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Condenação a Israel destoa, mas não muda rumo na política externa do Brasil

18:37 | 25/07/2014
Reprovação brasileira à ofensiva israelense em Gaza marca tom diferente do usado em outras crises internacionais. Porém, segundo analistas, é caso isolado, e neutralidade deve continuar sendo linha dominante. A firme condenação do Brasil à ofensiva em Gaza causou surpresa nos meios diplomáticos e gerou atritos com Israel. O comunicado é uma nota dissonante em relação à postura adotada pelo Itamaraty em relação a outras crises, como em Venezuela, Rússia, e Síria. Porém, segundo especialistas ouvidos pela DW Brasil, não representa uma inflexão na política externa brasileira. Em dez dias, o Brasil votou a favor de uma resolução contra Israel no Conselho de Direitos Humanos da ONU e divulgou duas notas. Na mais dura delas, condenou "energicamente o uso desproporcional da força por Israel". Em resposta, a chancelaria israelense chamou o Brasil de "anão diplomático". "O Brasil se manifestou de forma bastante clara. O Brasil, como outros países em desenvolvimento, não tem visto limitações ou obstáculos para se manifestar quanto a Israel, não é a primeira vez que se faz isso", afirma Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Postura dissonante Quando a Rússia, membro do Brics, anexou a Crimeia, o Brasil optou pela neutralidade. Na repressão a protestos contra o governo na Venezuela, evitou críticas abertas ao presidente Nicolás Maduro. E, em meio à guerra civil síria, absteve-se em votação no Conselho de Segurança da ONU, em maio de 2013, sobre uma resolução de condenação ao uso de armas pesadas por Damasco. Até então, era estimada a morte de mais de 80 mil pessoas na guerra civil. Para Stuenkel, a reação exacerbada de Israel mostrou que o Brasil continua relevante nas relações internacionais, mesmo com uma atuação mais passiva atualmente fruto da postura adotada por Dilma Rousseff em contraponto à proatividade de Lula. Ele argumenta que, mesmo chamando o país de anão diplomático, Israel preferiu rebater as críticas. Isso é uma prova de que, mesmo com essa atuação menos visível de Dilma, o Brasil é visto como ator influente nas relações internacionais, principalmente com seus vizinhos sul-americanos, afirma Stuenkel. Há um consenso entre muitos diplomatas que a voz do Brasil diminuiu muito em fóruns internacionais, alinhando-se mais a parceiros regionais. Por exemplo, o país não foi à Conferência Genebra 2, que discute a crise na Síria, e à Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha, que reuniu as principais potências mundiais. A atuação do Brasil tornou-se apagada, com alianças regionais de atores pouco expressivos, desgastando a imagem que vinha sendo construída de uma potência regional com pretensões de maior liderança global, afirma Dorival Guimarães, professor de Direito do Ibmec/Minas Gerais e mestre em Diplomacia e Negociações Estratégicas. Tal imagem tende a se consolidar, afastando o país da posição de candidato, por exemplo, a membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Ele opina ainda que o governo Dilma, especialmente na metade de seu mandato, tem o foco de garantir a estabilidade econômica e demonstrar capacidade de resposta ao resfriamento da economia, uma discussão essencial para as eleições: Os temas internacionais passam a ser secundários, e indubitavelmente reduzem a atuação internacional do país. Menos viagens Ao iniciar seu mandato em 2011, a presidente Dilma Rousseff deixou claro que não pretendia realizar tantas viagens internacionais como seus antecessores os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva. Em seus três primeiros anos, Dilma passou 113 dias fora do país e visitou 31 países. Em comparação, nos três primeiros anos de seu primeiro mandato, FHC ficou 135 dias fora do Brasil e visitou 26 países. Já Lula viajou ao exterior por 182 dias e visitou 49 países. Dilma deu preferência a América do Sul (20 viagens), Europa (13 viagens) e África (sete viagens). Lula deu muita ênfase ao tema da política externa e viu o tema como fator essencial do projeto nacional brasileiro, diz Stuenkel. Isso, agora, ficou menos evidente. Houve uma série de reuniões importantes em que não houve a participação brasileira e o Brasil não tem a mesma presença diplomática em situações de crise como tinha antes. O ex-embaixador e ministro de Indústria e Comércio Exterior no governo FHC José Botafogo Gonçalves vê na estratégia do Itamaraty uma falta de rumo. Ele considera a posição adotada sobre Israel, em comparação à postura frente a outras crises internacionais, um sintoma da "falta de um caminho claro", sem prioridades e interesses transparentes. "Em vez de dizer que houve mudança de rumo quanto à política externa brasileira, eu diria que essa é mais uma manifestação da falta de rumo, afirma Botafogo Gonçalves, vice-presidente emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). A política de Dilma sempre tentou fugir dessas bolas divididas. Se o Brasil quiser ter um papel importante no cenário mundial, tem que aceitar as consequências de sua importância.

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