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Mais da metade dos filhos presencia agressões contra as mães em Fortaleza, diz pesquisa

Capital é a terceira do NE na qual as vítimas reportaram que os filhos testemunharam pelo menos um episódio de agressão física. Fortaleza ainda é a Capital nordestina com o maior percentual de casos nos quais os filhos também foram agredidos

20:40 | 12/07/2017
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Filhos de 55,14% das mães que sofreram violência doméstica em Fortaleza presenciaram ao menos uma vez episódios de agressões físicas, de acordo com a ''Pesquisa Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher''. A Capital é a terceira do Nordeste na qual as vítimas reportaram que os filhos testemunharam casos, atrás apenas de João Pessoa (64,2%), Aracaju (62,16%) e Maceió (60,23%).

BATE-PRONTO com Maria da Penha sobre violência doméstica em Fortaleza

A amostra quantitativa foi feita pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Institute for Advanced Study in Toulouse e o Instituto Maria da Penha, com apoio do Instituto Avon, que realizou entre os dias 10 e 12 de junho o 2º Workshop Internacional de Acesso à Justiça do Programa “Respostas Eficazes à Violência Contra as Mulheres”, no hotel Luzeiros.

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A exposição dos filhos à violência sofrida pela mãe também é alarmante em relação aos casos nos quais os filhos também foram agredidos. Ao todo, 33% das mulheres em Fortaleza contaram que os filhos foram vítimas diretas das agressões físicas.

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São Luís (MA) possui a menor taxa de exposição dos filhos à violência sofrida pela mãe, tanto em relação aos casos das agressões presenciadas (44,12%), quanto aos casos em que também foram agredidos (13,33%). Em relação à exposição das mulheres na infância à violência doméstica sofrida pela mãe, Fortaleza tem a terceira maior taxa (89%), atrás apenas de Teresina (90,22%), São Luís (90%),

Essa exposição é significante porque, de acordo com o estudo, a violência doméstica pode ser transmitida de uma geração a outra via mecanismos comportamentais. O coordenador mundial da pesquisa, professor José Raimundo Carvalho, ainda destaca que Fortaleza é uma das piores cidades em violência doméstica ao longo da gravidez. "Existem estudos na área médica que dizem que a violência afeta drasticamente a programação uterina, gerando filhos com menor peso, déficit cognitivo, problemas de relacionamento social”, avalia.

O índice de violência doméstica durante a gravidez, em qualquer gestação, é de 6,29% em Fortaleza, inferior ao de Recife (6,63%), Salvador (6,90%) e Natal (11,97%). No caso da gestação mais recente, Fortaleza (60,61%) está atrás de Salvador (61,36%), João Pessoa (61,76%) e Maceió (68%).

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Enfrentamento
A educação e a aplicação da lei são medidas determinantes para o enfrentamento da violência contra a mulher, segundo a ativista Maria da Penha, que participou do Workshop em Fortaleza, na manhã desta quarta-feira, 12. “Toda e qualquer cultura pode ser mudada com investimento em educação, mas se não prender o agressor, a comunidade passa a desacreditar nas leis. Conselhos desses policiais não nos interessam, há muito elas (mulheres) recebem. A lei é boa, mas nós precisamos aplicar mais”, afirma.

Essa foi a terceira edição do evento no Brasil, que já ocorreu neste ano em São Paulo e Brasília. O 1º Workshop Internacional de Acesso à Justiça do Programa “Respostas Eficazes à Violência Contra as Mulheres” foi promovido em 2015, em São Paulo. A ideia é oferecer treinamento a servidores envolvidos com o suporte às mulheres vítimas de violência para que a mulher seja beneficiada com o trabalho em conjunto deles.

"Procuramos uma solução integrada, onde a segurança da vítima seja considerada e, principalmente, a responsabilização do agressor, porque nem sempre isso acontece. Quando nós reunimos um grupo desses, de juízes, de promotores, de defensores, de assistentes e de servidores da Polícia é para que essa resolutividade aconteça na prática”, explica o sociólogo e diretor executivo do Instituto Avon, Lírio Cipriani.

A Vital Voices já realizou o workshop em outros países, como República dos Camarões (com foco em tráfico de pessoas), África do Sul (com foco em violência sexual), e México (com foco em violência doméstica).

Violência
Em termos de violência física ao longo da vida, Fortaleza ficou em 3º lugar no ranking das capitais mais violentas do Nordeste, atrás de Salvador e Natal. Na Capital cearense, 28,6% das mulheres alegaram ter sofrido algum tipo de violência doméstica com incidência considerável, conforme o levantamento.

A pesquisa é um marco tanto pelo tamanho da amostragem - mais de 10 mil mulheres entre 15 e 49 anos entrevistadas- como pela representatividade e abordagem multidisciplinar. O questionário traz perguntas relacionadas à economia, sociologia, saúde pública e direito. “Apesar de ter começado em 2016, traz toda a vida de violência das mulheres. Envolve mulheres que sofreram ou não violência doméstica, independente de onde moram e de nível de instrução”, frisa José Raimundo Carvalho.

Segundo José Raimundo, os índices de violência no Estado poderão agora influenciar a continuidade da pesquisa, pois as mulheres da amostragem participam novamente de entrevistas neste ano. “Fatalmente esse nível de violência no Ceará, esse quase descontrole, refletido em praticamente 2.300 homicídios em apenas seis meses vai refletir no aumento da violência doméstica”, completa.

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