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Crise na Crimeia testa política externa de Obama

11:43 | 05/03/2014
Criticado internamente e com imagem arranhada por conflito na Síria e escândalo de espionagem, presidente americano tem desafio de, com poucas opções, pôr Moscou sob pressão e evitar escalada de tensão na Ucrânia. A ocupação da Crimeia por tropas russas é um dos maiores desafios de política externa para o presidente americano, Barack Obama. Depois da hesitação diante dos conflitos com Irã e Síria, a desconfiança dentro dos Estados Unidos em torno de sua capacidade de gestão de crises internacionais aumentou. "Obama é forte o suficiente para enfrentar o ex-coronel da KGB?", questionou o jornal New York Times, em referência ao presidente russo, Vladimir Putin. Já nesta fase inicial da crise na Crimeia não faltam críticas a Obama. Para o senador republicano John McCain, a política externa do democrata é "inútil" e corresponsável pelo agravamento da situação. Em entrevista recente à DW, ele acusou o governo Obama de não ter qualquer estratégia em política de segurança. Muitos ainda associam a política externa de Obama ao conceito de leading from behind (liderar por trás), que ganhou força após a intervenção na Líbia de 2011. Os conflitos com Irã e Síria, no entanto, arranharam a imagem de seu governo como gestor de crises internacionais. E no caso de Edward Snowden, delator do esquema de espionagem americano, Obama viu Putin tomar a frente do caso. "Vamos criar um laço democrático em torno da Rússia de Putin", sugeriu o senador republicano Lindsey Graham, em referência à possível admissão de antigas repúblicas soviéticas à Organização do Tratado do Atlântico Norte. "No caso de membros da Otan ameaçados pela Rússia, eu ergueria uma bandeira da aliança o mais alto possível em volta de Putin." O senador Marco Rubio, seu correligionário da Flórida e possível candidato à presidência, disse querer "voltar novamente ao sistema de defesa antimísseis" no Leste Europeu, sem mencionar que a primeira fase do escudo já está instalada. Outros querem, simplesmente, expulsar Putin do G8. Pressão política e econômica Segundo o ex-embaixador dos EUA na Alemanha John Kornblum, o espaço de manobra de Obama na atual crise é limitado. A premissa, afirma, seria defender a integridade territorial ucraniana. "Mas o que significa isso? Está claro que isso não implica uma ação militar. Mas poderia significar fortes ações políticas e econômicas", afirmou o ex-embaixador à DW. A princípio, o presidente americano ameaçou Putin com um "preço" que ele teria de pagar. Atualmente, o governo Obama trabalha num pacote de sanções econômicas e defende o isolamento internacional da Rússia. A suspensão dos preparativos da cúpula do G8 em Sochi foi um primeiro sinal. E a ajuda financeira americana no valor de 1 bilhão de dólares oferecida a Kiev, um segundo. A estratégia de ação de Obama vem ficando, a cada dia, mais clara: pressão econômica e diplomática sobre a Rússia e, ao mesmo tempo, apoio à Ucrânia. Ninguém nos EUA parece exigir atualmente uma ação militar. "É preciso ser justo: o presidente e o secretário de Estado John Kerry reagiram fortemente à provocação russa. Kerry a chamou de agressão internacional, Obama falou de uma violação clara do direito internacional", defende o ex-embaixador dos EUA na Polônia Lee Andrew Feinstein. Se a situação se agravar ainda mais e chegar a uma anexação oficial da Crimeia pela Rússia, segundo Feinstein, os EUA iriam reagir com o congelamento dos ativos russos e com um acesso limitado de empresas russas ao mercado financeiro internacional. "Isso seria muito importante, pois é bom lembrar: não se trata da Rússia que avançou no Afeganistão, mas da Rússia do ano 2014, integrada à economia mundial", assinala o diplomata. Aproximação da UE Não foi sem motivos que Obama procurou se aproximar da Alemanha e da União Europeia. Sem a Europa, as sanções econômicas americanas seriam ineficazes. O volume de negócios dos europeus com a Rússia é dez vezes maior do que com os americanos. Isso explica a atual reticência dos europeus quanto a esse tema. Caso Vladimir Putin não venha a mudar sua estratégia e deixe suas tropas invadirem até mesmo as províncias orientais da Ucrânia, então, afirma Feinstein, será necessária uma "longa, sistemática e extensa política direcionada à pressão econômica e ao isolamento diplomático". O mesmo discurso escutou-se, porém, em 2008, quando tropas russas ocuparam parte da Geórgia. Até hoje, a Rússia não abandonou as suas posições. Na ocasião, o presidente era George W. Bush. E a imprensa americana vem chamando a atenção para o fato de que ele tinha à disposição as mesmas limitadas opções que hoje tem Obama. "Atualmente, é bastante popular falar dos meios limitados que dispõem americanos e europeus", disse Feinstein. "Mas se americanos e europeus falam com uma só voz, eles podem fazer muitas coisas." Além disso, o diplomata também aponta para o fato de a "Rússia não ser uma ilha". "O país tem muitos recursos naturais e dinheiro, mas também está bastante integrado à economia internacional. Eu não subestimaria o efeito sobre Putin", afirma.

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