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Cuba privatiza aeroporto de Havana de olho no turismo

Modernização e exploração ficam nas mãos de empresas francesas e deverão dobrar número anual de passageiros para a marca de 10 milhões. Diplomacia de Hollande começa a render frutos

13:17 | 16/08/2016
A empresa Aéroports de Paris (ADP) vai operar o aeroporto internacional José Martí, em HavanaDe olho no rápido crescimento do número de turistas e um pouco antes do início dos voos regulares entre Estados Unidos e Cuba, o governo cubano fez um anúncio inédito: a privatização de um aeroporto. O terminal internacional José Martí, em Havana, será operado em breve pela empresa francesa Aéroports de Paris (ADP). Já a expansão e modernização ficarão a cargo da construtora francesa Bouygues Bâtiment International.

O anúncio foi feito no início de agosto pelo vice-ministro dos Transportes de Cuba, Eduardo Rodríguez, em Havana. A francesa ADP administra além do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris outros 31 terminais espalhados pelo mundo. Por sua vez, a Bouygues participou de vários outros grandes projetos, como a construção do Stade de France, do Eurotúnel e do aeroporto de Hong Kong.

O projeto em Cuba, que deve ser estendido ao aeroporto regional de San Antonio de los Baños, a oeste de Havana, "prevê o financiamento e execução de medidas imediatas para melhorar a qualidade dos serviços, bem como investimentos de médio e longo prazo de acordo com o crescimento estimado de passageiros", afirmou a televisão estatal cubana. Não foram divulgados detalhes do modelo adotado na concessão nem os investimentos previstos.

Novas parcerias não são descartadas

Após a expansão, o aeroporto de Havana deverá receber mais de 10 milhões de passageiros por ano, afirmou a Aéroports de Paris. Em 2015, 3,5 milhões usaram o terminal, e neste ano os números tendem a ser ainda maiores. Mais da metade dos turistas estrangeiros que visita o país entra pelo aeroporto da capital.

Até agora, o governo cubano havia concedido licenças de exploração para empresas estrangeiras apenas no setor hoteleiro. Há anos que empresas europeias e canadenses estão ativas na ilha. Em junho, depois de mais de 50 anos, uma rede americana a Starwoods Hotels abriu uma unidade do Four Points by Sheraton em Cuba.

O anúncio da privatização do aeroporto da capital é apenas o início de novas concessões para empresas estrangeiras na área de infraestrutura. "Transporte e infraestrutura são elementos estratégicos e prioritários na economia e sociedade cubana", declarou o Ministério do Transporte do país. E acrescentou: "Parcerias como as descritas acima serão estimuladas também para outros terminais no país".


Turismo tem boom, mas infraestrutura não acompanha

Com a concessão, o governo em Havana reage aos diversos desafios de infraestrutura da ilha por causa do crescente número de visitantes. São esperados quase 4 milhões de turistas até o final deste ano. No primeiro semestre de 2016, a quantidade de viajantes em comparação ao mesmo período do ano anterior cresceu 12%.

O verdadeiro boom, porém, ainda está por vir: os americanos já estão liberados para viajar a Cuba, apesar de ainda serem obrigados a preencher um dos pré-requisitos das 12 categorias para a autorização das viagens como desportivas, culturais, universitárias ou religiosas. As restrições para viagens individuais deverão ser em breve retiradas pelo Congresso.

Além disso, após mais de 50 anos de interrupção, voos regulares voltarão a fazer a rota entre EUA e Cuba no final de agosto. O governo americano calcula até 155 voos por semana. As licenças para as ligações ainda não foram emitidas, até porque o aeroporto de Havana já atingiu sua capacidade máxima. São frequentes as reclamações de usuários sobre serviços ruins, problemas na entrega de bagagens e as longas esperas.

Planos para a modernização e expansão do terminal já existem, porém, há muito tempo. No início do ano passado, a empreiteira brasileira Odebrecht, que já participou da ampliação do porto de Mariel, foi contratada por 207 milhões de dólares para a expansão de um terminal do aeroporto de Havana. Ainda não está claro em que medida esse projeto será afetado após a concessão aos franceses.

França: parceira frequente de negócios

Não é coincidência que empresas francesas tenham obtido a concessão do aeroporto de Havana. "Cuba é um país-chave na região, com o qual desejamos uma cooperação estreita", anunciou já no início de 2015 o chanceler francês, Laurent Fabius. Por sua vez, em maio do ano passado, o presidente François Hollande foi o primeiro líder da Europa Ocidental a visitar Havana em 29 anos. Em fevereiro, o presidente cubano, Raúl Castro, retribuiu a visita em Paris.

Enquanto outros países europeus, como a Alemanha, agem de forma contida na ilha, uma série de empresas francesas já está ativa há anos em Cuba: ao lado da Bouygues, as empresas de energia Total e Alstom, a Alcatel-Lucent (telecomunicações), a Pernod-Ricard (coproprietária da marca de rum Havana Club), a Accor (rede hoteleira) e a companhia aérea Air France.

Tradicionalmente, a França tem boas relações com Cuba, sendo que elas tiveram suas origens na oposição do ex-presidente Charles de Gaulle às sanções econômicas americanas. Desde então, em contraposição a Washington, os gaulistas nas fileiras dos conservadores franceses apoiam uma política cubana independente.

Além disso, há muitas ligações culturais. A sucursal cubana do instituto cultural francês Alliance Française é uma das maiores do mundo. A França também desempenhou um papel importante na conclusão bem-sucedida das negociações da dívida de Cuba com o Clube de Paris. Agora, a ofensiva diplomática de Hollande em Cuba começa a render frutos.

Autor: Andreas Knobloch, de Havana (fc)
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