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Famílias perdem quase tudo em alagamentos provocados pelas chuvas

Famílias inteiras saíram de suas casas às pressas durante as chuvas contínuas registradas na semana passada. Passado o susto, comunidades dos bairros Boa Vista e Dunas tentam reconstruir a vida em abrigo ou nos barracos ainda alagados

19:20 | 04/04/2016
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"A água foi subindo, subindo, e não pude fazer mais nada, não tenho pra onde ir". Aos 62 anos, Antônia da Silva do Nascimento, conhecida como "Dona Toinha", sai da rede pendurada no barraco às margens de um rio e caminha dentro da água que bate no joelho. Pela primeira vez, os moradores da comunidade do Gengibre, nas Dunas, vivem o drama de perder tudo. É que as chuvas contínuas registradas nos últimos quatro dias fizeram o rio encher, e os barracos como o da dona de casa foram completamente inundados.

A porta de casa foi obstruída com a força da água e, para mostrar os poucos pertences salvos, Dona Toinha precisa sair de uma pequena lateral improvisada de madeira e arame farpado. "Eu moro aqui há quatro anos e nunca vi isso, a geladeira e o fogão não prestam, agora só a televisão. Eu armei a rede bem alto para poder dormir", conta ela.
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Segundo os moradores, são cerca de 200 barracos construídos às margens do rio do Gengibre, que há anos estava seco. Os alagamentos começaram na última quinta, mas o ''corre corre'' maior foi na madrugada de sábado, quando alguns moradores atravessaram roupas e eletrodomésticos para o outro lado do rio.

%2b Problemas de urbanização e drenagem são as principais causas de alagamentos em Fortaleza

"A água subiu muito, aí fizemos aquela força, todo mundo indo para casa de familiares e amigos. A gente tentando levar as criancinhas de madrugada", conta o autônomo Marcos Antônio da Silva, 48 anos. Para ele, todo mundo só "saiu em paz" por causa de Deus. A Defesa Civil foi chamada, mas até a tarde desta segunda-feira, 4, não chegou.

Algumas pessoas, como a atendente Aline Moreira da Silva, 23 anos, ainda conseguiram se mudar provisoriamente. Ela e o marido alugaram uma casa do outro lado do rio por R$ 400. "No dia a gente pagou R$ 30 reais para uma carroça levar nossa geladeira e fogão pro outro lado, como ele conseguiu eu não sei. Por enquanto não tem como voltar, mas é o que eu quero", diz ela.

O presidente da Associação dos Moradores do Gengibre, Manuel Garcia - o "Gereba", 42 anos, admite que os barracos foram construídos em área de risco, mas cobra providências da Prefeitura. "Nem a Defesa Civil veio, a maior culpada é a Prefeitura. Fora o risco de morrer alguém eletrocutado? Porque a maioria tá lá e ligando luzes", critica.

Os quatro dias de chuva forte, além de inundar e danificar objetos, trouxeram lixo para dentro dos barracos de madeira e papelão. Eram garrafas de plástico e de vidro, roupas infantis, matagal e até baratas boiando na água lamacenta por onde passavam crianças e idosos.

Na tarde desta segunda-feira, 4, os moradores comentavam o aperreio para salvar os objetos de valor e o medo das doenças. "Tá todo mundo com frieira e micose, se coçando. A gente fica preocupada com nossas coisinhas, sabe? Tão difícil de comprar e depois vê boiando", lamenta a doméstica Marinalva Benedita, 41 anos, natural de Exu.
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As roupas que não ficaram molhadas ainda acumulam o mofo da umidade pós-chuva, explica Rosa Carneiro, 35 anos, que trabalha com reciclagem. "Eu acordei e só salvei mesmo TV e ventilador. Vim correndo para casa de um vizinho com meu filho de 8 anos", lembra.

O POVO Online procurou Defesa Civil, que informou que uma equipe do Núcleo de Ação Emergencial do órgão foi enviada no sábado, mas a quantidade de água impediu a entrada do veículo deles. Uma equipe responsável pelas Operações Preventivas será enviada nesta terça-feira, 5, para adotar os procedimentos cabíveis, informa o órgão.

A Secretaria da Regional II informou que, por enquanto, não há nenhum projeto de requalificação previsto para a área. "As famílias vão ser atendidas pela Defesa Civil e podem participar dos sorteios do MCMV", completa a assessoria de imprensa da secretaria.

Famílias desabrigadas
De quinta-feira, 31, até domingo, 3, a Defesa Civil registrou 350 ocorrências na capital, entre alagamentos, riscos de desabamento e riscos de deslizamento. Mais de 70 pessoas da comunidade Boa Vista foram abrigadas na escola municipal Odilon Braveza e, depois, transferidas para um prédio do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), na avenida Alberto Craveiro.

Elas estão recebendo café da manhã, lanches e jantar, com monitoramento 24 horas, segundo o funcionário do Programa de Requalificação Urbana com Inclusão Social (Preurbis), Lutiane Freitas. As famílias estão distribuídas em salas, e a maioria conseguiu trazer de casa somente documentos e poucas roupas.

"A água veio até a cintura e do lado de fora até o pescoço. Eu preferi pegar as roupas das meninas do que as minhas", conta a atendente Valdenice do Nascimento Guedes, 20 anos. Depois do susto, ela fala com bom humor sobre a saída de casa com as duas filhas, de três anos e um mês. "Fiquei assustada, mas a gente tem que passar por isso. A bichinha tava era tossindo, morrendo de frio porque a molhei sem querer quando eu tava levando", conta, aos risos, mostrando a bebê.

Segundo a dona de casa Irismar Dantas, 30 anos, os moradores mais antigos da comunidade dizem que alagamentos graves como este só haviam ocorrido em 2004. "Nos últimos anos é bem a terceira vez que alagou, mas como esse último nunca tinha visto. Era muita água e a gente botando pra cima pra não sujar", diz ela.

A costureira Eleni Freitas Pereira, 35 anos, foi ao abrigo com o marido e duas filhas, de 14 e oito anos. "Desse nível assim foi a primeira vez que vi. Na parte da cozinha perdi tudo, a geladeira ainda conseguimos trepar em cima da mesa, foi o que salvou!". Ela lembra que a filha de 14 anos pedia para ir à casa do avô, em outro bairro. "Mas nem deu tempo, ela teve que ajudar a trazer as coisas. A casa tá fechada, fui ontem lavar o chão e hoje lavar as roupas, mas água mesmo ainda tem", relata.
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Campanha
Alunos e professores da Fanor lançaram campanha para arrecadar alimentos, roupas e itens de cama para os moradores da comunidade do Gengibre. A ação é emergencial, mas além disso a faculdade desenvolve dentro da comunidade o projeto de extensão "Bons Vizinhos". Iniciado em 2010, o programa conta com alunos dos cursos de Psicologia, Fisioterapia e Nutrição.

"O nosso projeto não é de caridade, e sim de atuação interdisciplinar. Com essa cheia, no entanto, a situação complicou muito e todo mundo se mobilizou pra ajudar nessa situação de emergência específica", explica o professor de Psicologia Carlos Eduardo Esmeraldo Filho. Os interessados podem fazer as doações no Núcleo de Práticas Jurídicas da Fanor, na avenida Santos Dumont, 7800. As doações para a comunidade do bairro Boa Vista podem ser entregues na sede da Defesa Civil, na rua Delmiro de Farias, 1900, Rodolfo Teófilo.

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