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A ascensão improvável de Ed Miliband no Reino Unido

17:00 | 05/05/2015
Como por milagre, líder trabalhista desenvolveu perfil forte nos últimos meses, de "nerd" a político elegível. Mas isso talvez não baste para desatar o impasse nas urnas e, sobretudo, na formação do governo britânico. O último debate televisivo antes das eleições gerais no Reino Unido quase causou a queda de Ed Miliband. Literalmente: num programa em Yorkshire, com participação do público, o líder trabalhista por pouco não perdeu o equilíbrio ao deixar o palco. Poderia ter sido um desses momentos que definem uma carreira: mas ele se equilibrou no último instante. A situação pode ser interpretada como símbolo da espantosa mudança de imagem de Miliband nas últimas semanas da campanha eleitoral. No ano passado, mesmo adeptos ferrenhos do Partido Trabalhista e seus próprios correligionários não teriam apostado um centavo nas chances dele nas urnas. Em todas as pesquisas de opinião sobre sua imagem, o desempenho foi catastrófico. A visão generalizada era de Ed Miliband como obstáculo a uma eventual vitória eleitoral do trabalhista: impopular, ininteligível, desajeitado em uma palavra: inelegível. Nerd de currículo sólido Toda turma de escola tem um como Miliband: sério, aplicado, meio canhestro no trato social o nerd de plantão. Alguém assim pode vir a ser professor universitário ou gerente de tecnologia de informação. Mas não primeiro-ministro na era da permanente presença midiática. Quando, no ano passado, ele foi filmado devorando um sanduíche de bacon, seus adversários aproveitaram mais uma vez para expô-lo ao ridículo. Na campanha eleitoral britânica, todos os meios são lícitos para apresentar o oponente como um idiota. E, no entanto, o líder trabalhista possui um currículo político e acadêmico impecável. Filho caçula de um professor de política, o marxista Ralph Miliband, ele cresceu com o irmão David no norte de Londres, num tradicional lar de intelectuais de esquerda. Os pais eram judeus de origem polonesa, imigrados para a Inglaterra para escapar dos nazistas. Ambos os irmãos estudaram em Oxford e entraram para o Partido Trabalhista na era Tony Blair. No governo de Gordon Brown, David conseguiu assumir a pasta do Exterior, enquanto Ed ficou com a de Energia e Mudança Climática. Duas carreiras meteóricas até o "fratricídio político" da convenção partidária de 2010. "Caim e Abel" Após perder a eleição, Brown abdicou da liderança trabalhista, e David Miliband parecia ser o seu sucessor natural: simpático, cosmopolita, um seguidor de Blair, da bem-sucedida ala da direita do partido. Porém, a candidatura se transformou numa luta com o irmão mais novo, que acabou por vencer. Com o respaldo dos votos sindicalistas, Ed conseguiu ultrapassar David como candidato da ala de esquerda, por uma maioria apertadíssima. A imprensa explorou o drama, no esquema "Caim e Abel". As relações entre os dois são difíceis desde então. Até hoje esse episódio serve aos opositores de Ed Miliband para pintá-lo como traiçoeiro e indigno de confiança. "Ele vai causar ainda mais danos ao país do que o irmão dele", envenena, por exemplo, o prefeito conservador de Londres, Boris Johnson. Ed rebate repetidamente que a questão não foi uma rivalidade fraterna, mas sim a linha do partido. Miliband defende um distanciamento do "blairismo", a política neoliberal simpatizante com o empresariado. Pelo contrário: ele quer combater a desigualdade social no país, fazer baixar as elevadas anuidades universitárias, salvar o sistema de saúde pública, aliviar a carga dos trabalhadores. Ele é a favor da permanência britânica na União Europeia e da igualdade de chances: na Alemanha, seria um social-democrata. Ao mesmo tempo, almeja também consolidar o orçamento público britânico e reduzir o déficit estatal. Alguns de seus eleitores reclamam por Miliband não lhes fornecer as grandes mensagens impactantes. Mas o chefe de partido tem medo de falsas promessas. De perdedor a paixão das adolescentes Em algum momento, no mês de março, veio então a grande virada. Talvez David Axelrod, o consultor político do presidente Barack Obama, tenha conseguido, na qualidade de assessor de campanha do Partido Trabalhista, o milagre de fazer que Ed Miliband fosse, finalmente, ele mesmo nos debates de TV e nos comícios. De repente, o candidato passou a ser percebido como o quarentão esbelto, bem vestido que é, um homem dotado de humor e naturalidade. E um político que sustenta as próprias convicções, sabe escutar e aparenta ser afetuoso de verdade. A nova imagem foi tão eficaz, que subitamente adolescentes passaram a tirar selfies com Miliband e a se reunir na internet em grupos de "Mili-fãs". Talvez seja tudo, em grande parte, fruto de um marketing astuto. Mas são também sinais da transformação do político num candidato elegível. Depois das urnas O que segue em aberto é até que ponto isso vai alterar o resultado das urnas. A desilusão dos britânicos com a política é profunda, e também Ed Miliband é encarado como parte da execrada elite e da casta dos políticos. De qualquer modo, seja para ele, seja para o atual premiê conservador, David Cameron, deverá ser difícil constituir um governo após o pleito desta quinta-feira (07/05). As pesquisas de boca de urna mais recentes não preveem para nenhum dos dois uma porcentagem dos votos que baste para formar o próprio governo, e o vencedor dependerá de encontrar um parceiro de coalizão. Assim, os partidos menores é que terão a palavra decisiva. Entretanto, será que os liberais, enquanto presumíveis perdedores, estarão dispostos a trocar de lado, depois da aliança com os conservadores? E quanto êxito terão os populistas de direita do Ukip? Acima de tudo, porém, o destino de um eventual governo trabalhista depende dos nacionalistas escoceses. As previsões são de que o SNP conseguirá uma forte dianteira. Mas Ed Miliband prometeu que não fará uma coalizão com o partido, que defende a divisão do Reino Unido. É igualmente cogitável um governo de minoria, já que em diversas questões os trabalhistas e nacionalistas da Escócia se posicionam do mesmo lado. A menos que as sondagens estejam totalmente enganadas, após as eleições nacionais o Reino Unido se encontrará diante de uma penosa formação de governo e de um panorama partidário inteiramente mudado. Autor: Barbara Wesel (av)Edição: Rafael Plaisant
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