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LARINGE ELETRÔNICA

Após retirada de cordas vocais, pacientes recebem aparelho que auxilia na recuperação da fala

Pelo menos 350 pessoas espalhadas pelo Brasil receberam o aparelho distribuído por associações de Santa Catarina vinculadas ao SUS

22:14 | 20/02/2019
Raimundo Napoleão Abreu, 62, faz o teste da laringe eletrônica pela primeira vez com ajuda de fonoaudiólogo (Foto: Fábio Lima/O POVO)
Raimundo Napoleão Abreu, 62, faz o teste da laringe eletrônica pela primeira vez com ajuda de fonoaudiólogo (Foto: Fábio Lima/O POVO)

Quando teve câncer na garganta há um ano, o aposentado Raimundo Napoleão Abreu, 62, teve de fazer a retirada das cordas vocais, procedimento conhecido como laringectomia total. Após meses com a comunicação prejudicada, ele foi contemplado com a entrega de aparelhos que podem ajudar na recuperação de sua voz. A laringe eletrônica foi distribuída nesta quarta-feira, 20, pela Associação Nossa Casa de Apoio a Pessoas com Câncer para 14 pacientes que passaram pelo mesmo procedimento.

“Quando ele soube que ia receber, chorou de emoção. Não tem sido fácil se adaptar. Ele sempre tinha que repetir várias vezes [o que falou] quando a gente não entendia”, relata o filho do paciente, Napoleão Cordeiro de Abreu, 39. Os dois viajaram de Graça, cidade da microrregião de Sobral, a 320 km de Fortaleza, para pegar a laringe eletrônica. Além de ganhar o aparelho, os pacientes tiveram uma explicação de como usar o dispositivo.

De acordo com o fonoaudiólogo Jorge Moreira, cerca de 350 pessoas devem receber o aparelho no Brasil. No Ceará, dois hospitais foram contemplados: o Centro Regional Integrado de Oncologia (Crio) e o Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC). A ação é uma parceria da Associação Amor e União Contra o Câncer (Amuc) com a Associação de Câncer de Boca e Garganta, ambas de Santa Catarina. A verba foi cedida pelo Ministério da Saúde em 2018.

“Os pacientes que vão ganhar a laringe eletrônica estão em situação de vulnerabilidade econômica e todos são atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Nem todos tem condições de comprar a laringe eletrônica, que custa em torno de R$ 2 mil”, diz Jorge. Ele explica que foi feito um levantamento no Crio para saber quantas pessoas da Associação Nossa Casa estavam aptas para receber o aparelho. Ninguém ficou em listas de espera.

Verba para os aparelhos foi cedida pelo Ministério da Saúde em 2018 (Fotos: Fábio Lima/O POVO)
Verba para os aparelhos foi cedida pelo Ministério da Saúde em 2018 (Fotos: Fábio Lima/O POVO) (Foto: FABIO LIMA)

Colocando o bastão entre o queixo e o pescoço e apertando um botão, o paciente faz com que a laringe eletrônica emita uma vibração no local onde antes existiam as cordas vocais, induzindo o som robótico a sair com ajuda dos movimentos da língua e dos lábios. “Uma pessoa que retirou as cordas vocais fica sem voz nenhuma, então um artifício desses é de grande uso. Ela volta a se comunicar, ter relações com familiares e amigos, coisas que antes ela tinha perdido”, conta Jorge. O grupo ainda passará por pelo menos duas sessões de fonoaudiologia para se adaptar ao equipamento.

Diferente da maioria, Raimundo Nonato Vieira, 57, ainda consegue falar mesmo após a laringectomia total, há três anos. O aposentado trabalhava como pedreiro e acabava inalando muita poeira no meio das obras, além de ser fumante, aspectos que contribuíram para o câncer. De acordo com ele, a sua fé e boa vontade fizeram com que, mesmo sem as cordas vocais, não perdesse a capacidade de falar. Com a laringe eletrônica, a voz sairá com menos esforço.

A terapeuta ocupacional Patrícia Citó explica que alguns pacientes que recebem o aparelho sentem vergonha e acham feia a voz robótica que sai dele. Por isso, o grupo que se encontra mensalmente na associação terá acompanhamento para perder a vergonha de usar o artifício. “As pessoas que têm câncer de cabeça e pescoço já tendem a se isolar, por sofrer preconceito da sociedade e não conseguir falar. O aparelho ajuda a ter mais interação com o mundo, trabalhando na socialização do paciente”, diz a especialista. Além de sessões de terapia e fonoaudiologia, o grupo se reúne para fazer atividades de socialização, como ir ao cinema ou ao circo.

Alexia Vieira