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"Árvore de colchões" chama atenção na Praça do Ferreira

Moradores em situação de rua guardam colchões e objetos pessoais na árvore de galhos secos. A estrutura improvisada na Praça do Ferreira contrasta com a árvore de Natal que será iluminada na noite desta sexta-feira, 27, com festa e show do Fábio Júnior

15:50 | 27/11/2015
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O cenário é antigo, mas com a chegada do período natalino a árvore de galhos secos, “enfeitada” com colchões, ganhou os olhares dos pedestres da Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza. É que bem atrás foi erguida a tradicional árvore de Natal da CDL, formada neste ano por velas de jangadas entrelaçadas e que será iluminada na noite desta sexta-feira, 27, na abertura do Natal de Luz.

Diariamente, a árvore - estrutura improvisada por moradores em situação de rua que dormem no entorno - é montada e desmontada. Cedinho os pertences começam a ser expostos verticalmente. À noite, quando o movimento do Centro esfria e o comércio está encerrado, os colchões e caixas ganham as calçadas. “Eu já vi bem uns 100, estendem os colchonetes nas fachadas das lojas, enchem a rua”, diz o vendedor Raimundo de Castro Veras, 57, que trabalha em uma farmácia da área há cerca de 30 anos.

O dono da banca ao lado, que existe há 38 anos, não lembra quando os colchões começaram a ser pendurados e as caixas de papelão, com roupas e utensílios, foram encostadas ao tronco. ''Há muitos anos aqui é a rampa deles. Eles ficam toda noite. Eu vejo essa cena com tristeza”, diz Francisco Aragão, 66.

Os moradores em situação de rua preferiram não falar com a reportagem do O POVO Online sobre a rotina. Enquanto o sol esquentava a manhã, coincidentemente no dia da abertura da “Operação Centro Seguro”, as pessoas iam reparando nos colchões. “Essa árvore aí que é massa”, disse um irônico. “Ave Maria, não vão tirar isso, não?”, falavam outros, meio indignados, meio intrigados.

O artista plástico Roberto Galvão, 65, passava pela Praça e parou para fotografar o encontro das duas árvores. “Eu acho legal o contraste, a sofisticação e a realidade, isso é o retrato social de Fortaleza. Um lado excessivamente rico e o outro excessivamente pobre”.

Se a maioria dos pedestres abordados pelo O POVO Online preferia apontar o dedo pros políticos, Galvão tomou para si uma parte da responsabilidade da “árvore de colchões”. “É preciso solucionar, e já chega da gente colocar a culpa de tudo nos governos. A sociedade também tem o compromisso de olhar para essas pessoas”.

"Filma aí, para ver se o Roberto Cláudio vê", arriscou a ambulante de lanches Jocélia Vieira Fernandes, 41. Para ela, o contraste das árvores, em plena época de boas festas, ''queima'' a reputação da Prefeitura e da cidade em geral. "Engraçado que a gente está trabalhando e vem fiscal tomar nossas coisas, mas uma coisa dessas aí não é preocupação", opina. "Uma cidade bem falada, os turistas de fora vão ver. Eu acho muito feio!", concorda o colega de profissão dela, Cristiano Fernandes, 38.

De toda forma, o casal de São Luís não dispensou uma foto bem na frente da ''árvore de colchões''. E claro, com a árvore de Natal vizinha ao fundo. "O rico e o pobre, ficou bonito, né?!", soltou o pecuarista Elenilson Braga, 50, que chegou a Fortaleza com a esposa, Conceição Bastos, na última quinta-feira, 26. Já a portuária Alcina Figueiredo Costa, 70, foi enfática: “achei ridículo!”. “Esse local é um cartão de visitas, e as autoridades deviam ajudar essas pessoas”, complementa.

Verônica Pereira Alves, 40, supervisora de confecções, preferiu deixar de lado as questões políticas e sociais, foi falando o que sentiu. “Eu acho que em uma eu vejo a paz, luz, beleza. E nessa outra vejo pobreza, tristeza, coisas ruins”. Visitando o Centro para as compras da Natal, a dona de casa Anita Matos, 30, disse que a árvore é “uma vergonha”. E compartilhou um dos pensamentos muito citados por quem passava: “é preciso acolher as pessoas em situação de rua”.

Cidadãs
As vizinhas Martina Ferreira (à direita), 74, e Nazaré Braga (à esquerda), 57, passeavam pelo Centro e pararam para olhar a “árvore de colchões”. “Eu acho horrível, ‘tá’ na hora de tirarem”, diz Martina. Para Nazaré Braga, 57, vizinha da Martina, “falta apoio". "Mas também acho que eles não querem ir pras casas de acolhimento.  No Centro tem duas, tem a pastoral e o POP [Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua]. As autoridades tinham condição de tirar e mandar pra essas casas, arranjarem para eles dormirem em outros lugares” avalia.

[FOTO6]

“Não vamos tirar as pessoas das ruas à força”, diz Setra
O titular da Secretaria Municipal de Trabalho e Desenvolvimento Social e Combate à Fome (Setra), Cláudio Ricardo, afirma que, atualmente, Fortaleza possui uma série de políticas públicas voltadas para à população em situação de rua.  “Temos abrigo para homens na avenida Francisco Sá, para mulheres e crianças na rua Júlio Siqueira, próximo a avenida Rui Barbosa. Inauguramos mais um POP no Benfica, com uma proposta nova, de inclusão digital e qualificação profissional. Hoje esses POPs são referência nacional. Inauguramos um Centro de Convivência, uma Pousada Social, com camas boas”, cita.

Apesar disso, o secretário lembra que há uma parcela de moradores de rua que não quer ir para os abrigos. “Somos contra higienização, não vamos tirar as pessoas das ruas à força. Essas pessoas têm o direito de ir e vir, é um direito inalienável. Lógico, não podem usar as ruas como banheiros, mas esse trabalho de acolhimento é complexo, exige abordagem especializada”, afirma.

Segundo ele, a Setra fez uma pesquisa e constatou três principais motivações para as pessoas viverem nas ruas: rompimentos familiares e comunitários, vício em drogas ou álcool, e desorganização financeira. “Também têm outras questões, como desilusão, doença mental. Esse é um fenômeno mundial que decorre do adensamento urbano. A gente não foge desse padrão, mas estamos melhores do que outras capitais. Estamos encaminhando essas pessoas pro aluguel social e buscando qualificá-las, até inserindo essas em vagas de trabalho nos próprios centros”, completa.

Serviço
- POP Centro: 8h às 17 horas, na rua Antônio Pompeu, 134 , bairro Centro.
- POP Benfica: 8h às 17 horas, na av. da Universidade, 3215, no bairro Benfica.
- Centro de Convivência para Pessoas Adultas em Situação de Rua: 8 às 22 horas, na rua Solon Pinheiro, 898, no bairro José Bonifácio.
- Pousada Social: 21h30min às 7 horas, no mesmo prédio do centro de convivência na Solon Pinheiro.

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