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Apesar de momentos de tensão, rolezinhos contra e a favor de Bolsonaro terminam sem confronto

Grupos contrários e a favor de Bolsonaro ocuparam lados distintos das calçadas da avenida 13 de Maio e foram separados por uma barreira da PM. Atos foram marcados nas redes sociais após episódio envolvendo aluno com camisa do deputado

22:30 | 13/05/2016
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Manifestantes contra e a favor do deputado federal Jair Bolsonaro fizeram protestos simultâneos no Campus do Benfica da Universidade Federal do Ceará (UFC), nesta sexta-feira, 13, em Fortaleza. Os grupos trocaram provocações em duas concentrações na avenida 13 de Maio, mas foram separados pela Polícia Militar.

Os atos foram marcados nas redes sociais após tumulto no Centro de Humanidade II da UFC, na última segunda-feira, 9, quando o estudante de Letras, Jorge Fontenele, apareceu vestindo uma camisa do deputado Bolsonaro. O ''Rolezinho do Bolsonaro'' começou em frente ao shopping Benfica, por volta das 16 horas, com o objetivo de repudiar o que aconteceu com o aluno e a favor do deputado federal. Já o  ''Rolezinho da Inês Brasil na UFC" e o "Rolezinho da Gratidão" iniciaram no CH II, com um debate sobre a democracia.

Os grupos contrários e a favor de Bolsonaro ocuparam lados distintos das calçadas da 13 de Maio, por volta das 17h30min, e a Polícia Militar fez uma barreira entre eles para evitar confrontos. Do lado do Bolsonaro, os manifestantes cantaram o hino nacional, bateram continência e gritaram o nome de Bolsonaro e de Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, um dos órgãos atuantes na repressão política durante o Regime Militar.

%2b Confira a galeria de fotos dos protestos contra e a favor de Bolsonaro

O grupo contrário ao deputado entoava frases como “Fascistas não passarão”, “O povo na rua, fascista recua” e “Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser”. Eles chegaram a bloquear o acesso dos carros, mas foram afastados pela PM, o que também gerou protesto contra os policiais. Em um momento, um homem chegou a puxar um faixa do grupo a favor de Bolsonaro, e a PM utilizou balas de efeito moral para conter confusão. 

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"Eles estavam se digladiando, a nossa arma não é letal e foi para evitar o enfrentamento, se não eles iam se matar", disse o coronel Lima, da 2ª Cia. do 5º Batalhão de Polícia Militar (BPM). A PM estimou que cerca de 100 pessoas participaram do ato a favor de Bolsonaro e de Jorge Fontenele, enquanto a estimativa era de que mais de 300 pessoas protestaram do lado contrário. A organização do “Rolezinho do Bolsonaro” apontou que eram 250 pessoas, e o grupo do ''Rolezinho da Inês Brasil'' e ''Rolezinho da Gratidão'' não deu estimativa.

Segundo o empresário João Luiz, o intuito foi prestar apoio ao policial e aluno, Jorge Fontenele. "Ele foi praticamente expulso da universidade por ter expressado opinião própria. A gente veio prestar respeito, não usamos a violência em momento algum, e nem vamos usar", disse. A manifestação a favor do deputado federal se dispersou por volta das 19 horas, sob vaias de “arregou” do grupo contrário. Neste momento, os manifestantes contrários a Bolsonaro ocuparam todas as faixas da avenida da Universidade.
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A estudante do 4º semestre de Publicidade e Propaganda, Kaliana Medeiros, 20 anos, afirma que o protesto contra Bolsonaro também era em defesa das minorias. "Um defensor de um racista e homofóbico é uma figura que não pode caber dentro da universidade pública. Esse movimento na rua é fundamental, principalmente no momento atual político em que a gente vive a extinção de ministérios tão importantes. A gente está vendo um retrocesso, se a gente der margem para isso o Brasil vai ruir de vez", avalia.

O Comando Tático Motorizado (Cotam), do Batalhão de Choque, fez uma barreira na avenida da Universidade, mas não houve confronto com os manifestantes. Uma equipe da Autarquia de Trânsito, Serviços Públicos e Cidadania (AMC) chegou ao local por volta das 18h40min, e duas faixas de carros foram liberadas na avenida da Universidade. A via foi totalmente liberada por volta das 19h40min, quando os manifestantes se dispersaram.
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Confronto de ideias

Estudante do 5º semestre de Economia, João Victor Escóssio, 23 anos, participou do protesto contra Bolsonaro. Ele criticou Jorge

Fontenele por ter aparecido com a camisa do deputado na UFC porque vários universitários morreram durante o Regime Militar: 

"A gente não vai aceitar esse tipo de ato na UFC, que é um pilar da nossa democracia, uma unidade de resistência. A galera está aqui para poder falar 'não vai ter fascista', a gente não vai permitir calado isso. Agora, a gente vê uma ideia conservadora crescer no País, um pensamento que não dá direito para gays, para os negros. O discurso da opressão está cada vez mais evidente, cada vez mais firme. A juventude tem que ir para a rua impedir isso. Um sintoma disso é o governo Temer, um ministério que tem 22 ministros homens, heterossexuais e brancos. O Brasil é um país cheio de “S”, mulheres, raças, homens, juventudes, e a gente vê um Ministério singular, sem “S” nenhum, e isso é muito triste”.

Promotora de eventos, Yra Noronha, 29 anos, explica que participa de movimentos de direita, mora no Benfica, e veio ao protesto manifestar seu apoio ao aluno de Letras e ao deputado Jair Bolsonaro. Ela diz que deve haver tolerância, mas a "parte que mais pede tolerância foi a mais hostil e fascista". Também afirma que é a favor ao Regime Militar de 1964, embora nem todos os manifestantes de seu grupo sejam: 

“Mandam a gente estudar, mas quem deveria estudar são eles, porque o fascismo era acertado com a esquerda. Nós não somos vagabundos, nós não somos moleques, nós estamos aqui para protestar de forma ordeira, nos não vamos nos igualar. O Regime Militar foi um contra-golpe, o comunismo estava sendo instaurado no Brasil, infelizmente não foi freado nas universidades, é por isso que estamos vendo esse câncer todo aqui. Como dizia meu avô, no tempo do Regime, só passava mal comunista e vagabundo. Estou sendo até muito redundante porque comunista e vagabundo é tudo a mesma coisa, era assim que ele falava. Se eu vivesse naquela época, eu não teria passado sufoco porque eu não estaria explodindo banco, explodindo quartel, sequestrando diplomata, matando soldado do Exército, eu estaria trabalhando naquele exato momento em que eles estavam implantando o caos no País''.

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Aluno vestido com camisa do Bolsonaro

O tumulto envolvendo Jorge Fontenele aconteceu na tarde de segunda-feira, 9, quando estudantes protestaram contra a presença dele e de suas ideias conservadoras, no Campus da UFC. Ele vestia uma camisa de Bolsonaro e, segundo estudantes, teria provocado pessoas  e agredido uma universitária durante o ato.

Um casal de amigas do aluno refutou a versão apresentada pelos manifestantes do CH e defendeu que ele não provocou ninguém. "Uma aluna chamou ele de babaca, estuprador, vagabundo. Eu sou contra o Bolsonaro no poder, mas isso não justifica a violência e a arbitrariedade", afirma a fisioterapeuta Marcela Cavalcante, 30 anos.

Aluna de economia, Ana Cecília, 21 anos, que é esposa de Marcela, disse que apesar do deputado federal ser contrário aos direitos  dos homossexuais, Jorge Alan nunca lhe desrespeitou. "Eu sei que você vestir a camisa de um político faz parecer que você apóia de 'cabo a rabo' tudo que ele diz, mas há coisas que o Bolsonaro defende que o Jorge não defende. Para ele, o Bolsonaro seria, no cenário político atual, um administrador melhor", explica.

Uma estudante de Letras, que preferiu não se identificar, afirma que o curso tradicionalmente defente o debate contra a opressão e o machismo e, por isso, a presença de Jorge Fontenele representava uma afronta ao feminismo e à causa LGBT. 

Ustra, um dos nomes citados pelos manifestantes pró-Bolsonaro, foi responsável por 47 sequestros e homicídios de militantes contrários ao Regime, de acordo com o relatório Direito à Memória e à Verdade, e 502 desaparecimentos de políticos, segundo o levantamento do projeto Brasil Nunca Mais. O coronel morreu em outubro de 2015 aos 83 anos, vítima de câncer.

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