Desordem ainda marca trânsito no binário do Montese
Ciclofaixas no binário do Montese ainda são desrespeitadas e geram divergências entre ciclistas e motoristas. Além disso, o embarque e desembarque de clientes nos comércios da área continuam gerando congestionamentos, apontam os moradores
Oito meses após requalificação, o trânsito no binário Alberto Magno/Prof. Gomes de Matos continua lento nos horários de pico e os acidentes são recorrentes, conforme os relatos dos moradores e comerciantes do entorno. A disputa pelo espaço é desafio para pedestres, ciclistas e motociclistas. A convivência tranquila esbarra no desrespeito à legislação.
São carros estacionados nas ciclofaixas, ciclistas na contramão, motos na faixa de ônibus e pedestres atravessando "de qualquer jeito". "Eu quase fui atropelada um dia desses porque esses carros ficam na calçada, a gente fica se arriscando. Eu sou meio revoltada com isso, a calçada é do pedestre, mas a gente que tem que andar com receio e muita cautela", afirma a aposentada Deolina Bezerra, 62 anos.
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) aponta que estacionar sobre ciclovia ou ciclofaixa é uma infração de natureza grave, com multa no valor de R$ 127,69 e cinco pontos na carteira do condutor. Em meia hora na avenida Prof. Gomes de Matos, O POVO Online viu cinco carros parando na ciclofaixa. Um dos motoristas justificou que a parada era "rápida", outro apontou o que ele disse ser "espaço suficiente" para as bicicletas passarem.
A cabeleireira Aline Costa Silva, 32 anos, é uma das ciclistas que trafega na via e critica a falta de espaço. "Eu acho que com a faixa de ônibus ficou menos espaço ainda, está muito estreito pros carros e motos. Eu estou vindo de bicicleta para economizar gasolina, mas eu não vejo fiscalização educativa aqui, só chegam para multar".
Para o comerciante Edson Teles, 72 anos, a passagem constante de carros na via dificulta o fluxo. "Eu nem vi diferença, pra mim tá engarrafado do mesmo jeito de antes [das mudanças]. O mecânico Marcos Almeida, 31 anos, que vai de moto para o trabalho dele na Prof. Gomes de Matos, atribui o engarrafamento à ciclofaixa. "Ficou muito mais complicado, atrasa nossa rotina. Podia ter uma passarela pros ciclistas", sugere.
Enquanto estava na rua Alberto Magno, O POVO Online presenciou um acidente envolvendo um Corsa e um motociclista, que teve ferimentos no joelho. "Tinha um carro na ciclofaixa, eu tive que ir pro lado para não bater no ciclista e a moto acabou colidindo", contou o motorista Francisco Silva, 66 anos.
Há quatro anos trabalhando como ciclista/ambulante na Alberto Magno, Maurício Alberto, 40 anos, lembra que o número de acidentes era ainda maior. "Agora ficou melhor para mim com essa ciclofaixa, mas tem carro ainda parado nela", reclama. "Fica um superlotação com o comércio e não existe praticamente mais faixas pros carros", diverge o comerciante Roby Flanklin, 30 anos.
Além de ciclofaixas e faixa exclusiva de ônibus na av. Prof. Gomes de matos, o reordenamento do Montese incluiu renovação da sinalização, nova configuração semafórica nas ruas Cel. Alexandrino e Romeu Martins, instalação de placas de estacionamento rotativo entre os dois corredores e plantio de árvores.
O local é um dos principais corredores comerciais de Fortaleza, e o embarque e o desembarque de clientes nas vias também são fatores que influenciam o trânsito. "Tem muito motorista fazendo barbeiragem na saída dos estacionamentos comerciais, mas o trânsito aqui era muito mais desorganizado", avalia Ingrid Amorim, 25 anos, que mora perto do binário há um ano e meio.
O embarque e o desembarque na ciclofaixa são permitidos, conforme a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC). As conversões e acesso ao lote também são permitidos, mas o órgão lembra que o ciclista terá preferência de passagem sobre qualquer outro veículo.
A AMC também informou que mantém rotas volantes percorrendo o binário Alberto Magno/Gomes de Matos, com um efetivo de quatro agentes por turno.
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Disputa de espaço
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AssineSegundo o professor e engenheiro civil Flávio Cunto, do Departamento de Engenharia e Trânsito da Universidade Federal do Ceará (UFC), a solução para os grandes pontos de engarrafamento da cidade, como o binário Alberto Magno/Prof. Gomes de Matos, passa pela reordenação das áreas comerciais da cidade. "Retirar a ciclofaixa não vai diminuir [os congestionamentos], o que a cidade está precisando é que gente otimize nossas viagens", avalia.
"Fortaleza cresceu nos últimos 60 anos completamente desequilibrada, as atividades comerciais estão concentradas na região central e da Aldeota, enquanto a população foi empurrada para a periferia da cidade. A gente tem que descentralizar de uma forma que as pessoas não precisem se deslocar tanto", explica.
Para ele, a diminuição do espaço para carros, com a implantação de ciclofaixas e faixas exclusivas de ônibus, segue o movimento social mundial de restabelecimento da justiça social dos modos de transporte. “Há 40 anos estamos observando políticas totalmente voltadas para o transporte motorizado, isso criou um desajuste pros outros atores. Eu vejo [as mudanças] com bons olhos, temos que pensar no transporte de pessoas e não de carros. Um ônibus que leva 80 pessoas é como se passassem 50 carros. Por outro lado, cabe aos usuários respeitar todas as regras de circulação no trânsito independente de ser pedestre, ciclista ou condutor em geral".
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Lucas Landim, associado do Ciclovida, avalia que os engarrafamentos estão ligados à quantidade de carros e falta de respeito no trânsito. "A gente tá numa cidade que tem mais de 1 milhão de veículos, anos atrás era metade. A Alberto Magno não é muito larga, é uma área muito hostil pro ciclista, por isso [a ciclofaixa] foi uma melhoria grande", frisa.
A circulação dos ciclistas na contramão tem relação com a sensação de insegurança nas demais vias, destaca Lucas. "São pessoas que tem medo de enfrentar o trânsito quando não tem ciclofaixa. Pedalar, assim como caminhar, exige um esforço muito maior que dirigir no ar-condicionado, por exemplo. São coisas que a gente tem que levar pro lado humano, o motivo do ciclista na contramão é o mesmo do cara que quer estacionar na ciclofaixa para ficar na porta do estabelecimento", completa.
