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Estudantes criticam investigação e denunciam perseguição após ocupações

Cerca de 320 alunos foram intimados pela Polícia Civil após denúncia criminal da Secretaria da Educação do Ceará

14:54 | 24/08/2016
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"Fico preocupado, angustiado, não tenho dormido como antes. Fico acordando. Começam a chegar notícias ruins de outros colegas. Alguns choram com a pressão". Este é o relato de um estudante de 17 anos sobre as intimações da Polícia Civil a cerca de 320 alunos, devido às ocupações das escolas estaduais da rede pública de ensino entre os meses de abril e agosto deste ano.

[SAIBAMAIS3]O jovem, que preferiu não ser identificado, também recebeu intimação para comparecer à Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), responsável pela investigação iniciada a partir de uma denúncia criminal feita pela Secretaria da Educação do Ceará (Seduc). A pasta afirma que houve "avarias" na estrutura física dos prédios e sumiço de equipamentos em escolas ocupadas.

Para o garoto de 17 anos, a investigação é uma forma de colocar medo nos estudantes. "A gente vem caminhando num trajeto legal e chega nesse ponto, de estudante, que luta por seus direitos, tendo que ir depor. Os meninos da minha escola estão apreensivos. Uma menina, que tem os pais conservadores, me disse que os pais estavam falando horrores. Ela me ligou muita apreensiva, com medo do que vai acontecer", comentou ele.

Uma estudante do Adauto Bezerra, que também não quis se identificar, acredita que as intimações aos estudantes são uma forma de criminalizar o movimento. "O Estado quer mostrar que não temos direitos de nos expressar, a liberdade de lutar".

Caráter político
Estudantes que prestaram esclarecimentos na DCA contam que responderam a perguntas sem correlação com a apuração de um possível ato infracional durante as ocupações. Segundo o aluno do colégio Adauto Bezerra, Mesaque Cavalcante, 18 anos, a avaliação do movimento estudantil é de que a investigação tem um caráter político.

"Procuram possíveis líderes nas ocupações, possíveis organizações. Colegas que já foram depor disseram que são perguntas voltadas para a área política, se você é anarquista, feminista", relatou Mesaque.

Ele afirma que houve mudança no comportamento do Governo após as desocupações. De acordo com Mesaque, a Seduc teve uma relação tranquila durante o período de ocupação. "A Secretaria disse que não envolveria a Polícia na greve. De fato, não houve. Mas, após o fim, vem com essa perseguição aos estudantes. É uma retaliação", disse.

Seduc
Em nota enviada ao O POVO Online, a Seduc ressaltou que durante toda a negociação e resolução da greve manteve uma conduta de diálogo. A pasta informou que pretende continuar com a mesma postura e que o principal objetivo da medida adotada foi preservar o patrimônio público e a integridade das pessoas envolvidas.

Veja abaixo a nota na íntegra:
"A Secretaria da Educação (Seduc) recebeu ofício do Ministério Público do Estado (MPCE) solicitando que fossem feitas vistorias nos prédios das escolas que estiveram ocupadas, com o propósito de constatar possíveis danos ao patrimônio público. A partir da solicitação do órgão, a Seduc visitou as unidades de ensino, constatando avarias na estrutura física e sumiço de equipamentos em algumas das escolas, tais como computadores, projetores e outros bens tombados como patrimônio público. Por isso, os gestores tiveram que informar acerca das perdas, pois é necessário justificar ao controle de tombamento o desaparecimento dos referidos aparelhos.

Ressaltamos que, no início da greve, eram 64 escolas ocupadas e toda a negociação e resolução foram baseadas no diálogo. Para isso, a Seduc estruturou um grupo de mediação que ouviu os estudantes. Diferente do que ocorreu em outros Estados cujas escolas foram ocupadas. Além disso, a maioria das reivindicações dos estudantes foi atendida. A Seduc também pretende estruturar uma representatividade de estudantes para continuar o diálogo que reconhece como benéfico para a rede e melhoria da qualidade da educação.

A Secretaria ressalta ainda que o procedimento adotado teve como finalidade o zelo com o patrimônio público e pela preservação da integridade das pessoas envolvidas."
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