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Opinião: Crise migratória é tarefa do século

12:13 | 23/12/2015
Nunca antes tantos imigrantes haviam chegado à Alemanha num espaço de tempo tão breve. Para o editor-chefe da DW, Alexander Kudascheff, isso exige muito, tanto dos refugiados quanto dos residentes do país. Neste ano a Alemanha acolheu 1 milhão de refugiados, provavelmente mais. Um milhão de imigrantes em busca de refúgio, de proteção, de uma nova vida. Um milhão de seres humanos uma verdadeira metrópole. Um milhão de pessoas que precisam o mais rapidamente possível de moradia, mas principalmente de trabalho. E antes disso, têm de aprender alemão: as crianças, nos jardins de infância e escolas, os adultos, em cursos de língua. Um grande esforço dos alemães, e ainda maior, embora evidente, por parte dos refugiados. O que os alemães têm pela frente é uma tarefa do século para ao menos uma, talvez até mesmo duas, gerações. A grande maioria dos refugiados vem da Síria, Iraque, Afeganistão, Eritreia. Eles provêm de países, de sociedades, de culturas sem liberdade e sem liberdades. Eles vêm de sociedades em que os laços religiosos são fortes, nas quais a família, por vezes também a tribo, vale mais do que o indivíduo ou até os indivíduos. Eles vêm de regiões com estruturas patriarcais e nas quais o Estado não é uma pátria, mas sim um inimigo. E chegam a uma sociedade completamente oposta: aqui na Alemanha o indivíduo conta mais do que a sociedade; se a família se dissolve, o Estado representa um seguro contra os riscos da vida; a igualdade de direitos entre mulheres e homens e a autodeterminação sexual do indivíduo são fatos inquestionáveis. A Alemanha é uma sociedade aberta. Ao se confrontar, no entanto, as duas partes terão de mudar, aprender a se aproximar uma da outra, sendo que as maiores exigências serão aos imigrantes. Eles, que procuraram a Alemanha como nova pátria, devem agora se adaptar às tradições, normas e costumes. Eles também têm que respeitar o que lhes pareça estranho sim, talvez até mesmo repugnante. Eles precisam se envolver na vida do país sem, nem por isso, abandonar inteiramente a própria identidade cultural e linguística. Mas a Alemanha não é a Síria ou a Eritreia, e aqui não se pode viver como lá. Os migrantes devem, portanto, ser curiosos sobre sua nova vida na Alemanha. Mas também a Alemanha vai mudar. Na opinião da chanceler federal Angela Merkel, dentro de 25 anos o país vai ser mais aberto, curioso, interessante, mais tolerante. Essa é uma perspectiva ambiciosa, pois na Alemanha contemporânea, há muito o cotidiano é isso tudo. Ainda assim, o país vai mudar: ele precisa, ao mesmo tempo, redefinir com confiança sua identidade moderna e aprender a se interessar pelo que vem de fora. A cultura muçulmana não é somente a sharia, a lei tradicional do islã, não é somente a repressão da mulher, não é somente a burca. Ela é também tudo isso no dia a dia. Mas ela também foi a guardiã, para a Europa, da cultura grega, sucumbida durante a Idade Média. Ela é rica em tesouros, monumentos, em literatura, filosofia. Já é hora de nos aproximarmos dessa cultura com a mesma desinibição e espírito crítico de Johann Wolfgang von Goethe, em seu livro de poemas Divã Ocidental-Oriental. A política para os refugiados está dominada por duas grandes ilusões. Da primeira, os alemães estão, justamente, se despedindo: a de que a Alemanha não é um país de imigrantes. Se, antes, isso já não era verdade, hoje muito menos: nós somos atraentes, portanto as pessoas querem vir para cá. A segunda: de que a política para os refugiados e de asilo é uma política migratória a fim de resolver os problemas demográficos do país. Isso não faz o menor sentido, do ponto de vista político. Imigrantes são buscados de forma direcionada, também no tocante à quantidade refugiados simplesmente chegam. Apesar disso, eles precisam ser integrados o mais rápido possível, tanto linguística quanto profissionalmente. E também do ponto de vista mental: eles escolheram a Alemanha como país da esperança. Então deveriam, sim, eles têm que transformar em sua esta sociedade aberta. Autor: Alexander KudascheffEdição: Augusto Valente
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