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Tratamento com células-tronco é alternativa para reduzir dores e curar lesões de animais

No Ceará, dois veterinários utilizam a terapia com células-tronco para tratar cavalos e cachorros. A evolução dos animais depende do quadro clínico, mas não há contraindicações

11:20 | 02/12/2015
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O tratamento de animais com células-tronco ainda é pouco conhecido no Ceará, mas alguns donos bancaram a alternativa e comemoram os resultados positivos. Os veterinários Natália Freitas, 31, e Alison Ximenes, 29, pioneiros do Estado no procedimento em cavalos e cachorros, respectivamente, indicam a terapia para lesões nas articulações, ossos, ligamentos, além do tratamento de doenças crônicas e agudas. A ideia é aumentar a expectativa dos pacientes condenados e melhorar a qualidade de vida daqueles que sofrem com dores.

Natália começou a trabalhar com células-tronco durante o mestrado em São Paulo e, no final de 2012, abriu a clínica Equifort em Aquiraz, onde passou a usar o procedimento de forma profissional. Em três anos, cerca de dez cavalos foram tratados com a técnica, mas o desconhecimento e o custo mais elevado são desafios para a popularização do procedimento. “Não é barato, reconheço, mas é difícil convencer que é um tratamento que pode ter resultados positivos. O cachorro tem mais entrada, porque é como se fosse um filho”.

Ela e Alison se conheceram em 2014, quando trabalharam juntos para tratar Bono, boxer do fisioterapeuta Leonardo Rodrigues, 31. O paciente, primeiro cachorro do Ceará a receber células-tronco, desenvolveu uma artrose após passar por um tratamento equivocado de um machucado no joelho direito. "O Bono se machucou quando brincava com uma cadela adulta na avenida Beira Mar. Aí um veterinário não muito informado meteu uma agulha na coxa, e houve lesão no nervo. Procurei vários profissionais que indicavam amputação", explica Leonardo, que administra um haras onde Natália trabalha.
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“O Leonardo queria que a gente chegasse ao máximo de recuperação e contou dessa possibilidade de células-tronco. Retiramos células da medula óssea do Bono, a Natália fez o cultivo e eu apliquei”, diz Alison. Bono estava sem usar a pata há pelo menos um mês, mas depois de receber as células, se recuperou em três meses. Hoje, ele é um cachorro saudável e capaz de correr quilômetros. "A pata lesionada não é igual a outra, mas é totalmente funcional. Melhorou 80% graças a visão dos profissionais. E claro, por causa dele também, que aguentou muita dor”, afirma Leonardo.
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Os estudos apontam até aplicação de células de cães em ratos, de gatos em cavalos, mas, por enquanto, Alison e Natália trabalham apenas com células de animais da mesma espécie. “A aplicação de celular não tem risco, pois a célula não têm componentes que causam rejeições, não é como uma hemácia. Se o animal recebe transfusão de sague não compatível pode ter uma rejeição”, completa Alison.

Cachorros
O sucesso do tratamento de Bono levou Alison a investir nos estudos com células-tronco. Ele foi convidado a participar de um curso na Curavet, empresa com sede em São Paulo que reúne especialistas de terapia celular. Após a capacitação, em fevereiro, tornou-se o primeiro veterinário do Estado a realizar o procedimento em ''pets''. No nordeste, apenas outros dois veterinários da Bahia fazem a terapia celular em cachorros e gatos.

“Já tive sete pacientes, todos cachorros. Dois foram em Recife e temos mais dois clientes que solicitaram. Antigamente chegavam pacientes que não tinham mais expectativa nenhuma de tratamento, e hoje a gente tem dado uma chance para ele”, avalia. Agora, o veterinário formado pela Uece recebe as células-tronco cultivadas em um laboratório da Curavet, evitando a retirada das células na medula do próprio animal. O tratamento custa, em média, R$ 2 mil.

Os resultados variam, mas há casos em que os cachorros apresentaram melhora em cinco a dez dias, conforme Alison. “Tudo depende do animal, temos o caso da Zafira, uma buldogue que está há dois anos sem andar e usa cadeirinha de rodas. Não esperamos resultados rápidos, pois a lesão foi grave. Mais importante que pensar em curar, é pensar na qualidade de vida dos bichinhos”, frisa.

Amora, uma Shih-tzu de dois anos e meio que tem insuficiência renal, recebeu a aplicação de células-tronco há 14 dias na Plantão Pet , clínica onde Alison atende em Fortaleza. Os donos descobriram o problema quando a cachorrinha tinha um ano e meio e foram informados, recentemente, que ela era uma forte candidata ao tratamento celular. "Começamos a tratá-la com um nefrologista, ela precisou de transfusões de sangue porque chegou um momento em que não conseguia ficar em pé", conta a "avó" de Amora, a comerciante Marline Craveiro de Medeiros, 50.

A expectativa é que as transfusões de sangue demorem mais, e os sintomas de Amora sejam minimizados. "Alguns médicos dizem que não adianta, que é perda de dinheiro, mas a gente resolveu tentar para ficar com ela mais tempo, porque gostamos dela demais. Se a gente não tivesse feito nada ela já teria morrido, mas ainda está aqui!”, explica Marline.
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Cavalos
Um dos cavalos tratados com células-tronco é Jimmy Lake, que foi campeão da corrida do I Top Fest, realizado no início de novembro, no município de Caucaia. O equino sofreu uma distensão lombar durante uma corrida anterior, em Canindé, e chegou a ficar 90 dias parado. "Eu já tinha visto esse tratamento em cavalos, é impressionante a melhora. Tivemos que começar o treinamento do zero, mas quando ele melhorou disparou”, detalha o treinador do animal, Marcos Dorneles, 33.

Natália, também formada pela Uece, faz a terapia com células cultivadas, cuja aplicação custa em torno de R$ 1500, e células retiradas do próprio animal, em que a aplicação é imediata e gira em torno de R$ 788. “Quando eu cultivo purifico a amostra, ficam só células-tronco e aumento a eficácia do meu tratamento, mas em compensação dobra o preço”, diz ela.

Na corrida em que foi campeão, Jimmy Lake correu 320 metros em 17 segundos e 300 metros em 16,8 segundos, um recorde no Nordeste, conforme Dorneles. ''[O tratamento] foi algo fantástico, valorizou o cavalo, que acabou sendo muito bem vendido em um leilão”, afirma o treinador.
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Segundo Natália, o tratamento com células-tronco em cavalos é normalmente utilizado para lesões osteomusculares, mas também há recomendações para lesões nervosas. ''A gente faz aplicações a cada 30 dias, mas isso varia com a lesão e a resposta dos animais, das espécies. O Bono, por exemplo, teve uma melhora absurda”, lembra.

 * Colaborou Camila Gadelha, especial para O POVO Online

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