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Primeiro namorado, um tiro fatal e justiça argentina nega feminicídio

15:30 | 22/07/2016
O primeiro amor de Karen Arias terminou em tragédia aos 16 anos, quando seu namorado usou uma arma "para assustá-la" porque ela o estava deixando e a matou. A Justiça argentina condenou o rapaz a 24 anos de prisão, mas não considerou o crime feminicídio.
O julgamento em um tribunal de La Matanza, nos arredores de Buenos Aires, durou duas semanas. Ali veio à tona a dor de duas famílias desestruturadas e a desconfiança na justiça. A família de Karen pedia prisão perpétua para Facundo Rodríguez (20 anos) pelo agravante de feminicídio.
"Mas não foi possível e esse foi outro golpe", disse sem compreender as razões María Reinoso, a mãe de Karen.
Em 21 de abril, a adolescente fugiu da escola para a casa de seu namorado e na discussão, morreu ao levar um tiro. Facundo confessou: "Nunca foi minha intenção assassiná-la, mas assustá-la".
A sentença que saiu este mês foi por homicídio com agravante. "Tinha que apodrecer na prisão", gritaram amigas e vizinhas de Karen na saída do julgamento.
"Não consigo entender porque acabou assim. Nesse dia nós morremos também", lamentou José Arias, taxista e pedreiro de 60 anos, que perdeu a mais nova de seus oito filhos.
A mãe (57 anos) e a irmã mais velha de Karen, Isabel Arias, transformaram a discussão em luta para que este crime não fique impune. "Lutamos para que este assassinato não seja esquecido com a desculpa preconceituosa de que nos bairros pobres são as balas perdidas de todos os dias", indicou a irmã.
"Ele a matou por ser mulher, ela já não queria ficar com ele", sustentou Isabel. A Argentina soma a cada ano quase 300 mortes por violência de gênero. O caso de Karen em um bairro operário se repete sem distinção de classes.

Uma batalha exemplar de organizações civis na Argentina fez aprovar em 2012 uma lei que pune com prisão perpétua o homem "que matar uma mulher ou uma pessoa que se autodeclare com identidade do gênero feminino".
Mas sua aplicação não é fácil. "Falta capacitação dos juízes e promotores. É um tema cultural", assinalou à AFP, Fabiana Tuñez, presidente do Conselho Nacional de Mulheres.
"Matam as mulheres por uma questão cultural, nos consideram uma coisa, um objeto que pertence a um homem", apontou Tuñez. "Essa é uma cultura machista que atravessa mulheres e homens", acrescentou.
Continua intacta a luta travada pelas ativistas, muitas delas vítimas de violência de gênero. Foi feito um avanço na consciência social com os protestos de 3 de junho nos dois últimos anos. Sob o lema "Nem uma a menos", conseguiram juntar centenas de milhares de pessoas contra "esta pandemia social", segundo as Nações Unidas.
Mas as leis contra os assassinatos de mulheres têm adversários. Por que feminicídio, se é um crime como outro qualquer? Por acaso a vida de uma mulher vale mais? E se for um crime passional? No julgamento, foram os questionamentos de familiares, amigos e advogados de defesa.
"A cultura machista fez com que quando se assassine uma mulher, busque sempre a maneira de justificar o agressor", disse Tuñez. Matar uma mulher é tão grave como a qualquer pessoa. Mas "sempre procura-se um atenuante como 'porque estava alcoolizado ou drogado ou porque ela estava com outro'", resumiu.
Na Argentina, a cada 30 horas uma mulher morre nas mãos de seu companheiro ou ex-companheiro, segundo a associação civil "A Casa do Encontro".
Esses crimes ocorrem em casamentos da classe alta, em casais maduros de classe média, em namoros jovens em que não se distingue o nível educacional, a prosperidade ou infortúnio econômico.
"Aqui nunca levantamos a voz, ele e eu, e ela era uma menina saudável, carinhosa", recordou a mãe de Karen, ao lado de seu marido, com que está casada há mais de 30 anos.
María Reinoso aprendeu neste ano, e há três meses sem Karen, que existem formas de detectar e ajudar possíveis vítimas de violência machista. Por isso, conta sua experiência em escolas para centenas de adolescentes.
"Ele a afastou de nós, dos amigos, não a deixava mais jogar bola, não queria vê-la falando ou mandando mensagens de texto no telefone quando estavam juntos", contou a mãe.
Reinoso cerra os dentes de impotência. Soluça diante de um cartaz com a foto que sua sua Karen alegre, pendurado na sala de sua casa: "Todas essas condutas são 'da cartilha', é preciso ficar atento quando uma mulher está vivendo isso", lamenta.
Deve-se reeducar a sociedade, "para que o assassinato de uma mulher não seja o mesmo que roubar um carro duas vezes", comentou Tuñez.
AFP
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