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Fermentando uma ideia: o segmento das cervejarias artesanais

Aliando paixão e negócios, empreendedores investem neste mercado em expansão

06/07/2021 00:00:23
Os sócios da Cervejaria Capitosa, Carol Zilles e Fernando Chaves
Os sócios da Cervejaria Capitosa, Carol Zilles e Fernando Chaves

Foi por volta dos 9.000 a.C, no oeste da Ásia, que os humanos passaram a cultivar grãos como sorgo, cevada e trigo. Secos, podiam ser armazenados por longos períodos. Guardavam os insumos em forma de farinha para fabricar pão e cerveja. Esta última, muito provavelmente, descoberta por acidente. Assim como os outros grãos, a cevada era armazenada em vasos e, num dia de chuva, acabou molhando. Para tirar a umidade, colocaram a cevada para secar. Ela por sua vez, após receber uma boa dosagem de água, liberou seu efeito adocicado.

O resultado de aroma e sabor agradáveis foi transformado numa espécie de sopa. Deixada de lado por algum tempo, ficou exposta a microorganismos que fermentaram a mistura, liberando álcool e gás carbônico. Nutritiva e inicialmente servida como alimento, a nova iguaria deixava as pessoas bem felizinhas e aumentava a sensação de prazer. Sem saber explicar o efeito inebriante, logo atribuíram a bebida aos deuses e ela passou a ser utilizada também para rituais religiosos. “A história da humanidade e da cerveja se confundem”, como defende o sommelier Dedé Coutinho, 40.

11 mil anos depois, por volta dos anos 2000, Fernando Fernandes Chaves, 41, nutria grande curiosidade sobre o universo da cervejaria. Mas não de qualquer cerveja. Apreciador de uma boa artesanal, quando o mercado ainda era incipiente por aqui, decidiu se aprofundar um pouco mais sobre o processo de confecção da sua bebida favorita. Muitas pesquisas depois, decidiu se arriscar a fabricar sua própria cerveja na cozinha de casa: “queria uma boa cerveja, sem precisar deixar um rim pra isso”, conta. Descobriu que, na Idade Média, fazer cerveja era um dote das mulheres inglesas. Foi aí que pensou: se elas, no período medieval, conseguiram fabricar a bebida em casa, imagina eu, no século XX. “Esse passo é um caminho sem volta, que te mergulha nas particularidades de ingredientes, escolas e estilos e você se dá conta do tamanho do universo a ser explorado”.

Quando recebeu seu primeiro pacote de malte em casa e sentiu o aroma saboroso, teve certeza do tamanho da paixão que tudo aquilo lhe trazia. Experimentar, pesquisar e entender as inúmeras possibilidades existentes dentro da cervejaria artesanal talvez tenha lhe acendido a luzinha empreendedora. “Acho que quando você percebe o tamanho do mundo relacionado à cerveja, você se dá conta de que existe muita coisa a ser explorada. Não só na produção da cerveja, mas em toda uma cadeia que gira em torno da cultura cervejeira: importação, gadgets, eventos, degustações, harmonizações, educação, etc. É só se organizar”.

 A Capitosa ficou pronta em abril de 2021, em meio à pandemia.
A Capitosa ficou pronta em abril de 2021, em meio à pandemia. (Foto: Acervo pessoal)

Em 2012, Fernando juntou-se a Carol Zilles, 41, companheira de vida e a partir de então parceira de negócios, para idealizar o então tímido sonho de abrir uma micro cervejaria. Muitas cervejas caseiras e cursos profissionalizantes depois, o cearense e a paulista abriram, em 2016, o bar Bru - Cerveja & Café, um dos primeiros especializados em cerveja artesanal do Ceará. O sonho cresceu e, em 2018, começaram a fermentar a Cervejaria Capitosa, uma fábrica de cerveja com cozinha para 2.000 litros, inaugurada em abril de 2021. “Capitosa” vem de “capita”, que significa cabeça, quem tem cabeça grande, que é teimosa, obstinada. Bebida que sobe à cabeça, inebriante. “Construímos tudo do zero, com bastante aspectos de sustentabilidade. Hoje a gente produz 30 mil litros de cerveja por mês, porém com condição de expandir 6 vezes esse valor, só com o acréscimo de tanques fermentadores”, conta Carol.

Bruno Polycarpo, 24, foi pelo sentido inverso. Estudante de engenharia e apreciador esporádico da bebida, foi atraído pelo novo negócio em que o pai decidiu empreender. A família carioca (pai, mãe e dois filhos) chegou em Fortaleza em 2005. Em 2016, Fernando Eduardo de Oliveira, 56, matemático de formação, decidiu que seria hora de empreender. Trabalhou a vida inteira na construção civil e já tinha em mente todos os setores em que ele não gostaria de ter um negócio, mas ainda não sabia no que exatamente queria entrar de cabeça. Buscou ajuda junto ao Sebrae e descobriu o vasto universo da cervejaria artesanal. Envolveu toda a família no processo, inclusive o Bruno.

Bruno Polycarpo e Fernando Eduardo, pai e filho a frente da All Grain
Bruno Polycarpo e Fernando Eduardo, pai e filho a frente da All Grain (Foto: Acervo Pessoal)

“Muita gente começa provando e começa a fazer cerveja como cervejeiro caseiro. Depois abre uma cervejaria pra começar a fazer industrialmente. No meu caso foi o contrário, eu comecei a fazer cerveja industrialmente, nas panelas grandes, e depois eu comecei a fazer em escala menor, pra testar, pra curtir. Não começou como uma paixão, começou como um trabalho, mas se desenvolveu e virou uma paixão. Hoje em dia sou apaixonado por cerveja”, conta um Bruno entusiasta do movimento das cervejarias artesanais, que vem criando cada vez mais corpo e indo de encontro a um público cada vez maior. Foi assim, que em 2017, surgia a All Grain, negócio familiar especializado no ramo das cervejarias artesanais.

Tudo começou com 46m², no Bairro José de Alencar. Tocada pelo seu Fernando e pelo então sócio Fausto Martins, farmacêutico de formação, que cuidava da parte prática da confecção da cerveja. Hoje, com 156m², a cervejaria All Grain já se consolida no mercado e agrada paladares de gregos e troianos, ou melhor, de cearenses, que tem ajudado a expandir o mercado em ascensão, tanto que tem gente se especializando já de olho neste filão.

Gente como a jornalista Taiga Cazarine, que transbordou o copo para além da paixão de consumidora e escalou uma grande jornada profissional investindo no segmento. Já teve loja, fez cursos, foi colunista e viajou o mundo experimentando cervejas num emprego dos sonhos, no qual sua missão era encontrar boas cervejas que tivessem a ver com o paladar brasileiro.

Com uma grande experiência acumulada na bagagem, decidiu formalizar a sua própria empresa, a Cazarine Comunicação, especializada em comunicação com foco na cervejaria. Segundo ela, tudo vem convergindo para que este segmento ganhe novas proporções no país: “Hoje, com o mercado se formatando, tudo isso está mudando, a gente agora tem plantação de lúpulo. O agronegócio, voltado pra cerveja, está mudando no Brasil e melhorando o acesso para que a gente possa, inclusive, ter mais cervejarias. Os impostos e leis também estão mudando”. Ela explica ainda que antes toda cervejaria era taxada como grande cervejaria, o que espantava muitos pequenos empreendedores. “É um mercado que está em plena formação. Não existe ainda um boom, mas está se alastrando, fazendo surgir diversas frentes de setores de trabalho especializadas para o mercado, que é o meu caso”, defende a empreendedora, que oferece serviço de assessoria de imprensa e marketing com foco neste segmento.

Dedé Coutinho é outro especialista no assunto, diplomado há 2 anos como Sommelier de Cervejas. Sim, esta figura, que até bem pouco tempo existia somente no segmento dos vinhos, agora adentra também os campos fermentados das cervejarias. O Sommelier de Cervejas tem conhecimento em sabores, cores, aromas, estilos, escolas, ingredientes, história, harmonização e análise sensorial. Ele atua com o intuito de proporcionar uma experiência marcante no consumo da cerveja e encantar seus consumidores. A paixão é tanta que Dedé mantém um perfil nas redes sociais, o @dedecervejeiro, só para falar sobre o assunto, que diga-se de passagem, atrai grande público: hoje o perfil do sommelier já soma mais de 20 mil seguidores.