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Fortaleza
HISTÓRIA

Há 100 anos, epidemia de Gripe Espanhola chegava a Fortaleza

Pior epidemia dos tempos modernos saiu das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, chegou também ao sertão e deixou marcas na arte local

20:22 | 28/09/2018
Ponte Metálica com navio naufragado Mara Hope ao fundo
Ponte Metálica era o porto de Fortaleza por onde chegou a epidemia. (Foto: Rodrigo Carvalho, em 21/3/2015)
Em 28 de setembro de 1918, chegou ao porto de Fortaleza, no local atualmente conhecido como Ponte Metálica, o vapor Ceará. A embarcação pertencente à companhia Lloyd Brasileiro trazia a bordo a temida Gripe Espanhola. Surgida das trincheiras elameadas da Primeira Guerra Mundial, a doença se tornou a maior epidemia dos tempos modernos.
(Foto: Mateus Dantas/O POVO)

A contagem do número de mortos ao longo dos dois anos de propagação vai de 20 milhões às centenas de milhões. A doença chegou ao Brasil naquele mesmo setembro, à bordo do navio Demerara, que passou por Recife (PE), Salvador (BA), Rio de Janeiro, São Paulo, até seguir para Buenos Aires. As zonas portuárias foram logo infectadas. O vapor Ceará chegou a Fortaleza vindo de estados ao sul, trazendo o vírus A H1N1.

Nos meios de comunicação brasileiro, a reação inicial foi de ceticismo. Não haveria de ser o mesmo vírus que assolava a Europa. Mas, o pior se confirmou. E começou a mortandade. Quem tinha condições deixou os centros urbanos em direção ao Interior.

O dramaturgo cearense Carlos Câmara deixou registrado na arte o impacto da pandemia. Ele próprio foi acometido pela doença e narrou em sua peça de estreia, A Bailarina, a chegada do vírus ao sertão. Bailarina foi a forma como batizou a doença.
Visão de hospital militar tomado de doentes nos Estados Unidos
Hospital militar no acampamento Funston, Kansas, em 1918. (Foto: Exército dos Estados Unidos/Fotos Públicas)

"Pois a bailarina, senhores, e como eles. É transformista. Toma os mais variados aspectos, atuando, ao mesmo tempo, de diferentes modos e em órgãos diversos do aparelho humano. Aparece com dores na cabeça, nas cadeiras, nas bochechas, na nuca, em todas as partes do corpo, enfim. Vem quase sempre acompanhada de uma febre, que varia de 80 a 90 graus, abaixo de zero", acrescenta ele. E diz ainda: "(...) a bailarina foi a pior epidemia que já assolou o mundo. Basta saber-se, senhores, que ela fez os fortes ficarem fracos, meteu os fracos no buraco e encheu os hospícios de doido. Tenho dito".

Em novembro daquele ano, houve eleições para senador. As ausências foram tantas que Francisco Sá, genro de Nogueira Accioly e senador pelo Ceará, propôs anular a votação, sem sucesso. "A eleição de senador foi uma eleição sem eleitorado. Tanto vale dizer, não foi uma eleição", disse.
Enfermeiras dos Estados Unidos seguram macas
Enfermeiras voluntárias da Cruz Vermelha em Camp Denves, Massachusetts, Estados Unidos (Foto: The National Archives and Records Administration)
Ondas
 
A Espanhola chegou ao Brasil no que foi a segunda onda da epidemia - a mais severa. Em fevereiro de 1919, começou o terceiro ciclo, que teve resquícios até 1920.

"De repente, passou a gripe", relatou o dramaturgo Nelson Rodrigues. "A peste deixara nos sobreviventes não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte. (...) Logo depois explodiu o Carnaval. E foi um desabamento de usos costumes, valores, pudores".

ÉRICO FIRMO