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Convite para uma tarde na Vila das Artes

A cineasta Gláucia Soares, que trabalhou na fundação da Vila das Artes, sendo a primeira coordenadora da Escola de Audiovisual, escreve sobre a importância do projeto em carta ao prefeito Roberto Cláudio (PSB) e ao secretário de Cultura Evaldo Lima (PCdoB)

19:00 | 19/01/2017
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Carta aberta ao Exmo. Sr. Prefeito Roberto Claudio e Sr. Secretário de Cultura Evaldo Lima

 

Essa carta é antes um convite. Um convite para que vocês passem uma tarde na Vila das Artes. É fácil de chegar, fica ali em frente à Praça Clóvis Beviláqua (conhecida também como Praça da Bandeira) bem no centro de Fortaleza. Chegando lá depois do almoço vocês poderão encontrar, além dos funcionários trabalhando, muita gente circulando pelos corredores, salas de aula, bicicletário e entorno. Temos na Vila hoje públicos de todas as idades, oriundos de todos os bairros da cidade. São aulas de cinema, dança, teatro, cultura digital, ensaios, encontros, reuniões, sessões de filmes, debates, instalações, capoeira, exposições. A lista é enorme. A Vila pulsa intensa e viva todos os dias desde a manhã até a noite.


Lá na Vila vocês encontrarão cerca de 200 crianças que cursam uma formação em dança ao longo de 6 anos. Enquanto as aulas acontecem, as mães dessas crianças seguem pelas ruas do Centro filmando e fotografando suas memórias a partir da oferta de um curso de vídeo elaborado para elas por uma ex-aluna da Escola de Audiovisual. Nas salas, os senhores assistirão aulas com professores da Sorbonne, da New York University, da Université du Quebec à Montréal, da Universidade de Lisboa, da UFMG, da USP, da UFF, da Unirio que se deslocam constantemente para Fortaleza para ministrar disciplinas nas escolas de artes que a Vila abriga. Os senhores encontrarão ainda turmas de jovens filmando, grupos de dança ensaiando, pesquisadores desenvolvendo processos de criação em artes, fóruns de diversas linguagens artísticas acontecendo, entre outras atividades.

 

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Entorno das 18 horas, vocês encontrarão outras turmas de alunos do Programa Pontos de Corte: Formação de Agentes Culturais, Cineclubistas e Exibidores Independentes, testando a projeção de filmes nos muros do estacionamento localizado ao lado da Vila. Encontrarão pessoas pesquisando na biblioteca, assistindo filmes na videoteca, artistas montando esculturas sonoras na calçada, cineastas editando filmes na ilha de edição e outros retirando equipamentos do Núcleo de Produção Digital (NPD) garantindo acesso aos meios de produção àqueles que de outra forma não teriam como realizar seus filmes. Assistirão a uma sessão de filmes de um dos cineclubes organizados pelos alunos dos cursos de realização ou às mostras do Programa Telas Abertas. Visitarão também o auditório lotado para debates com pensadores, pesquisadores, professores, artistas reunidos entorno de reflexões sobre a arte, a cultura e o mundo.

 

Mas uma tarde nessa pequena casa da Vila das Artes ainda é muito pouco para dizer dela porque tudo que acontece lá tem reverberado pela cidade, pelo País e pelo mundo. Saindo da Vila, ainda no Centro, vocês vão encontrar alunos em deriva pelas ruas da cidade para dela se alimentar e fazer cinema. Seguindo para outros bairros da cidade vocês encontrarão sessões de cinema à beira da Lagoa de Messejana, nos postos de saúde do Conjunto Ceará ou no CAPS Lagoa do Opaia, cineclubes organizados por alunos do Pontos de Corte. Na próxima Mostra de Cinema de Tiradentes (MG) um aluno do curso de Realização apresentará um filme produzido durante o curso, entre tantos outros ex-alunos que tem exibido seus trabalhos em festivais nacionais e internacionais. Visitando cidades como Washington ou Montreal é possível encontrar pelas ruas murais com pinturas gigantescas feitas por outro ex-aluno formado pela Vila.

 

Tudo isso vem acontecendo há dez anos em Fortaleza especialmente porque a Vila das Artes não foi sonhada por um prefeito ou por um secretário de cultura somente, ela foi gestada por centenas de artistas e produtores culturais nos fóruns e associações artísticas durante anos e tem marcado profundamente a cena cultural da cidade. Ela foi conquistada na luta dos alunos de cinema e de artistas de toda a cidade que ocuparam a casa das escolas em fevereiro de 2007, exigindo que as obras de reforma e adaptação fossem concluídas. Ela foi acolhida e construída em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), que hoje certifica os cursos das Escolas e toma parte nas questões pedagógicas. Ela foi definitivamente apropriada pela população dos quatro cantos da cidade, que hoje circula diariamente por lá fruindo arte, se inscrevendo nas seleções disputadíssimas dos cursos e participando ativamente das ações de formação de altíssima qualidade que a Vila oferece gratuitamente em Fortaleza e que não é possível encontrar em nenhum outro espaço da cidade. Inclusive, as formações em cinema e dança da Vila das Artes de Fortaleza são hoje referência para todo o País.

 

Por tudo isso nós que sonhamos e criamos a Vila, nós que nos formamos dentro dela, nós que ministramos aulas, nós que utilizamos todos os dias os seus espaços, lhes convidamos a passar uma tarde na Vila para que vocês, que nunca sequer pisaram lá, se encontrem com um pouco do que acontece na arte e na cultura de Fortaleza. Para lhes dizer que não demos a vocês o direito de matar a Vila das Artes.

 

Nós queremos a VILA VIVA. E não queremos só que os funcionários sejam recontratados e que as atividades que existem sejam mantidas. Queremos que as outras casas também funcionem para as atividades previstas e cujos projetos de reforma e restauro estão prontos há nove anos aguardando recursos e boa vontade dos gestores da cultura. Queremos que a casa do Barão seja restaurada e cumpra finalmente seu papel de abrigar o Centro de Artes Visuais, a Biblioteca, a Videoteca e os espaços expositivos. Queremos que nunca mais a Casa do Barão seja “cedida” para fins comerciais (como eventos de decoração) pois, não aceitamos que nenhum espaço da Vila seja privatizado, e sabemos que esse tipo de uso não condiz em nada com as finalidades culturais que justificaram a sua desapropriação. Queremos que o senhor secretário de Cultura Evaldo Lima lute por um orçamento de no mínimo 2% para a cultura. Queremos que o prefeito Roberto Cláudio respeite a população da cidade que lhe confiou o seu voto garantindo a ela seus direitos culturais. Esperamos os senhores para uma tarde na Vila das Artes, esse lugar de invenção que já ultrapassou a Praça da Bandeira e reverbera cada dia mais pela cidade e pelo mundo.

 

Gláucia Soares, cineasta, artista, produtora cultural, ex-coordenadora e atual membro do Conselho da Escola Pública de Audiovisual da Vila das Artes.

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