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Mundo

Especialistas da ONU mortos na RDC caíram em armadilha de tradução

16:05 | 13/09/2017

 

Os especialistas das Nações Unidas assassinados há seis meses na República Democrática do Congo (RDC) caíram em uma armadilha montada por agentes duplos, afirmou nesta quarta-feira a Radio France Internationale (RFI).

A chilena-sueca Zaida Catalan e o americano Michael Sharp foram mortos em 12 de março em Bunkonde, no Kasai (centro), onde investigavam episódios de violência e a eventual existência de fossas comuns. Catalan foi decapitada.

Na região do Kasai, as forças de segurança combatem desde setembro de 2016 as milícias Kamuina Nsapu, nome de um líder local morto em agosto.

A RFI publicou em seu site a transcrição de uma conversa dos especialistas, na véspera do crime, com um partidário de Kamuina Nsapu que falava em tshiluba, uma das quatro línguas nacionais do país, e com outras pessoas que traduziam para o francês.

"Ao menos três dos participantes mentiram voluntariamente aos especialistas sobre o nível de segurança em Bunkonde", afirma RFI.

Em um determinado momento da conversa, o miliciano François Muamba os desaconselha a ir a Bunkonde. "Tais palavras de François Muamba não foram traduzidas", assegura RFI.

De acordo com esta fonte, o tradutor era "um agente da DGM (Direção Geral de Migração)" e próximo ao poder.

As autoridades do país afirmam que os dois jovens foram assassinados por milicianos. Um comitê da ONU chegou a esta mesma conclusão.

Quatro supostos assassinos foram levados a um tribunal militar em 5 de junho em Kananga. Um dos acusados, Evariste Ilunga Lumu, foi identificado formalmente como um dos assassinos por uma testemunha, Jean Bosco Mukanda.

Mas a RFI questiona o testemunho: "em março de 2017 um oficial do exército disse que ele era um ex-líder miliciano que havia se tornado informante do exército".
A investigação da RFI foi realizada por sua ex-correspondente na RDC, Sonia Rolley, que teve sua licença revogada por Kinshasa.
Consultado pela AFP, Lambert Mende, porta-voz do governo, chamou a reportagem da RFI de "imoral".

Nesta quarta-feira, durante uma coletiva de imprensa em Nova York em que comentou a questão da falsa tradução, o secretário-geral da ONU Antonio Guterres não confirmou nem desmentiu os fatos.

AFP