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Ariadne Araújo e os guerreiros da borracha

08:34 | 18/02/2016
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A jornalista Ariadne Araújo foi a repórter que em 1998 realizou para um O POVO um suplemento especial sobre a situação dos homens e mulheres que se mudavam para a Amazônia como seringueiros. Em Soldados da Borracha: A Saga dos Arigós, a jornalista revela a situação de escravidão a que essas pessoas eram submetidas, as estratégias de arregimentação do governo Vargas e as promessas jamais cumpridas.

Na entrevista a seguir, Ariadne fala sobre o processo de apuração dessa história e conta o que mais chamou sua atenção durante a investigação.

O POVO - Como você chegou, nos anos 1990, a essa história dos Soldados da Borracha?
Ariadne Araújo -
Dia destes, dezoito anos atrás, sai da redação do jornal O POVO para uma missão certa, esta de escrever para o então suplemento Sábado uma matéria sobre versos fesceninos. Lista de entrevistados na mão, parecia–me um mergulho certeiro e sem maiores surpresas no universo desses poetas e seus versos eróticos cheios de malícia, às vezes devassos, por vezes obscenos. Um deles, o cearense João Amaro, na época com 68 anos de idade, dedicou-me seu livro de versos picantes e, assim, de supetão, tirou do bolso um papel dobrado e pediu-me que lesse nessa carta datilografada o outro lado da vida dele.

A história dos tempos em que ele tornou-se soldado da borracha e foi viver e trabalhar no inferno verde, no coração da floresta Amazônica, durante um esforço de guerra gigantesco para ajudar os países Aliados na Segunda Guerra Mundial. Engasguei. Picada pelo mosquito da curiosidade, pelo desejo de saber mais, de investigar aquela história desconhecida, misto de tragédia e aventura, peguei as malas e fui buscar o passado de J. Amaro nos igarapés amazônicos, nas margens dos rios barrentos, navegando em canoas ligeiras, balançando nas alturas das palafitas. A história do poeta misturou-se a outras centenas, todos de igual destino, uns de mais sorte, outros em plena desgraça, mas todos no igual sentimento, o de que fazem parte de um exército de heróis esquecidos, abandonados pelo governo Getúlio Vargas para morrer nos confins da mata. Voltei com meu baú de riquezas cheinho: testemunhos, histórias de vidas e de mortes, saudades eternas, separações, vozes que gritam denúncias, que pedem reparação, reconhecimento nacional.

O cenário desta batalha travada silenciosamente na Amazônia, os documentos ainda intactos, as memórias desembaladas foram reunidos em um caderno especial que chamou-se Soldados da Borracha: A saga dos Arigós. Publicado em junho de 1998, o material jornalístico ganhou interesse geral e foi, naquele ano, classificado pelo prêmio Esso de jornalismo. Logo depois da publicação, soube que J. Amaro havia falecido. Guardo ainda hoje sua carta riscada em perfeitas dobras, sinal de que guardava ali tesouro grande. Para ele e para mim também!

OP - Durante sua pesquisa, você viajou ao norte do País. O que encontrou por lá? Que cenário ficou dessa história?
Ariadne -
Nada difícil encontrá-los, na época. Numa praça pública de uma cidadezinha perdida na Amazônia, não importa qual, uma simples conversa com os habituais já traz à tona novos aspectos dessa saga. Na flor da idade, alguns ainda com 15 ou 16 anos, alistaram-se enganados pela propaganda do governo ou foram trazidos na marra, caminhão do Exército parado na porta de casa ou nas beiras de estrada, chamado sem chance de recusa para a guerra dos inimigos do Brasil. Nas cidades nordestinas, portas de cinemas ou lojas, cartazes convenciam os mais teimosos: “Vai também para a Amazônia”. A notícia que corria era de que o governo garantia tudo - viagem, roupa, comida, salário, retorno e aposentadoria. Promessas de uma volta heroica, desfiles em avenidas, medalhas e honras completavam o quadro maravilhoso de uma vida temporária no Eldorado, sem sustos, com segurança nos braços de Getúlio Vargas.

Em meio a mais um período de seca, levas de retirantes nas estradas, plantios mortos pela falta de água, aquela pintura de uma vida feliz, de onde voltava-se rico, parecia quase ao alcance da mão. Em Rio Branco, também em outras cidades do Acre, para onde uma grande maioria de soldados da borracha foi enviada, eles lembram com tristeza estas promessas falsas. No corpo envelhecido pelo tempo e usado dos maus-tratos da vida dura na mata fechada, trazem também marcas de várias doenças típicas das Amazônia, mordidas de cobra, cicatrizes de feridas de facas e facões, tiros de espingarda. Por causa assim, metade do exército da borracha ficou enterrada na floresta. Alguns morriam nos primeiros dias de trabalho, vítimas da inexperiência e desconhecimento do terreno. Um primeiro de maio, dia do trabalho, poderia reunir centenas deles que, no balanço do forró, esqueciam brevemente as dores do corpo e da alma e matavam as saudades. Encontramos muitos deles nas periferias, em casebres de madeira, tão pobres que não podiam sequer comprar a própria cachaça, substituída, então, pelo álcool puro.

No final da guerra, não se falou mais em soldado da borracha. Quem teve força pra voltar sozinho e por seus meios, meses de viagem, voltou à terra natal e para a família transtornado e doente. A maioria, no entanto, ficou. Sem dinheiro e nem saber como fazer o caminho de volta, acabaram por casar e formar família por lá mesmo. A mulher, os filhos, os netos acabaram fixando estes nordestinos nas cidades amazônicas. Mas o apelido de brabo ficou até hoje. Com o passar dos anos, vimos muitos destes personagens desaparecerem com o avanço da idade. Atualmente, contam-se nos dedos os sobreviventes dessa saga.

OP - O que movia esses homens? O que os convenceu a largar tudo em suas terras e partir para as florestas?
Ariadne -
A máquina de arregimentação dos soldados da borracha funcionou de 1942 a 1945 e montou sede em Fortaleza. Para a capital chegavam todos os dias em caminhões, carrocerias cheias de novos recrutas. Amontoavam-se em pousos construídos pelos órgãos criados pelos governos brasileiro e americano, uma babilônia de funcionários que não se compreendiam. Da arregimentação em Fortaleza até a ponta de distribuição desse exército para os vários pontos de barracões de patrões seringueiros, em Belém, a desorganização marcou a lembrança dos jovens soldados da borracha. No caminho – a longa viagem começava de caminhão, continuava de trem, passava para navios que corriam o risco constante de torpedeamento, sustos, medos, fome, brigas, assassinatos e fugas. A viagem cansativa e perigosa não parecia, nem de longe, o anunciado nos cartazes da propaganda.

Na Amazônia, o exército faminto e esgotado caía nas mãos de inescrupulosos patrões que, logo na chegada, apresentavam aos iniciantes uma conta já em negativo para eles. Uma dívida que nunca seria saldada, mas sempre acrescentada pelos patrões que levavam suas tropas na lei da bala. O governo e órgãos recém-criados lavavam as mãos sobre uma ou outra denúncia de escravidão que vazava através de um jornal local. Enviados em duplas para a mata virgem, eles deveriam virar-se, aprender a caçar para garantir a comida, a conhecer as plantas para preparos de chás e remédios, a defenderem-se dos índios, também das onças, cobras e outros animais igualmente perigosos. Manhã muito cedo saíam para buscar seringueiras, cortar o tronco da árvore, deixar o leite escorrendo para dentro de tigelas e, no fim do dia, refazer o caminho para a coleta do apurado.

Na floresta, a borracha tinha valor de dinheiro: dois quilos de látex valiam um quilo de toucinho, por exemplo. E esse câmbio dependia do humor dos patrões. Isolados, sem notícias do mundo exterior, numa vida de riscos cotidianos, os soldados da borracha só contavam com eles mesmos. Desenvolviam códigos, assovios, imitações de pássaros, sinais para se comunicarem, se juntarem e, vez em quando, participarem de um forró no barracão principal, se o patrão deixava. Homem dançava com homem, contam. Mulheres eram raras por aquelas bandas.

OP - Qual história mais te chamou atenção?
Ariadne -
Com o passar dos tempos, acostumaram-se às rudezas da vida, começaram a dominar aquele trabalho. De agricultores plantadores de feijão no Nordeste, tornaram-se exímios seringueiros na floresta. Agora conheciam os sons, as subidas dos rios, a chegada de onça brava, de índio de boa pontaria, os benefícios das folhas para chás curativos. Acalmaram as saudades como puderam, empurrando-a para os confins da mente, dizendo a eles mesmos, “quando acabar eu volto”. Então foi como cortar a carne, saber que a guerra tinha acabado e ninguém viria se ocupar da volta. Estavam, como sempre, cada um por sua conta e risco. Os patrões não mandaram mais buscar a borracha, tudo parou num instante, não tinham um tostão no bolso. O sonho de riqueza e de volta com vida melhorada era fumaça, ilusão. Odiaram, então, aqueles cartazes, aquelas promessas, aqueles discursos nas praças. O negócio era se conformar e refazer a vida ali, como possível.

Depois do caderno especial, a história desse exército esquecido voltou à cena com o documentário do Wolney Oliveira, Borracha para a Vitória que ganhou o prêmio DOC/TV do Ministério da Cultura e foi exibidos meses seguidos pela TV Cultura. Agora, o livro que será lançado sexta-feira vem mais uma vez resgatar esta saga e atualizar as histórias de vidas dos que sobreviveram ao esforço de guerra e ao tempo. Com muitas fotos abertas, a ideia é dar visibilidade e palavra aos soldados da borracha, de fazer surgir a vida nos seringais e o final trágico dessa campanha do governo da época. Parte desse material de propaganda está no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, mas o resto fomos buscar nós mesmos em muitas viagens ao Norte do país, muitas horas de entrevistas. E dessa história ainda há muito o que revelar.

 

 

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