PUBLICIDADE
Notícias

"Falta quase tudo em Aleppo"

11:22 | 18/02/2016
Na Síria, os médicos arriscam suas vidas tratando de feridos. Osama el-Ezz é um deles. Ele cuida das pessoas na segunda maior cidade do país. Em entrevista à DW, ele relata os horrores de uma região em guerra. O sírio Osama el-Ezz é cirurgião e trabalha para a Sociedade Médica Sírio-Americana (Sams). Regularmente, ele viaja da Turquia para sua cidade natal, Aleppo, levando ajuda médica para as pessoas. Atualmente, ele também se encontra lá na parte da cidade que passou a ser controlada pelos rebeldes desde meados de 2012. Desde que a Rússia começou a ajudar o ditador Bashar al-Assad, executando ataques aéreos, a luta por Aleppo, segunda maior cidade da Síria, é maior do que nunca. "A vida nesta região está realmente muito difícil. Falta quase tudo que se precisa para sobreviver", conta Ezz à DW, em entrevista realizada por meio de curtas mensagens de voz, já que não foi possível a comunicação telefônica. Deutsche Welle: Como está a situação na parte de Aleppo em que você se encontra agora? Osama el-Ezz: A vida nesta região está realmente muito difícil. Falta quase tudo que se precisa para sobreviver. As pessoas não têm energia elétrica já há mais de seis meses. E o abastecimento hidráulico também é precário. Mal sai água das nossas torneiras, para não falar da água potável. As pessoas têm pouco dinheiro. E perderam as esperanças. Poucos estão empregados, e são muitos os parentes feridos que precisam de cuidados. Além disso, os pais de muitas famílias e, portanto, os chefes entre os familiares estão mortos. Eles perderam a vida lutando ou foram vítimas de bombardeios, muitos homens também foram sequestrados pelo regime. As pessoas não tentam fugir de Aleppo? Nem todos têm a possibilidade. Há pouca gasolina, e poucos têm um carro. Mas, sobretudo: as tropas do governo tomaram o controle de vias importantes, e é difícil conseguir passar pelos bloqueios de rua. Além disso, há o risco de ser atingido por bombas no caminho. Mas há pessoas que fogem. Como a situação em Aleppo mudou desde os ataques do Exército russo? Diariamente, sofremos ataques violentos por vários tipos de bombas e com a intervenção russa, tudo ficou ainda pior. As tropas do governo sempre tiveram como alvos locais com grande número de pessoas como praças, escolas, mesquitas. Mas isso aumentou desde então e o número de vítimas cresceu maciçamente. Nós, médicos, também vemos uma mudança nas lesões dos combatentes ou vítimas, já que os russos, aparentemente, utilizam outras armas e bombas. Infelizmente, também não existe nenhum tipo de alerta, esses ataques acontecem simplesmente. E ninguém pode se esconder tão rapidamente especialmente porque nem todas as casas possuem porão. Como isso afeta as pessoas? Quase ninguém se atreve mais a sair de casa. Eles estão traumatizados, precisam de ajuda psicológica e psiquiátrica. As crianças acordam aos gritos durante a noite, grávidas perdem seus bebês. Os homens também sofrem muito com essa situação. Eles carregam um fardo pesado: de um lado, tentam ganhar dinheiro. No entanto, são eles que veem toda a destruição e os mortos na cidade. E como os cuidados médicos estão funcionando? Há poucos medicamentos e pouquíssimos aparelhos medicinais. Mas o que nos causa problemas em especial é que nós nem sempre podemos tratar adequadamente as doenças graves, como casos de câncer. O que as pessoas lhe contam, do que elas têm medo? Elas estão muito preocupadas que as tropas do governo assumam o controle das entradas da cidade e deixem que as pessoas morram de fome. Sabemos que Assad não poupa ninguém. Esse é um grande cenário de horror para as pessoas nesta parte de Aleppo. Autor: Diana Hodali (ca)Edição: Rafael Plaisant
TAGS