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Briga na hamburgueria: O que há além da piada

Análise da jornalista Eduarda Talicy

21:41 | 09/01/2018
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Em menos de 24 horas, as repercussões da briga que aconteceu na hamburgueria Porpino, na madrugada da última segunda-feira, 8, viralizaram nas redes sociais e ganharam projeção nacional em torno do ocorrido. Entre a madrugada desta segunda e a manhã desta terça, 9, um vídeo e alguns áudios atribuídos às pessoas envolvidas foram prato feito com garfo e faca para surgimento de uma série de memes, discussões, testes e até campanhas publicitárias.

No entanto, além da piada, temos de um lado as pessoas que anseiam por uma boa narrativa, contada com detalhes e com direito a diversas versões do mesmo fato, e do outro uma sequência de incômodos que envolvem preconceito, machismo, ridicularização e exposição. Há pouca autonomia sobre o sorrir ou não sorrir diante da história. Mas há autonomia na decisão de compartilhar e sobre o que se divulga, pois é na forma como se divulga que percebemos o que se enxerga.

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Enquanto muitas das pessoas lavaram a alma com o que pareceu ser o novo “Varandão”, outras procuraram rapidamente com qual personagem teriam maior identificação e até se solidarizaram com a moça que comeu as benditas batatas. No entanto, saindo do roteiro de curtição de boa história, existem problematizações que devem ser feitas.

Em áudios no WhatsApp duas expressões são usadas repetidamente: “as raparigas” e “as bichinhas”. O tempo todo em tom pejorativo, objetificado e na intenção de reduzir - coisa que por si só não deveria ser redutora. A partir deste pré-julgamento, se decide imediatamente se as mulheres recém-chegadas devem ou não sentar, devem ou não comer. E é justo aí que o caldo engrossa. O disparador da fatídica briga parece ter ocorrido muito menos por uma divisão de batatas fritas ou anéis de cebolas empanados e mais pelo olhar de segregação social, disputa e machismo, em que as pessoas "de bem" não podem se juntar ou dividir o prato com as “raparigas” na hamburgueria que faz filas enormes na Varjota.

Xinga, puxa cabelo, joga o copo na cara, segura o cropped, separa. Mas não acabou. Foi tudo devidamente gravado e compartilhado para as várias versões das pessoas. Parece ser muito engraçado, confortável e pouco problemático ridicularizar a briga entre duas as mulheres. Até uma situação extrema, como a agressão física, neste caso, é diminuída e até banalizada.

Isso não é novo. Vide um vídeo de duas meninas brigando na escola, que também viralizou nas redes sociais em 2015, em que uma delas pergunta: “Acabou, Jéssica?”. Mais uma vez, duas mulheres, e dessa vez adolescentes, e um cenário que se fez mais engraçado do que preocupante.

Como se não bastasse, para achincalhar ainda mais, junto dos áudios que seriam das pessoas envolvidas, foi compartilhado em combo um outro arquivo em que um homem compara o comportamento das moças ao das “raparigas pobres”. Essas, tidas como esfomeadas no imaginário popular, ficariam contentes com qualquer vintém, como um escambo em que se troca comida pelo objeto de desejo. Aí, com tudo isso, o melhor que conseguimos é rir ainda mais.

No fim das contas, além da graça, do meme, da publicidade e do riso, essa viralização fala muito da forma como enxergamos os fatos, o que diminuímos e o que oprimimos. E tudo isso está por trás das coxias de um espetáculo em que protagonizam batatas fritas, onion rings e bolsas da Gucci.

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