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Opinião: Ferguson é sintoma de incompetência e irresponsabilidade

15:36 | 25/11/2014
Os jurados decidiram, a cidade está em chamas. Isso era previsível. Com os políticos locais sobrecarregados, agora a sociedade civil arca com responsabilidade extra, opina o correspondente da DW nos EUA Miodrag Soric. Na dúvida, a favor do réu. No final, o júri se decidiu contra a abertura de um processo. Aparentemente, havia testemunhos mutuamente contraditórios demais, faltavam provas de que o policial Darren Wilson tenha agido com negligência ou violado alguma lei. Numa declaração, ele defendeu o homicídio do jovem de 18 anos. Suas palavras soaram frias e prepotentes. O agressor assumiu ares de vítima: era melhor ter ficado calado. Desse modo, o policial põe o dedo na ferida e dificulta para os afro-americanos não somente em Ferguson a aceitação do veredicto proferido pelos jurados. Darren Wilson não é, certamente, uma figura de identificação. Ele personifica os preconceitos sobre os policiais americanos que já há em todo o mundo: primeiro atirar; depois perguntar. O pior de alguns preconceitos é que por vezes são verdadeiros. As estatísticas falam por si: a violência policial excessiva contra afro-americanos nos EUA continua a ser um problema, embora a população prefira recalcar. A formação policial é em parte deficiente, longe do padrão vigente, por exemplo, na Alemanha, onde é inconcebível alguém que não seja bom o suficiente para o trabalho de polícia em Frankfurt poder exercê-lo em Ludwigshafen. Mas é justamente isso o que acontece no estado americano de Missouri. Bons policiais podem, por exemplo, patrulhar as ruas de Saint Louis. Os não tão bons para formular educadamente precisam "se afirmar" nas zonas desfavorecidas, como Ferguson. Lá, os "guardiães da ordem de segunda classe" também ganham menos, o que não é necessariamente uma motivação. A morte de Michael Brown é mais do que uma tragédia. Mais do que um caso isolado, em que um policial obviamente sobrecarregado sacou precipitadamente a arma. Casos comparáveis ocorrem quase todos os dias em algum lugar dos EUA, somente alguns estampam as manchetes. O caso Brown tem o potencial para desencadear distúrbios raciais por todo o país: muito depende da forma como a política vai lidar com ele. E aqui a carga recai sobre o presidente Barack Obama e outros políticos em Washington. Pois os políticos de província em Missouri já deram provas suficientes de ter chegado aos limites da própria competência. Por exemplo, o governador Jay Nixon que, durante uma entrevista, não foi capaz de responder quem, no fim das contas, é o responsável pela segurança em Ferguson. Ele gaguejou tanto que virou motivo de chacota em todo o país. O promotor público responsável Robert P. McCulloch tampouco brilhou no caso. Logo após a morte de Michael Brown, muitos acusaram o jurista de parcialidade, por seu pai ter sido policial, morto por um afro-americano. Assim, McCulloch decidiu apresentar todas as provas aos jurados, para que fossem eles a decidir. Teria sido melhor ter entregado o caso a um promotor especial, que então teria analisado as provas juntamente com o júri. Mas McCulloch se recusou, talvez por vaidade, talvez por um senso de dever equivocado. O resultado não foi nenhum serviço à pátria. Seria possível prosseguir por um bom tempo com a lista dos políticos locais sobrecarregados em Missouri, o prefeito de Ferguson é apenas mais um entre tantos. Admitidamente há pouco que se possa fazer contra a incompetência na política: os cidadãos têm que escolher outros representantes. No entanto, a decepção com a política e a Justiça nos EUA não pode servir de pretexto para os tumultos violentos vivenciados novamente, quem saqueia lojas ou incendeia carros deve ir para a cadeia. Os moradores de Ferguson deveriam se perguntar o que podem fazer por uma distensão da situação. Os pais de Michael Brown dão um bom exemplo, ao apelar por calma e ações pacíficas. Da mesma forma que os representantes das Igrejas, sindicatos e ONGs locais: todos eles carregam uma responsabilidade extra nestes dias difíceis para os Estados Unidos.
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