Parada há mais de um ano, obra de requalificação no Titanzinho ainda aguarda nova licitação
Nova licitação será aberta para a contratação de empresa que executará a obra. Modificações no projeto ainda não foram apresentadas e moradores temem despejo
"Daqui eu só saio direto pro cemitério. Era para ser um projeto como o da Praia de Iracema, mas até agora nada", comenta Maria Ferreira, 83 anos, conhecida como Dona Mariazinha. Orçadas inicialmente em R$ 145 milhões, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2, as obras de revitalização urbana das comunidades do Titanzinho e do Serviluz, no bairro Cais do Porto, passam por atualização. O novo projeto da Aldeia da Praia, no entanto, é desconhecido pela comunidade, que teme sair da área à força.
"Tínhamos uma reunião com o arquiteto do projeto essa semana, mas ficou pra próxima e ainda não sabemos dessas modificações. O medo é mesmo que as pessoas sejam retiradas daqui, até porque depois do que fizeram no Alto da Paz não colocaram um tijolo", disse o coordenador da unidade Classicista de Luta Por Moradias do Serviuz, Ribamar Pereira, 53 anos. A ordem de serviço das obras foi assinada no dia 4 de junho de 2013 pelo prefeito Roberto Cláudio (Pros), mas o contrato foi cancelado após desistência da Construtora Beta, que abandonou a obra no mesmo ano.
Uma licitação foi aberta no último mês para definir a empresa responsável pelas intervenções, mas a única concorrente foi desclassificada por estar em processo de recuperação judicial, conforme a assessoria da Prefeitura Municipal de Fortaleza. O prazo da Prefeitura é de que até essa semana o pedido de realização da nova licitação seja encaminhado para a Comissão Permanente.
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Novamente, o valor do orçamento será revalidado junto à Caixa Econômica Federal, financiadora da obra. A promessa de requalificação é motivo de descontentamento para a auxiliar de cozinha Jane Felipe Martins, 37 anos, que mora em frente à rua Ponta Mar, que deveria ser transformada em via paisagística com um calçadão. "Aquela construtora piorou minha situação, porque tiraram uma mureta que impedia a areia de entrar em casa. Quebraram tudo, botaram esse cimento e nunca mais".
Em dezembro do ano passado, a Prefeitura enviou uma equipe ao local para retirar a areia das casas da comunidade do Serviluz. Com o passar dos meses, o problema persiste e a negociação com a comunidade caminha a passos lentos. "Nós tínhamos um projeto alternativo, que em vez de tirar 500 famílias só tirasse 200, aproveitando a área do campo de futebol, diminuindo os danos. A gente manda e vem diferente, queremos é uma conversa com eles olho no olho, um projeto que seja feito de forma civilizada, respeitando as famílias", explicou Ribamar.
Do outro lado da comunidade, na avenida Vicente de Castro, outra obra inacabada é reclamada pelos moradores. Na frente do antigo Farol do Serviluz, a pavimentação termina em uma calçada de areia. O contrato de execução da Aldeia da Praia, conforme a assessoria da Prefeitura, será iniciado ''imediatamente após a homologação do novo processo licitatório'', e as obras serão finalizadas em até 18 meses após contratação.
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O POVO Online solicitou entrevista com o responsável pela Coordenadoria de Programas Integrados de Fortaleza - que segundo a Prefeitura está a frente do projeto -, mas foi informado que ele estava viajando.
Reassentamento
A comunidade do Titanzinho foi formada na década de 1970, quando os pescadores que habitavam uma região mais próxima da Praia Mansa foram reassentados na área do Cais do Porto. A mudança foi necessária para a construção do Porto do Mucuripe.
"Cada pessoa ganhou uma casa, porque a Companhia das Docas cadastrou todo mundo. Passaram o trator e a gente veio para cá. Agora nos acostumamos, aqui é muito bom, vamos bater o pé se quiserem tirar a gente daqui”, pontua dona Mariazinha.
Segundo a Prefeitura, o novo reassentamento das famílias é necessário para melhorar condições sanitárias, bem como a abertura de vias de circulação para transporte público, caminhões de lixo, ambulâncias, viaturas policiais, etc.
Em fevereiro, O POVO publicou matéria sobre terreno no bairro Vicente Pinzón em que 400 famílias, da comunidade que recebia o nome de Alto da Paz, foram despejadas. No local, deveriam ser construídos 1.472 apartamentos para abrigar outras famílias por meio do programa Aldeia da Praia.