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Após dois anos da lei de feminicídio, mulher é morta a pauladas pelo marido

O crime aconteceu na madrugada de ontem, em Barbalha. O suspeito vai responder por homicídio triplamente qualificado

18:38 | 23/03/2017

Tipificado como crime hediondo há exatos dois anos, o feminicídio fez mais uma vítima no Ceará, na madrugada desta quarta-feira, 22. Ana Iracélia, 38, foi morta a pauladas pelo esposo enquanto dormia. Conforme a investigação, a vítima não queria mais manter a relação e o casal estaria em conflito há pelo menos uma semana. O crime aconteceu no município de Barbalha, na região do Cariri, a 406,24 km de Fortaleza. O acusado do assassinato foi capturado pela Polícia no mesmo dia e vai responder por homicídio triplamente qualificado. As informações são da Delegacia Municipal de Barbalha.

“Olha o que eu fiz”, teria gritado o agressor ao sair do quarto, se dirigindo à irmã e ao filho mais velho de Ana, que se assustaram depois de escutarem o barulho dos golpes desferidos na vítima com um pedaço de pau. De acordo com o titular da delegacia de Barbalha, Juliano Marcula, os relatos das testemunhas indicam que o agressor saiu de casa portando capacete e documentos para fugir de moto, mas foi impedido pelo filho da vítima. O assassino, então, teria fugido a pé e foi encontrado por volta das 16 horas em um bar no centro de Jardim, município vizinho.

Ainda de acordo com a investigação, o crime foi premeditado e teria sido motivado por ciúmes. Segundo Marcula, a família relatou que Ana Iracélia era agredida verbal e fisicamente pelo marido, mas tinha medo de denunciá-lo. O acusado irá responder por homicídio triplamente qualificado, por motivo torpe, impossibilidade de defesa da vítima e feminicídio. O crime tem ainda agravantes por se tratar de violência doméstica e ter ocorrido na presença de descendentes da vítima. Além do homicídio, o acusado também já respondia por estupro.

 

Violência contra a mulher

O teor de crueldade da morte de Ana é próprio dos crimes de feminicídio. “O homem acredita exercer um poder sobre a mulher. Até quando e como ela vai viver e morrer”, comenta a professora do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisadora do Observatório da Violência contra a Mulher (Observem), Hayeska Barroso.

“Reconhecer que o feminicídio não é um crime menos importante foi um grande passo”, comenta a especialista, a respeito da sancionamento da lei do feminicídio, em março de 2015. De acordo com ela, é importante questionar papéis sociais que foram historicamente construídos. “Há uma cultura de que a família é responsabilidade da mulher e que se o casamento não der certo a culpa é dela. Precisamos de mecanismos educativos para desconstruir esse fenômeno estrutural”, explica.

Para Hayeska, o papel de rede de atenção à mulher é importante mas o sistema ainda tem lacunas. “A rede não consegue dar conta da demanda e da natureza da demanda. Ela não consegue antever indícios de que vai acontecer a violência”, detalha.

De acordo com levantamento feito pelo Núcleo de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher (Nudem), da Defensoria Pública do Ceará (DPCE), as mulheres demoram de dois a cinco anos para ter coragem de denunciar. Além do medo de represálias do agressor, umas das principais causas para demorarem a pedir ajuda é a dependência afetiva.

“Apesar de ainda não confiarem na justiça para fazer a denúncia, as leis de proteção — como a lei Maria da Penha — vêm para empoderar. As mulheres estão cada vez mais conhecedoras dos direitos que têm”, avalia a coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nudem) da Defensoria Pública, Jeritza Braga. E conclui, "a violência doméstica é um crime contra a humanidade". 

 Redação O POVO Online 

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