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Malhação de Judas revela resistência e tradição das comunidades

Há 25 anos, tradição e resistência encontram-se na Praça da Gentilândia no período da Semana Santa

23:16 | 26/03/2016
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Há 25 anos, tradição e resistência encontram-se na Praça da Gentilândia no período da Semana Santa. É lá que o artesão Sérgio Marques orquestra o festival para malhação do Judas, sempre representado por figura política de destaque do cenário atual. Neste sábado, 26, o boneco ganhou nome de “Cunha-do”.

No Jardim América, bairro com título de maior pólo de fabricação de Judas no Estado, segundo o presidente da Associação de Moradores do Jardim América (AAJA), Márcio Martins, as comunidades de Brasília, Salgadeira e Matadouro tiveram o primeiro festival da tradição. O local foi um dos oito contemplados no XII Edital Ceará da Paixão, da Secretaria da Cultura do Estado (Secult), com investimento de R$ 12.770.

A vontade de contar a história tradicional para os filhos foi o que fez o artesão Sérgio Marques confeccionar o primeiro boneco, em 1991. De lá para cá, Judas já ganhou características de Sarney a Dilma, conta ele, destacando o pioneirismo da crítica travestida de brincadeira, que não era comum na época.  “Vivemos uma época de destruição do patrimônio arquitetônico, cultural e histórico. Então, isso é uma forma de resistência, de se relacionar com a população, com o bairro e com a vida urbana”, comenta.
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Acompanhando há 16 anos o encontro, a bombeira civil Angélica Sabóia, 50, transferiu para filha, Ana Lourdes, 15, o gosto pela brincadeira. Todos os anos elas montam o Judas e levam à praça para competir com outros bonecos; o primeiro lugar ganha prêmio. “Já teve ano de sermos as únicas a trazer, mas a gente sempre vem”, orgulha-se Angélica.
Nesta edição, o Judas vencedor foi o “Bandeirinha do Benfica”. O prêmio para o criador foi um galeto com refrigerante, além de troféu.
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Comunidades

O líder comunitário Márcio Martins destaca o caráter inclusivo da festa, que ocorreu na Praça do Paulo VI. “Essa praça é extremamente estereotipada como um local perigoso, existe ainda hoje um consumo de drogas aqui, mas nós queremos derrubar essa imagem”.  Para montar o festival e receber os moradores, Márcio conta que foi necessário realizar alguns reparos no local, como pintura de bancos.
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Sete dos quinze "judeiros" do bairro entraram na competição. Dona Regina Nascimento, 66, pioneira na confecção dos bonecos na comunidade, foi uma das competidoras, com um Judas vestido de ‘Lula prisioneiro’. Há 20 anos, poucos dias antes da Semana Santa, vender o boneco de Judas foi o meio que ela e o irmão encontraram de ganhar dinheiro para comprar peixe, cumprindo o ritual católico do período, que proíbe o consumo de carne.

“Teve ano que fiz 160 Judas e vendi tudo”, relembra a aposentada, que recebe encomenda e conta com ajuda da família. Os filhos são responsáveis pela venda nos semáforos do bairro. Sobre a renda arrecadada com a tradição, dona Regina diz: “Não é pelo dinheiro, aprecio o meu trabalho”.

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