhorarem medidas de reciclagem, visando o plástico não retornar ao ambiente, entre outras medidas - é importante que cada um se preocupe com ações corriqueiras que ajudem a não colocar tanto plástico no meio ambiente.

Alguns exemplos são:

- Reutilize produtos plásticos e tente não usá-los quanto não for preciso. Entre eles, sacolas plásticas, canudos, garrafas de água.

- Evite lavar roupas com fibra sintética com tanta frequência. Se necessário, use um ciclo lento e procure um filtro para a máquina de lavar, assim as microfibras plásticas não descem pelo ralo.

- Os pneus soltam uma poeira de plástico quando são usados. Esses minúsculos detritos são levados pela água da chuva e pelo vento, poluindo o ambiente.  Pegar carona, utilizar o transporte coletivo, andar mais e incentivar outras pessoas a ter essas atitudes, tudo isso ajuda a diminuir os poluentes.

- Látex e tinta acrílica são feitas quase que inteiramente de plástico. Procurar por tintas alternativas que não incluam componentes plásticos é uma solução. Caso uma tinta desse tipo seja usada, ao lavar os pinceis, reserve a água suja utilizada para esse fim e procure um local de descarte adequado.

- Escovas de dente raramente são recicladas corretamente e, além do cabo, as cerdas são um poluente em potencial. Usar escovas feitas de um material alternativo, como bambu ou linho, é uma alternativa não poluente.

Redação do O POVO Online

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