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Tragédia do Edifício Andréa: um ano depois, entre dor e memória

Testemunha relembra os primeiros minutos após o desabamento do prédio no Dionísio Torres
19:56 | Out. 12, 2020
Autor - Rubens Rodrigues
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- Rubens Rodrigues Repórter do OPOVO
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Tipo Noticia

Atualizada em 14/10/2020

Após um ano, a manhã do dia 15 de outubro de 2019 ainda se faz presente para quem viu e sobreviveu à tragédia do Edifício Andrea. O desabamento do prédio de sete andares na rua Tibúrcio Cavalcante, no bairro Dionísio Torres, em Fortaleza, é marcado pela dor de famílias, amigos e vizinhos que viveram o transtorno de perder bens e entes queridos. 

Pouco mais de 12 horas antes do prédio desabar, o cabelereiro Marcello Rodrigues, então aos 42 anos, passeava na calçada do edifício com o cachorro como costumava fazer rotineiramente. Ele era morador da travessa Hilnete, pequena rua paralela à Tibúrcio Cavalcante, e não imaginava que nos próximos dias sua residência seria ponto de apoio para as equipes que viriam a trabalhar no resgate das vítimas. Viver ali se tornaria mais difícil dali para frente.

Era chegada a terça-feira, dia 15, quando o relógio marcava 10h20min. Marcello se preparava para começar o trabalho com um cliente que acabara de chegar no salão, localizado no mesmo quarteirão do Edifício Andréa. "Lembro de cada momento daquela manhã. Senti uma trepidação grande no solo e logo em seguida ouvi um barulho", relembra. O profissional relata que o som era como o de um contêiner caindo ao chão, só que sem a pancada. Um ruído alto e gradativo, que teria durado de 10 a 15 segundos.

 

Bombeiros encontram a última vítima do edifício Andréa e encerram o trabalho de buscas
Bombeiros encontram a última vítima do edifício Andréa e encerram o trabalho de buscas (Foto: JÚLIO CAESAR)

 

"Quando cheguei na porta do salão, só vi uma enorme fumaça, um homem assustado dando ré para sair da rua e gritos de pessoas que estavam nas imediações", relata. Ainda com avental de trabalho e uma tesoura de cortar cabelos no bolso da vestimenta profissional, Marcello saiu acompanhado do cliente em direção ao prédio. A rua começava a encher de outras pessoas, também atônitas. "Era como uma cena de filme de terror".

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"Foi tudo muito rápido, mas o primeiro sentimento que tive foi que alguém poderia estar com um problema e eu precisava ajudar. Até a queda de um avião passou pela minha cabeça. Quem eu via na rua, avisava para ir até o salão no intuito de se proteger. Pensei que poderia estar na iminência de uma explosão", continua. "Quando percebi, eu já estava em cima do portão de alumínio do Andréa".

Marcello Rodrigues relata que encontrou o porteiro do prédio, Francisco Rodrigues Alves, de 59 anos, com um grupo de pessoas que o ajudaram a sair dali. Ensanguentado, Francisco Alves havia sido sacado para fora do local. Naquele momento, vários vizinhos já subiam nos escombros do Andréa em busca de encontrar alguém com vida. "Ouvi gritos de pessoas soterradas e me vieram à mente os vizinhos que via quando passava com o cachorro. Foi aí que meu limite humano chegou e não consegui fazer mais nada", diz Marcello. 

Dentre as memórias, ficou "o barulho dos escombros se encaixando" e a necessidade de buscar um refúgio fora dali: "Acordava de madrugada ouvindo as máquinas e bombeiros conversando, chorando". Outra imagem marcante são as pessoas que chegavam no local do acidente registrando vídeos no celular. "Uma coisa Black Mirror", referencia Marcello.

Passado um ano, vivendo em outro bairro e após meses de terapia, o cabelereiro ainda trabalha no mesmo lugar, mas confessa não ter coragem de passar pela calçada do prédio a pé como antes. "A sensação que tenho é que eu poderia ter ajudado mais gente. Existe muita dor naquele lugar".

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Após os bombeiros retirarem o último corpo dos escombros, começa o trabalho da perícia de engenharia no local da tragédia
Após os bombeiros retirarem o último corpo dos escombros, começa o trabalho da perícia de engenharia no local da tragédia (Foto: JÚLIO CAESAR)

Uma chance para recomeçar

Dez minutos foi o tempo necessário para o seu Clotário Sousa Nogueira e a dona Ana Maria Ramos Nogueira estarem fora do Edifício Andréa quando ele desabou. O casal vivia na cobertura duplex, comprada há quase 40 anos. Com eles moravam a filha do casal, o marido dela e a neta. Ninguém estava em casa no momento da tragédia.

Dona Maria não queria sair de casa, mas precisou acompanhar o esposo no banco devido a biometria. Chegando lá, um funcionário do sítio da família ligou para o celular dele. O assunto era "para saber se algo havia acontecido", mas o morador do Andréa ainda não sabia da tragédia. "Tá aqui na internet que seu prédio caiu. Aqui tá todo mundo chorando", narra, Clotário, as palavras do trabalhador. Objetivo, o aposentado respondeu: "Pois diga aí que ninguém precisa chorar porque não aconteceu nada com a gente. Estamos bem".

Dois meses antes do acidente, a sequência de rachaduras nas colunas, motivadas por reforma no prédio anos antes, havia sido discutida em reunião de condomínio. Depois da reunião, a taxa R$ 350 - o valor do condomínio era R$ 1 mil - foi incluída para os moradores.

Passado o choque inicial, o casal, juntos há mais de cinco décadas, logo foi para outro apartamento da família, no bairro São João do Tauape. "Nos mudamos temporariamente, e hoje até já estamos em outro apartamento", conta. "Nós perdemos tudo. Tive que comprar tudo novo, mobiliar. Fomos para um apartamento e nossa filha para outro. Dessa vez, nos separamos".

Esta foi a segunda vez que o seu Clotário Nogueira viveu para contar a história. Ele já havia sofrido um acidente de carro. "Sempre fui uma pessoa muito equilibrada. Sofri pouco, graças a Deus, apesar do prejuízo grande. Deu pra suportar", continua. "Senti muito porque o meu apartamento tinha seguro, mas só cobria incêndio. Não tinha cobertura para desabamento. Não recebi nada e nosso advogado está vendo, mas é difícil".

Buscas

Equipes do Corpo de Bombeiros trabalharam noite e dia nas buscas, o que motivou uma onda de apoio popular tamanha que, dois dias depois da tragédia, as contribuições geraram "dificuldade de gerenciar" os produtos. O Corpo de Bombeiros Militar do Ceará chegou a se pronunciar oficialmente para que novas contribuições fossem feitas apenas caso solicitado. Além disso, uma equipe de voluntários trabalhou no local, coordenados pelo Corpo de Bombeiros.

Decisão da Justiça

Sete pessoas que estavam no prédio ou foram vítimas diretas do incidente sobreviveram e nove morreram. Os bombeiros trabalharam sem parar nas buscas até a noite do dia 19 de outubro, quando o último corpo, da síndica Maria das Graças Rodrigues, 53, foi resgatado. Em janeiro deste ano, os engenheiros José Andreson Gonzaga dos Santos e Carlos Alberto Loss de Oliveira e o pedreiro Amauri Pereira de Souza foram indiciados por provocar desabamento de construção. O advogado Brenno Almeida diz que os profissionais estão "tentando se reerguer e se reestabelecer no mercado de trabalho".

Agora, o processo está em grau de recurso no Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), impetrado no último dia 29 de julho pela defesa dos indiciados. Ação do advogado Brenno Almeida pela desclassificação do crime segue parecer do Ministério Público do Estado (MPCE), que não ofereceu denúncia contra os engenheiros e o pedreiro e pediu que os autos fossem distribuídos a uma das Varas do Júri da Capital.

O TJCE informa que vai apreciar o "improvimento do recurso" pedido pelo Ministério Público no último dia 17 de setembro. Só depois, o processo deverá seguir para a competência do Tribunal do Júri e distribuído para uma das Varas de Fortaleza. "Os autos estão tendo tramitação regular no Judiciário e, em apenas seis meses (pois o oferecimento do parecer do MPCE que pediu o declínio da ação ao Júri Popular, foi feito em março deste ano), já teve várias movimentações, obedecendo sempre os prazos processuais e os procedimentos necessários".

 

Pintura no muro do prédio após seis meses do desabamento do edifício Andrea
Pintura no muro do prédio após seis meses do desabamento do edifício Andrea (Foto: Fabio Lima/O POVO)

 

O caminho do processo

20 de julho: a juíza Marileda Frota Angelim Timbó, da 14ª Vara Criminal, determinou que os envolvidos no caso fossem julgados por homicídio e solicitou a mudança do caso para uma Vara Criminal.

29 de julho: a defesa dos indiciados ingressou com recurso contra a decisão.

4 de agosto: a 14ª Vara proferiu despacho abrindo vistas ao Ministério Público (promotoria) para apresentar contrarrazões ao recurso.

12 de agosto: MPCE apresenta contrarrazões ao recurso.

18 de agosto: a 14ª Vara Criminal manteve os fundamentos da decisão que declinou a competência da ação e determinou a remessa dos autos ao Tribunal de Justiça para apreciação do recurso.

17 de setembro: MPCE se pronunciou pelo improvimento do recurso, que deverá ser apreciado pelo Colegiado da 1ª Câmara Criminal do TJCE. 

 

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