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Opinião: Paz olímpica não vale para a Ucrânia

Cheiro de guerra que vem do caldeirão do Kremlin dá vantagem estratégica a Putin, que não pode arriscar um conflito aberto por causa de uma faixa de terra na Ucrânia, opina o correspondente Christian Trippe

11:17 | 12/08/2016
A embaixada da Rússia em Kiev está órfã, os diplomatas foram embora e só os guardas permanecem no local. Há alguns dias, a indicação de um novo embaixador falhou porque o governo ucraniano lhe negou as credenciais. Em Moscou, há meses que não há mais embaixador da Ucrânia. Na prática, portanto, não há mais relações diplomáticas entre os dois países sem que tenha havido uma ruptura formal.

Pessimistas veem nesse limbo diplomático mais um sinal da iminente "grande" guerra entre os dois países. Há, de fato, alguns indícios: as batalhas nas linhas demarcatórias no leste da Ucrânia se intensificam a cada semana, e o Acordo de Minsk é só um papel manchado de sangue. Observadores relatam que armas pesadas estão sendo levadas para o front. Especialistas militares na Rússia e em países da Otan falam sobre a movimentação de grandes formações militares na fronteira. Fala-se em reagrupamento ou deslocamento. Ambos soam ameaçadores.

E agora isso: o serviço secreto russo FSB afirma ter frustrado uma ação terrorista da Ucrânia na Crimeia, e dois russos teriam morrido nessa suposta agressão ucraniana. Como resultado imediato, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que não haverá mais encontro de cúpula sobre o Acordo de Minsk. Será que a Rússia busca apenas um pretexto para atacar?

A guerra da Rússia contra a Geórgia há exatos oito anos também não irrompeu em agosto? E, também daquela vez, não foram os Jogos Olímpicos que desviaram a atenção do mundo? O Ocidente não parece paralisado os Estados Unidos em meio a uma campanha política, os europeus enfraquecidos? Quando, se não agora? Essas são as perguntas que os linhas-dura no Kremlin devem se fazer, dando vazão aos seus ímpetos expansionistas. Afinal, dentro da visão imperialista de uma Grande Rússia, a anexação da Crimeia e o apoio militar disfarçado aos separatistas ucranianos certamente não serão o último ato dessa história.

Suposições desse tipo, interpretações de ações militares e os acontecimentos no leste da Ucrânia resultam num coquetel que cheira a guerra. É uma poção que vem do caldeirão do Kremlin e cujo cheiro causa stress em Kiev e mal-estar em Bruxelas, Berlim e Paris. Pois, com todas essas ameaças militares, Putin aparentemente quer se tornar senhor do processo que, em breve, poderá decidir sobre o futuro da Ucrânia. O líder russo perderia essa posição vantajosa se arriscasse uma guerra aberta por causa de uma faixa de terra no leste da Ucrânia. Aí, as sanções econômicas do Ocidente seriam endurecidas, e a economia da Rússia, enfraquecida.

Assim, restam à Rússia as ameaças e as alfinetadas. Em 24 de agosto, a Ucrânia celebrará 25 anos de independência da Rússia. Ao que tudo indica, os poderosos no Kremlin querem de todo jeito estragar a festa.

Autor: Christian Trippe
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