PUBLICIDADE
Fortaleza
NOTÍCIA

Notícias falsas ganham visibilidade na pandemia e impactam no trabalho da Polícia

As redes sociais, sobretudo o Whatsapp, ajudam a disseminar notícias falsas de arrombamentos, roubos ou de arrastões e acabam interferindo nos trabalhos das forças de segurança. As polícias Civil e Militar deslocam agentes e utilizam setores da inteligência para apurar crimes que existiram somente na internet e na imaginação das pessoas

13:45 | 18/05/2020
Ciclo de Conferência Cidadã  (Academia Estadual de Segurança Pública - AESP)
Na foto: César Barreira, diretor geral da Academia de Segurança do Ceará
Foto: Dora Moreira, em 18/07/2011 *** Local Caption *** Publicada em 17/04/2013 - ES 08
Ciclo de Conferência Cidadã (Academia Estadual de Segurança Pública - AESP) Na foto: César Barreira, diretor geral da Academia de Segurança do Ceará Foto: Dora Moreira, em 18/07/2011 *** Local Caption *** Publicada em 17/04/2013 - ES 08 (Foto: DORA MOREIRA)

O fato não é novo. Nos antigos telefones públicos, popularmente conhecidos como “orelhões”, era possível fazer o registro para o 190, número da Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), de crimes que existiam somente na imaginação. As forças de segurança, Polícia Militar ou Civil, deslocavam agentes para os locais ou usavam a inteligência especializada para desvendar as tais ocorrência. Gastava-se dinheiro público e tempo para apurações que sequer existiam. E, com a pandemia do novo coronavírus, registros de arrastões, de roubos e outros crimes ganham pela rede social Whatsapp um poder muito maior de difusão, o que tem preocupado os órgãos de segurança.

“O que pode acontecer é ocupar o tempo de trabalho da Polícia na apuração de fake news e, assim, atrapalhar a população, pois a Polícia poderia estar verificando outros casos verdadeiros”, informa o delegado Julius Bernardo, da Célula de Inteligência Cibernética, do Departamento de Inteligência Policial, da Polícia Civil do Ceará. Casos de fake news, como o do assalto a uma loja de materiais de construção, no Papicu, ou a de uma sorveteria na Aldeota ganharam a rede social nesta semana e na semana passada, em grupos do Whatsapp. Segundo o delegado, o trabalho é feito verificando toda a informação recebida, independente da fonte.

Se a informação é confirmada como sendo verdadeira e se tratar de um crime, se instaura um inquérito policial para ser investigado. “Não se instaura um inquérito policial baseado em boatos”, aponta ele, mas perde-se o tempo e dinheiro público com o trabalho de verificação e de investigação. A comunicação falsa de crimes pode gerar detenção de até seis meses e multa, como prevê o artigo 340 do Código Penal. Em muitas das informações falsas que circulam nas redes sociais faltam de dados concretos. Na maioria das vezes, são retiradas totalmente do contexto. “Ou seja, é o ‘disse-me-disse’, é o ‘ouvi falar’, ‘me disseram’”, lembra o delegado.

Ele acrescenta que muitas pessoas mal intencionadas resgatam fotos e vídeos antigos, que foram feitos em outros locais e circunstâncias, e dão um novo contexto com o intuito de causar pânico e amedrontar a população. “Dos casos que circularam na semana passada afirmando que em uma única noite diversas lojas na Aldeota teriam sido arrombadas, a Polícia Civil investiga dois casos: um furto a uma oficina no bairro Papicu e uma loja de móveis no Dionísio Torres. As próprias lojas envolvidas nas notícias falsas negaram os crimes aos seus clientes em notas publicadas nas redes sociais”, alerta o delegado.

Existe uma falsa impressão que aquilo que se faz em ambiente virtual fica no anonimato. “A Polícia Civil do Ceará já demonstrou que dispõe de profissionais capacitados e mecanismos para identificar crimes cujos autores acreditam que nunca serão descobertos e ficarão impunes”, alerta Bernardo. A Polícia Civil alerta à população que não divulgue relatos e boatos que recebam em redes sociais, nem produzam qualquer conteúdo com informações falsas. Essas condutas podem ser caracterizadas como contravenções penais e crimes previstos na legislação penal, com penas de detenção e multa.

Professor doutor do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), ligado ao curso de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Barreira defende que a propagação das fake news gera um deslocamento de grupos de policiais, uso de viaturas e de combustível. Em alguns casos, ainda segundo o professor, pode explicar uma lógica de tentativa de desvio de atenção dos policiais para outros casos. “Ocupar as viaturas e os agente como também a possibilidade de estar desviando da principal atenção. Isso termina sendo uma ação muito recorrente, de terem menor possibilidade de serem presos”, frisa.

Um outro aspecto fundamental de ser destacado é, ainda segundo o professor, que a divulgação de notícias falsas pode levar a uma certa desmoralização da polícia. Os pesquisadores da segurança sempre trabalharam com o fato de as notícias falsas gerarem um problema muito sério e constante para os órgãos de segurança. Com o poder gerado pela Internet, sobretudo com a popularização do Whatsapp ganhou proporções inimagináveis. A capacidade de divulgação das redes sociais, para o professor, atinge patamares que nunca poderiam ser atingidos com via telefonema, como acontecia a comunicação de notícias falsas antigamente.

É uma certa tentativa de demonstração de quebra de poder. Não tem muita racionalidade na ação. “As redes sociais terminam com a possibilidade de difamar, levantar um falso, imputar, culpar pessoas”, diz. Outro problema gerado por essas notícias é o de elas extrapolarem as redes e renderem uma punição também no campo do real. O professor lembra de um caso ocorrido em 2014, na cidade de Guarujá, litoral de São Paulo, de uma mulher de 33 anos que foi espancada até a morte um boato gerado por uma página em uma rede social que afirmava que a dona de casa sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra. A notícia era falsa.