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Grupos militantes pró-britânicos exploram tumultos em Belfast

11:52 | 08/01/2013
Manifestantes protestam contra lei que reduz número de dias em que bandeira britânica é hasteada. Confrontos violentos na capital da Irlanda do Norte são utilizados por grupos militantes em causa própria, acusa polícia. Na madrugada desta terça-feira (08/01), policiais e manifestantes travaram, pela quinta noite consecutiva, violentos confrontos nas ruas de Belfast, capital da Irlanda do Norte, unica nação constituinte do Reino Unido não situada na Grã-Bretanha. A polícia empregou canhões de água e balas de borracha contra manifestantes. Os tumultos começaram depois que cerca de 250 protestantes pró-Reino Unido se encontraram com católicos republicanos favoráveis à união com a República da Irlanda depois de um protesto pacífico que reuniu cerca de mil pessoas em frente à prefeitura da cidade nesta segunda-feira. A polícia tentou apartar os grupos, enquanto manifestantes jogavam pedras e bombas incendiárias contra as forças de segurança. No domingo, 50 policiais ficaram feridos e pelo menos 70 suspeitos de incitar a violência foram presos. Esta é a pior onda de confrontos na região desde que um acordo de paz em 1998 pôs fim a três décadas de conflito. Tijolos, garrafas, balas Durante todo o fim de semana, Belfast foi palco de violentos confrontos. No sábado, foram disparados tiros contra a polícia, e um homem de 38 anos foi preso por tentativa de homicídio. Manifestantes também revidaram com tijolos e garrafas. Protestos na capital da parte norte da ilha irlandesa, região pertencente ao Reino Unido, têm ocorrido seguidamente desde que o conselho municipal da cidade, de maioria republicana, decidiu, no dia 3 de dezembro, não hastear mais a bandeira britânica diariamente em prédios públicos, mas somente em determinados dias do ano, como no aniversário da rainha. A decisão foi tomada depois que partidos unionistas, que apoiam a união da Irlanda do Norte com o Reino Unido, perderam sua maioria no conselho municipal nas eleições de junho de 2012. "O equilíbrio da população de Belfast mudou, agora você tem tantos unionistas quanto nacionalistas", disse Liam Clarke, editor de política do jornal norte-irlandês Belfast Telegraph, em entrevista à DW. "Os nacionalistas, que lutaram para que bandeira britânica deixasse de ser hasteada diariamente, finalmente aceitaram um acordo prevendo o hasteamento da bandeira com menos frequência", disse Clarke. Mas sindicalistas distribuíram panfletos incentivando os cidadãos a protestar. "Foi aí que tudo começou. A situação ficou fora de controle muito rapidamente." Militantes exploraram os protestos "Grupos militantes pró-britânicos aproveitam a oportunidade e agora estão explorando os protestos para atingir seus próprios fins", apontou a polícia norte-irlandesa. Já em dezembro, a polícia acusou grupos militantes de ajudarem a orquestrar a primeira onda de violência. Os ataques recentes mostraram agora que esse é, claramente, o caso atual. "O que isso demonstra é que paramilitares se apossaram do problema e agora já apontam suas armas contra a polícia", acusou Terry Spence, presidente da Federação de Polícia da Irlanda do Norte (PNFI), em entrevista à rádio BBC. "Membros da UVF [Força Voluntária do Urster, na sigla em inglês] têm sido vistos nos protestos", confirmou o jornalista Liam Clarke, em entrevista à DW, acrescentando que coquetéis molotov foram usados por eles. Essas armas são consideradas uma espécie de assinatura da organização. Tanto a UVF como o Ulster Freedom Fighters, outro grupo militante nacionalista, cessaram ações hostis em 2007. "Depois que assinaram o acordo de paz, seus estoques de armas foram desativados. Mas algumas armas permanecem em mãos de dissidentes", afirma Clarke. Reunião urgente dos partidos políticos Os líderes políticos condenaram os recentes confrontos. "A violência grave vista nas ruas de Belfast Leste nas últimas três noites deve ser condenada da forma mais severa possível", declarou no domingo David Ford, líder do Partido da Aliança, que apoiou em dezembro a decisão de limitar o hasteamento da bandeira britânica em edifícios públicos a 17 dias por ano, e não mais diariamente. "Não só houve destruição grave de propriedades, mas os moradores locais foram amedrontados e policiais ficaram feridos. E parece certo que agora existe um envolvimento paramilitar significativo." Ford convocou uma reunião urgente de líderes partidários para esta semana, no intuito de "mostrar um compromisso verdadeiro com a construção de um futuro comum." "Mas isso não significa uma renegociação do Acordo da Sexta-Feira Santa, que terminou com décadas de violentos conflitos na Irlanda do Norte", pondera o analista político Liam Clarke. "Existe um pouco a preocupação de que a questão católico-protestante tenha sido envolvida nesse problema. Mas não acho que estamos em uma situação em que eu diria que o processo de paz está em perigo." Ele observa que as últimas manifestações atraíram apenas pequenas multidões. "Não se trata de um levante em massa. Se você perguntar à maioria dos protestantes e unionistas, eles provavelmente irão dizer, 'sim, eu acho que a bandeira deve ser hasteada'. Eles diriam que não há razão alguma para tirá-la mas, ao mesmo tempo, a maioria diria também, 'estou de saco cheio dessas manifestações, porque não consigo chegar em casa à noite'. Eles não querem tumultos, mas há uma minoria que quer." Sentimento de desigualdade No entanto, os especialistas concordam que as desigualdades percebidas entre os dois lados, em termos de investimentos e infraestrutura, são a base do descontentamento. Muitos moradores de subúrbios protestantes, em particular, se sentem em desvantagem, de acordo com Clarke. "Os organizadores dos protestos afirmam isso, eles mesmos dizem que não protestam apenas contra a questão da bandeira. Há um sentimento de que os nacionalistas têm feito melhor, que são melhores que os líderes unionistas em tirar proveito da partilha de poderes do acordo." Oportunidades de emprego são escassas na Irlanda do Norte, devido à crise econômica. Clarke acredita que os recentes conflitos são preocupantes por poderem perturbar ainda mais o desenvolvimento econômico. "Eles têm sido noticiados em lugares como a Alemanha, os EUA e em todo o mundo, e isso possivelmente vai assustar turistas e investidores. Esse é o dano real que os tumultos estão causando." Autora: Nina Haase (md) Revisão: Francis França

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