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Estratégia islamita no Mali: saquear e semear o caos

11:07 | 21/01/2013

A ofensiva dos islamitas em direção ao sul do Mali, freada pelo exército francês, se propunha a derrubar o governo, boicotar as negociações, saquear todo o possível e criar o caos, segundo observadores em Bamako e Paris.

Embora os grupos radicais que no ano passado conquistaram o norte do Mali dificilmente pudessem, com alguns milhares de combatentes e algumas centenas de veículos utilitários, conquistar o resto do país ou tomar a capital, Bamako, apostavam em ganhar território graças à desintegração do exército malinês, desferindo, assim, um golpe letal ao regime, afirmam os analistas.

"Inclusive sem chegar a Bamako, o impacto da entrada (dos islamitas) em Mopti (centro) e da queda do exército teria provocado uma comoção" regional, opinou um diplomata ocidental, que pediu o anonimato.

"Sem dúvida, a pressão teria sido tão forte que um poder mais próximo a eles teria se instalado aqui (em Bamako)", acrescentou.

Argélia e Burkina Faso tentavam convencer alguns movimentos tuaregues malineses a retomar as negociações rompendo com as forças mais radicais que se apoderaram do norte, como a Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI).

"A ofensiva (islamita) também se propunha a impedir no local esta agenda de negociações", sustentou outro observador sobre a situação deste país do oeste africano.

"Os argelinos acreditavam controlar o Ansar Dine, mas viram que (este grupo islamita) rompia a coleira e os mordia. Estão furiosos. E, por isso, disseram: 'Pagarão caro'", acrescenta esta fonte, que explica, deste modo, a decisão de Argel de autorizar o sobrevoo de seu território aos aviões franceses em missão de bombardeio de posições integralistas no Mali.

Lógica de saque
"Outra razão, talvez a mais poderosa, que os levou a atacar o sul é a fome", acrescenta este observador.

"Os barbudos não são bons administradores. E no norte já não resta nada: nem rebanhos, nem cereais suficientes. Tampouco entra o dinheiro dos resgates dos sequestros", explica.

Então, acrescenta, se impõe "a lógica da 'razzia', das hordas do deserto: esperavam roubar gado, Toyotas, saquear cidades, bancos, e por que não ouro do banco central, se ninguém os detivesse antes de Bamako", prossegue.

"Não teriam podido se manter na cidade nem em todo o país e tampouco pretendiam isso. Teriam sido necessários meses, talvez anos, para reconstruir o estado. E isso os teria feito ganhar tempo. Os franceses reagiram da única maneira possível. Doze horas depois já teria sido tarde", indicou.

O primeiro objetivo da ofensiva islamita era capturar o aeroporto de Sevaré (630 km a nordeste de Bamako). Isso teria dificultado qualquer operação internacional de envergadura, já que é a única pista do centro do país na qual podem pousar aviões de transporte militar, indica a fonte.

Um comunicado do Ansar Dine confirmava no domingo esta leitura dos fatos: "Decidimos atacar cidades como Komma para frustrar um plano francês que consiste em ocupar pontos estratégicos no âmbito de preparativos para fazermos a guerra", afirmou o grupo islamita.

Jean-Pierre Filiu, professor da universidade de Ciências Políticas de Paris e autor do livro "Noveau Moyen-Oriente", afirma que os islamitas muito provavelmente "subestimaram a rapidez e a contundência da reação francesa".

"Mas agora que desferiram o primeiro golpe (...) nos esperam em um terreno no qual lidam perfeitamente e onde poderão encenar o confronto com uma França 'infiel'", adverte.

 

AFP

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