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Dia dos Namorados encontra espaço em meio ao radicalismo no Irã

Mesmo sendo visto como importações culturais "decadentes", o dia cristão dedicado aos namorados consegue sobreviver às críticas

14:33 | 14/02/2012
O Irã até pode rejeitar as influências ocidentais, mas o Dia dos Namorados tem se tornado um fenômeno crescente graças ao espírito romântico que domina a juventude das classes abastadas da república islâmica.

Ainda que a religião dominante e os políticos linha-dura tenham começado uma campanha contra o que chamam de importações culturais "decadentes", o dia cristão dedicado aos namorados consegue sobreviver às críticas.

Parte do motivo pode ser o grande número de jovens no país: 60% da população de 75 milhões de pessoas têm menos de 30 anos, e um em cada três iranianos tem entre 15 e 30 anos.

Com grande parte desses jovens ainda solteiros, e com bares, boates e festas mistas banidas do país por leis rígidas, o Dia dos Namorados acaba sendo uma comemoração amorosa tolerada - uma vez que o lado comercial é bastante apreciado pelos comerciantes iranianos.

Muitos comerciantes em Teerã disseram à AFP que a demanda por buquês de rosas, cartões amorosos com a palavra em inglês "love", chocolate, perfume e até bichinhos de pelúcia foi grande este ano, impulsionada por uma tendência crescente dos últimos anos.

O dono de um restaurante italiano, que pediu para não ser identificado, afirmou que este dia o estabelecimento foi reservado em sua maioria por casais.

Elmira, uma arquiteta de 24 anos que se recusou a dar o sobrenome, disse que a maioria dos casais que participa do ritual romântico é jovem e de classe média e alta.

"O comum todo ano é que haja uma troca de presentes e depois saímos para jantar", contou.

"O Dia dos Namorados costumava ser legal para mim, mas agora procuro por algo mais profundo. Tradições bobas não importam se não há sentimentos envolvidos".

Há indícios, entretanto, de que a paciência das autoridades para com a celebração esteja diminuindo.

No ano passado, oficiais proibiram a produção e venda de itens do Dia dos Namorados. Conservadores insistem que não há espaço para tais declarações pouco modestas na devota cultura islâmica.

Eles ficam alarmados com o rápido declínio no número de casamentos nos últimos anos, culpando a superficial tendência ocidental.

Iranianos ufanistas preferem comemorar seu amor no Mehregan, uma festa pré-islâmica e pouco conhecida, realizada em outubro e que homenageia Mitra, a deusa persa do amor.

Pelo menos por enquanto, jovens casais iranianos ainda podem comemorar do Dia dos Namorados bem ocidental.

Saba, uma estudante de artes gráficas de 18 anos da cidade de Mashhad, disse que, para ela, esse dia não é uma questão de adotar o calendário cristão, e sim porque "adora receber presentes e chocolate".

Ela, porém, acrescentou que acha mais seguro ir a uma festa particular a ir a um restaurante ou outro lugar público que possa atrair atenções indesejadas da moralista polícia iraniana, que força a adoção de códigos comportamentais e de vestuário baseados no islamismo.

"Ainda que não estejamos fazendo nada não-islâmico nos restaurantes ou cafés, não há muitos lugares seguros para sair no Dia dos Namorados".

Mesmo a opção de ficar em casa não é muito segura. Festas são regularmente invadidas pela polícia e jovens iranianos dançando ou consumindo álcool são presos.

Meysam, um dono de loja de artigos domésticos, explica que planejava sair com sua namorada, mas por razões que não têm relação com o Dia dos Namorados.

"Eu adoro me divertir, mas também preciso fazer isso para desviar minha mente do fato de que os negócios estão terríveis hoje em dia", comentou.

Ele disse que não saber o que futuro guardava para seu pequeno negócio devido à crescente desvalorização da moeda iraniana, o rial, e às restrições à importação de bens dos Emirados Árabes e da China.

Recentes sanções econômicas adotadas pelos Estados Unidos contra o sistema financeiro do Irã levantaram grandes obstáculos para o modo como empresas iranianas conduziam seus negócios, e geraram grande impacto na importação de bens para o país.

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